domingo, 28 de julho de 2013

As armas do futuro, por Walter Benjamin


As armas do futuro, por Walter Benjamin

Por Racismo Ambiental (RA), 28/07/2013 12:18 (in Folha/Uol)

Em texto de 1925, inédito em português, Walter Benjamin fala de armas químicas, como o gás lacrimogêneo, e prevê sua vulgarização. Editado pelo jornal “Vossische Zeitung” sem sua assinatura, o artigo foi catalogado pelo filósofo entre suas obras publicadas e sairá no Brasil no livro “O Capitalismo como Religião”, da Boitempo.  Tradução: Nélio Schneider.


As designações anteriores(1) serão tão populares na próxima guerra quanto “trincheira”, “submarino”, “Berta Gorda”(2) e “tanque” foram na passada. Para os vocábulos químicos difíceis de pronunciar serão adotadas em poucos dias cômodas abreviações. E essas expressões, promovidas em poucas horas a uma atualidade jamais imaginada, superarão em popularidade o vocabulário de todos os relatórios dos fronts escritos de 1914 a 1918.

Elas dizem respeito a cada pessoa diretamente. A guerra vindoura terá um front espectral. Um front que será deslocado fantasmagoricamente ora para esta, ora para aquela metrópole, para suas ruas, diante da porta de cada uma de suas casas. Ademais, essa guerra, a guerra do gás que vem dos ares, representará um risco literalmente “de tirar o fôlego”, em que esse termo assumirá um sentido até agora desconhecido. Porque sua peculiaridade estratégica mais incisiva reside nisto: ser a forma mais pura e radical de guerra ofensiva. Não há defesa eficiente contra os ataques com gás pelo ar. Até mesmo as medidas privadas de proteção, as máscaras antigás, falham na maioria dos casos.

Por conseguinte, o ritmo do conflito bélico vindouro será ditado pela tentativa não só de defender-se mas também de suplantar os terrores provocados pelo inimigo por terrores dez vezes maiores. Em consequência, é irrelevante quando teóricos mais bem intencionados acenam com a perspectiva “humana” do gás lacrimogêneo, e até procuram criar simpatia pela guerra com o gás, comparando-a com a guerra aérea com materiais explosivos.

Outros já têm a visão mais aguçada, quando colocam de antemão e em primeiro plano, como motivo para o ataque com gás (cuja importância crescente já foi ensinada pela guerra passada), o seguinte: a finalidade última das ações da frota aérea deve ser destruir a vontade de resistência inimiga. Alguns poucos “raids” [ataques] devem infundir na população dos centros inimigos um terror inconsciente tal que malogre qualquer apelo à organização da resistência. O terror deve ser algo similar à psicose.

Uma imagem que nada tem das utopias de Wells e Júlio Verne: nas ruas de Berlim, espalha-se sob o belo e radiante céu primaveril um cheiro parecido com o das violetas. Isso dura alguns minutos. Logo em seguida, o ar se tornará sufocante. Quem não lograr escapar da sua esfera de ação nos minutos seguintes não conseguirá mais reconhecer nada, perderá momentaneamente a visão.

E, se ainda não for bem-sucedido na fuga ou se nenhum transporte o recolher, morrerá sufocado. Tudo isso poderá suceder um dia sem que se veja no céu qualquer aeronave nem se perceba o ronco de uma hélice. O céu poderá estar claro e o sol brilhando, mas invisível e inaudível, a uma altitude de 5.000 metros, paira um esquadrão aéreo respingando cloroacetofenona, gás lacrimogêneo, o “mais humano” dos novos recursos que, como se sabe, já teve certa importância nos ataques com gás da última guerra.

Não há meio confiável que permita perceber a presença dos esquadrões entre cinco e seis quilômetros acima da superfície da Terra. Ao menos publicamente não se conhece nenhum. É que a “ouverture” abafada que há anos está sendo executada nos laboratórios químicos e técnicos só chega aos ouvidos do público em forma de dissonâncias isoladas.

Esporadicamente fica-se sabendo de coisas, como da invenção de um receptor acústico muito sensível, capaz de registrar o ronco de hélices a grandes distâncias. E alguns meses depois ouve-se falar da invenção de uma aeronave silenciosa.

Alguns fatos que o correspondente de guerra norte-americano William G. Shepherd divulga no “Liberty” sobre a “aplicabilidade” do parque aeronáutico francês na guerra são ilustrativos.

A França possui hoje pelo menos 2.500 aeronaves no serviço ativo à paz; há mais na reserva. A tonelagem total das forças aéreas francesas, dependendo da altitude de voo, comporta entre 600 e 3.000 toneladas. Shepherd põe Londres como alvo. O centro de Londres, sede de todos os institutos vitais do Império Britânico, cobre quatro milhas quadradas inglesas. Para se tornar inabitável por vários meses, essa área exige a aplicação de 120 toneladas de sulfeto de dicloroetila, o gás mostarda.

Considerando que sobre esse território podem voar ao mesmo tempo -dentro da mesma camada atmosférica, naturalmente- no máximo 250 aviadores, cada um deles carregando pelo menos 250 quilos, e que esse esquadrão despeje uma tonelada por minuto, o coração do império mundial britânico -sempre de acordo com a abordagem de Shepherd- terá parado de bater após dois minutos.

INÉRCIA

O aspecto problemático dessas exposições é que a fantasia humana se recusa a acompanhá-las, e justamente a monstruosidade do destino ameaçador se torna um pretexto para a inércia mental. Sua tentativa de convencimento sempre resulta em que uma guerra dessas ou é de todo “impossível” ou seria de extrema brevidade. Na verdade, essa guerra só terminaria num breve instante se a respectiva base dos esquadrões aeronáuticos fosse conhecida dos combatentes.

Não é esse o caso. Pois essa base de modo algum precisa situar-se em terra. Em algum lugar do oceano, as aeronaves podem alçar voo de navios porta-aviões, que mudam constantemente sua localização sobre as águas.

Com o que se parecem os gases venenosos, cuja aplicação pressupõe a suspensão de todos os movimentos humanos? Conhecemos 17 até agora, dos quais o gás mostarda e a lewisita são os mais importantes.

As máscaras antigases não oferecem proteção contra eles. O gás mostarda corrói a carne e, quando não acarreta diretamente a morte, produz queimaduras cuja cura demanda três meses. Esse gás permanece virulento durante meses em objetos que entraram em contato com ele. Nas regiões que alguma vez foram alvo de um ataque com gás mostarda, meses depois, cada pisada no solo, cada maçaneta de porta e cada faca de pão ainda podem provocar a morte.

O gás mostarda, a exemplo de muitos outros gases venenosos, torna todos os víveres incomestíveis e envenena a água. Os estrategistas imaginam assim a utilização desse recurso: certos distritos taticamente importantes devem ser cercados com barreiras de gás mostarda ou então de difenilamina cloroarsina.

Dentro dessas barreiras tudo perece e nada consegue passar por elas. Desse modo, casas, cidades, campos podem ser preparados de tal forma que, durante meses, nenhuma vida animal ou vegetal é capaz de medrar neles. Nem é preciso dizer que, no caso da guerra com gás, cai por terra a diferenciação entre população civil e população combatente e, desse modo, um dos fundamentos mais sólidos do direito dos povos.

A lewisita é um veneno à base de arsênico que penetra imediatamente no sangue, matando de forma irremediável e súbita tudo o que atinge. Durante meses todas as áreas atingidas por ataques com esse gás ficam empestadas de cadáveres. Naturalmente não existe proteção contra ele em tais regiões: porões subterrâneos, que protegem quando muito de bombas explosivas, trazem a morte certa no caso de ataques com gás, porque o gás, pesado, tende para os lugares mais baixos.

Ora, como se sabe, o Comitê Central da Liga das Nações instituiu uma Comissão para o Estudo da Guerra Química e Bacteriológica. Dessa comissão participaram autoridades internacionais. Seu relatório não foi tratado com a devida consideração. A grande política ainda prioriza problemas de armamentismo e desarmamento cuja relevância se desfaz no ar frente aos fatos referentes aos preparativos para a guerra química.

A persistência com que, na execução do Tratado de Versalhes pela Alemanha, foram questionados ridículos requisitos militares não tem só um aspecto desagradável mas sobretudo algo de sumamente perigoso. Porque ela desvia a atenção pública do único problema atual do militarismo internacional.

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WALTER BENJAMIN (1892-1940), filósofo e crítico literário alemão, autor de “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”.

NÉLIO SCHNEIDER, 52, tradutor do alemão especialista na área de ciências humanas, assina a versão em português de novo livro de ensaios de Walter Benjamin, a sair pela Boitempo, “O Capitalismo como Religião”.

Notas

1. Cloroacetofenona, difenilamina cloroarsina e sulfeto de dicloroetila são os nomes dos compostos químicos usados como armas; eles integravam o subtítulo original do artigo de Benjamin, daí a menção às “designações anteriores”.
2. “Dicke Berta”, em alemão, era o apelido de um morteiro de 42 centímetros, desenvolvido pela firma alemã Krupp para a Primeira Guerra Mundial. (N.T.)

Enviada para Combate Racismo Ambiental por José Carlos.


terça-feira, 2 de julho de 2013

Marilena Chauí: O inferno urbano e a política do favor, tutela e cooptação


Marilena Chauí: O inferno urbano e a política do favor, tutela e cooptação 
          publicado em 27 de junho de 2013 às 15:30
As manifestações de junho de 2013 na cidade de São Paulo
          por Marilena Chaui, na revista Teoria e Debate

Observações preliminares

O que segue não são reflexões sobre todas as manifestações ocorridas no país, mas focalizam principalmente as ocorridas na cidade de São Paulo, embora algumas palavras de ordem e algumas atitudes tenham sido comuns às manifestações de outras cidades (a forma da convocação, a questão da tarifa do transporte coletivo como ponto de partida, a desconfiança com relação à institucionalidade política como ponto de chegada) bem como o tratamento dado a elas pelos meios de comunicação (condenação inicial e celebração final, com criminalização dos “vândalos”) permitam algumas considerações mais gerais a título de conclusão.

O estopim das manifestações paulistanas foi o aumento da tarifa do transporte público e a ação contestatória da esquerda com o Movimento Passe Livre (MPL), cuja existência data de 2005 e é composto por militantes de partidos de esquerda. Em sua reivindicação especifica, o movimento foi vitorioso sob dois aspectos: 1. conseguiu a redução da tarifa; 2. definiu a questão do transporte público no plano dos direitos dos cidadãos e, portanto, afirmou o núcleo da prática democrática, qual seja, a criação e defesa de direitos por intermédio da explicitação (e não do ocultamento) dos conflitos sociais e políticos.

O inferno urbano

Não foram poucos os que, pelos meios de comunicação, exprimiram sua perplexidade diante das manifestações de junho de 2013: de onde vieram e por que vieram se os grandes problemas que sempre atormentaram o país (desemprego, inflação, violência urbana e no campo) estão com soluções bem encaminhadas e reina a estabilidade política? As perguntas são justas, mas a perplexidade, não, desde que  voltemos nosso olhar para um ponto que foi sempre o foco dos movimentos populares: a situação da vida urbana nas grandes metrópoles brasileiras.

Quais os traços mais marcantes da cidade de São Paulo nos últimos anos e que, sob certos aspectos, podem ser generalizados para as demais? Resumidamente, podemos dizer que são os seguintes:

– explosão do uso do automóvel individual: a mobilidade urbana se tornou quase impossível, ao mesmo tempo em que a cidade se estrutura com um sistema viário destinado aos carros individuais em detrimento do transporte coletivo, mas nem mesmo esse sistema é capaz de resolver o problema;

– explosão imobiliária com os grandes condomínios (verticais e horizontais) e shopping centers, que produzem uma densidade demográfica praticamente incontrolável além de não contar com uma redes de água, eletricidade e esgoto, os problemas sendo evidentes, por exemplo, na ocasião de chuvas;

– aumento da exclusão social e da desigualdade com a expulsão dos moradores das regiões favorecidas pelas grandes especulações imobiliárias e o conseqüente aumento das periferias carentes e de sua crescente distância com relação aos locais de trabalho, educação e serviços de saúde. (No caso de São Paulo, como aponta Hermínia Maricatto, deu-se a ocupação das regiões de mananciais, pondo em risco a saúde de toda a população); em resumo: degradação da vida cotidiana das camadas mais pobres da cidade;

– o transporte coletivo indecente, indigno e mortífero.  No caso de São Paulo, sabe-se que o programa do metrô previa a entrega de 450 k de vias até 1990; de fato, até 2013, o governo estadual apresenta 90 k. Além disso, a frota de trens metroviários não foi ampliada, está envelhecida e mal conservada; além da insuficiência quantitativa para atender a demanda, há atrasos constantes por quebra de trens e dos instrumentos de controle das operações. O mesmo pode ser dito dos trens da CPTU, que também são de responsabilidade do governo estadual.

No caso do transporte por ônibus, sob responsabilidade municipal, um cartel domina completamente o setor sem prestar contas a ninguém: os ônibus são feitos com carrocerias destinadas a caminhões, portanto, feitos para transportar coisas e não pessoas; as frotas estão envelhecidas e quantitativamente defasadas com relação às necessidades da população, sobretudo as das periferias da cidade; as linhas são extremamente longas porque isso as torna mais lucrativas, de maneira que os passageiros são obrigados a trajetos absurdos, gastando horas para ir ao trabalho, às escolas, aos serviços de saúde e voltar para casa; não há linhas conectando pontos do centro da cidade nem linhas inter-bairros, de maneira que o uso do automóvel individual se torna quase inevitável para trajetos menores.

Em resumo: definidas e orientadas pelos imperativos dos interesses privados, as montadoras de veículos, empreiteiras da construção civil e empresas de transporte coletivo dominam a cidade sem assumir qualquer responsabilidade pública, impondo o que chamo de inferno urbano.

2. As manifestações paulistanas

A tradição de lutas

Recordando: A cidade de São Paulo (como várias das grandes cidades brasileiras) tem uma tradição histórica de revoltas populares contra as péssimas condições do transporte coletivo, isto é, a tradição do quebra-quebra quando, desesperados e enfurecidos, os cidadãos quebram e incendeiam ônibus e trens (à maneira do que faziam os operários no início da Segunda Revolução Industrial, quando usavam os tamancos de madeira – em francês, os sabots – para quebrar as máquinas – donde a palavra francesa sabotage, sabotagem). Entretanto, não foi este o caminho tomado pelas manifestações atuais e valeria a pena indagar por que. Talvez porque, vindo da esquerda, o MPL politiza explicitamente a contestação, em vez de politiza-la simbolicamente, como faz o quebra-quebra.

Recordando: Nas décadas de 1970 a 1990, as organizações de classe (sindicatos, associações, entidades) e os movimentos sociais e populares tiveram um papel político decisivo na implantação da democracia no Brasil pelos seguintes motivos:

1. introdução da idéia de direitos sociais, econômicos e culturais para além dos direitos civis liberais;

2. afirmação da capacidade auto-organizativa da sociedade;

3. introdução da prática da democracia participativa como condição da democracia representativa a ser efetivada pelos partidos políticos. Numa palavra: sindicatos, associações, entidades, movimentos sociais e movimentos populares eram políticos, valorizavam a política, propunham mudanças políticas e rumaram para a criação de partidos políticos como mediadores institucionais de suas demandas.

Isso quase desapareceu da cena histórica como efeito do neoliberalismo, que produziu:

1. fragmentação, terceirização e precarização do trabalho (tanto industrial como de serviços) dispersando a classe trabalhadora, que se vê diante do risco da perda de seus referenciais de identidade e de luta;

2. refluxo dos movimentos sociais e populares e sua substituição pelas ONGs, cuja lógica é distinta daquela que rege os movimentos sociais;

3. surgimento de uma nova classe trabalhadora heterogênea, fragmentada, ainda desorganizada e que por isso ainda não tem suas próprias formas de luta e não se apresenta no espaço público e que por isso mesmo é atraída e devorada por ideologias individualistas como a “teologia da prosperidade” (do pentecostalismo) e a ideologia do “empreendedorismo” (da classe média), que estimulam a competição, o isolamento e o conflito inter-pessoal, quebrando formas anteriores de sociabilidade solidária e de luta coletiva.

Erguendo-se contra os efeitos do inferno urbano, as manifestações guardaram da tradição dos movimentos sociais e populares a organização horizontal, sem distinção hierárquica entre dirigentes e dirigidos. Mas, diversamente dos movimentos sociais e populares,  tiveram uma forma de convocação que as transformou num movimento de massa, com milhares de manifestantes nas ruas.

O pensamento mágico

A convocação foi feita por meio das redes sociais. Apesar da celebração  desse tipo de convocação, que derruba o monopólio dos meios de comunicação de massa, entretanto é preciso mencionar alguns problemas postos pelo uso dessas redes, que possui algumas características que o aproximam dos procedimentos da midia:

a. é indiferenciada: poderia ser para um show da Madonna, para uma maratona esportiva, etc. e calhou ser por causa da tarifa do transporte público;

b. tem a forma de um evento, ou seja, é pontual, sem passado, sem futuro e sem saldo organizativo porque, embora tenha partido de um movimento social (o MPL), à medida que cresceu passou á recusa gradativa da estrutura de um movimento social para se tornar um espetáculo de massa. (Dois exemplos confirmam isso: a ocupação de Wall Street pelos jovens de Nova York e que, antes de se dissolver, se tornou um ponto de atração turística para os que visitavam a cidade; e o caso do Egito, mais triste, pois com o fato das manifestações permanecerem como eventos e não se tornarem uma forma de auto-organização política da sociedade, deram ocasião para que os poderes existentes passassem de uma ditadura para outra);

c. assume gradativamente uma dimensão mágica, cuja origem se encontra na natureza do próprio instrumento tecnológico empregado, pois este opera magicamente, uma vez que os usuários são, exatamente, usuários e, portanto, não possuem o controle técnico e econômico do instrumento que usam – ou seja, deste ponto de vista, encontram-se na mesma situação que os receptores dos meios de comunicação de massa.

A dimensão é mágica porque, assim como basta apertar um botão para tudo aparecer, assim também se acredita que basta querer para fazer acontecer. Ora, além da ausência de controle real sobre o instrumento, a magia repõe um dos recursos mais profundos da sociedade de consumo difundida pelos meios de comunicação, qual seja, a idéia de satisfação imediata do desejo, sem qualquer mediação;

d. a recusa das mediações institucionais indica que estamos diante de uma ação própria da sociedade de massa, portanto,  indiferente à determinação de classe social; ou seja, no caso presente, ao se apresentar como uma ação da juventude, o movimento  assume a aparência de que o  universo dos manifestantes é homogêneo ou de massa, ainda que, efetivamente, seja heterogêneo do ponto de vista econômico, social e político, bastando lembrar que as manifestações das periferias não foram apenas de “juventude” nem de classe média, mas de jovens, adultos, crianças e idosos da classe trabalhadora.

No ponto de chegada, as manifestações introduziram o tema da corrupção política e a recusa dos partidos políticos. Sabemos que o MPL é  constituído por militantes de vários partidos de esquerda e, para assegurar a unidade do movimento, evitou a referência aos partidos de origem.

Por isso foi às ruas sem definir-se como expressão de partidos políticos e, em São Paulo, quando, na comemoração da vitória, os militantes partidários compareceram às ruas foram execrados, espancados, e expulsos como oportunistas – sofreram repressão violenta por parte da massa. Ou seja, alguns manifestantes praticaram sobre outros a violência que condenaram na polícia.

A crítica às instituições políticas não é infundada, mas possui base concreta:

a. no plano conjuntural: o inferno urbano é, efetivamente, responsabilidade dos partidos políticos governantes;

b. no plano estrutural: no Brasil, sociedade autoritária e excludente, os partidos políticos tendem a ser clubes privados de oligarquias locais, que usam o público para seus interesses privados; a qualidade dos legislativos nos três níveis é a mais baixa possível e a corrupção é estrutural; como consequência,  a relação de representação não se concretiza porque vigoram relações de favor, clientela, tutela e cooptação;

c. a crítica ao PT:  de ter abandonado a relação com aquilo que determinou seu nascimento e crescimento, isto é, o campo das lutas sociais auto-organizadas e ter-se transformado numa máquina burocrática e eleitoral (como têm dito e escrito muitos militantes ao longo dos últimos 20 anos).

Isso, porém, embora explique a recusa, não significa que esta tenha sido motivada pela clara compreensão do problema por parte dos manifestantes. De fato, a maioria deles não exprime em suas falas uma análise das causas desse modo de funcionamento dos partidos políticos, qual seja, a estrutura autoritária da sociedade brasileira, de um lado, e, de outro, o sistema político-partidário montado pelos casuímos da ditadura. Em lugar de lutar por uma reforma política, boa parte dos manifestantes recusa a legitimidade do partido político como instituição republicana e democrática.

Assim, sob este aspecto, apesar do uso das redes sociais e da crítica aos meios de comunicação, a maioria dos manifestantes aderiu à mensagem ideológica difundida anos a fio pelos meios de comunicação de que os partidos são corruptos por essência.

Como se sabe, essa posição dos meios de comunicação tem a finalidade de lhes conferir o monopólio das funções do espaço público, como se não fossem empresas  capitalistas movidas por interesses privados.

Dessa maneira, a recusa dos meios de comunicação e as críticas a eles endereçadas pelos manifestantes não impediram que grande parte deles aderisse à perspectiva da classe média conservadora difundida pela mídia a respeito da ética.

De fato, a maioria dos manifestantes, reproduzindo a linguagem midiática, falou de ética na política (ou seja, a transposição dos valores do espaço privado para o espaço público), quando, na verdade, se trataria de afirmar a ética da política (isto é, valores propriamente públicos), ética que não depende das virtudes morais das pessoas privadas dos políticos e sim da qualidade das instituições públicas enquanto instituições republicanas.

A ética da política, no nosso caso, depende de uma profunda reforma política que crie instituições democráticas republicanas e destrua de uma vez por todas a estrutura deixada pela ditadura, que força os partidos políticos a coalizões absurdas se quiserem governar, coalizões que comprometem o sentido e a finalidade de seus programas e abrem as comportas para a corrupção.

Em lugar da ideologia conservadora e midiática de que, por definição e por essência, a política é corrupta, trata-se de promover uma prática inovadora capaz de criar instituições públicas que impeçam a corrupção, garantam a participação, a representação e o controle dos interesses públicos e dos direitos pelos cidadãos. Numa palavra, uma invenção democrática.

Ora, ao entrar em cena o pensamento mágico, os manifestantes deixam de lado que, até que uma nova forma da política seja criada num futuro distante quando, talvez, a política se realizará sem partidos, por enquanto, numa república democrática (ao contrário de uma ditadura) ninguém governa sem um partido, pois é este que cria e prepara quadros para as funções governamentais para concretização dos objetivos e das metas dos governantes eleitos.

Bastaria que os manifestantes se informassem sobre o governo Collor para entender isso: Collor partiu das mesmas afirmações feitas por uma parte dos manifestantes (partido político é coisa de “marajá” e é corrupto) e se apresentou como um homem sem partido. Resultado: a) não teve quadros para montar o governo, nem diretrizes e metas coerentes e b) deu feição autocrática ao governo, isto é, “o governo sou eu”. Deu no que deu.

Além disso, parte dos manifestantes está adotando a posição ideológica típica da classe média, que aspira por governos sem mediações institucionais e, portanto, ditatoriais. Eis porque surge a afirmação de muitos manifestantes, enrolados na bandeira nacional, de que “meu partido é meu país”, ignorando, talvez, que essa foi uma das afirmações fundamentais do nazismo contra os partidos políticos.

Assim, em lugar de inventar uma nova política, de ir rumo a uma invenção democrática, o pensamento mágico de grande parte dos manifestantes se ergueu contra a política, reduzida à figura da corrupção. Historicamente, sabemos onde isso foi dar.

E por isso não nos devem surpreender, ainda que devam nos alarmar, as imagens de jovens militantes de partidos e movimentos sociais de esquerda espancados e ensangüentados durante a manifestação de comemoração da vitória do MPL.

Já vimos essas imagens na Itália dos anos 1920, na Alemanha dos anos 1930 e no Brasil dos anos 1960-1970.

Conclusão provisória

Do ponto de vista simbólico, as manifestações possuem um sentido importante que contrabalança os problemas aqui mencionados.

Não se trata, como se ouviu dizer nos meios de comunicação, que finalmente os jovens abandonaram a “bolha” do condomínio e do shopping center e decidiram ocupar as ruas (já podemos prever o número de novelas e mini-séries que usarão essa idéia para incrementar o programa High School Brasil, da Rede Globo).

Simbolicamente, malgrado eles próprios e malgrado suas afirmações explícitas contra a política, os manifestantes realizaram um evento político: disseram não ao que aí está, contestando as ações dos poderes executivos municipais, estaduais e federal, assim como as do poder legislativo nos três níveis.

Praticando a tradição do humor corrosivo que percorre as ruas, modificaram o sentido corriqueiro das palavras e do discurso conservador por meio da inversão das significações e da irreverência, indicaram uma nova possibilidade de práxis política, uma brecha para repensar o poder, como escreveu um filósofo político sobre os acontecimentos de maio de 1968 na Europa.

Justamente porque uma nova possibilidade política está aberta, algumas observações merecem ser feitas para que fiquemos alertas aos riscos de apropriação e destruição dessa possibilidade pela direita conservadora e reacionária.

Comecemos por uma obviedade: como as manifestações são de massa (de juventude, como propala a mídia) e não aparecem em sua determinação de classe social, que, entretanto, é clara na composição social das manifestações das periferias paulistanas, é preciso lembrar que uma parte dos manifestantes não vive nas periferias das cidades, não experimenta a violência do cotidiano experimentada pela outra parte dos manifestantes.

Com isso, podemos fazer algumas indagações.

Por exemplo: os jovens manifestantes de classe média que vivem nos condomínios têm idéia de que suas famílias também são responsáveis pelo inferno urbano (o aumento da densidade demográfica dos bairros e a expulsão dos moradores populares para as periferias distantes e carentes)? Os jovens manifestantes de classe média que, no dia em que fizeram 18 anos, ganharam de presente um automóvel (ou estão na expectativa do presente quando completarem essa idade), têm idéia de que também são responsáveis pelo inferno urbano? Não é paradoxal, então, que se ponham a lutar contra aquilo que é resultado de sua própria ação (isto é, de suas famílias), mas atribuindo tudo isso à política corrupta, como é típico da classe média?

Essas indagações não são gratuitas nem expressão de má-vontade a respeito das manifestações de 2013. Elas têm um motivo político e um lastro histórico.

Motivo político: assinalamos anteriormente o risco de apropriação das manifestações rumo ao conservadorismo e ao autoritarismo. Só será possível evitar esse risco se os jovens manifestantes levarem em conta algumas perguntas:

1. estão dispostos a lutar contra as ações que causam o inferno urbano e, portanto, enfrentar pra valer o poder do capital de montadoras, empreiteiras e cartéis de transporte que, como todo sabem não se relacionam  pacificamente (para dizer o mínimo) com demandas sociais?

2. estão dispostos a abandonar a suposição de que a política se faz magicamente sem mediações institucionais?

3. estão dispostos a se engajar na luta pela reforma política, a fim de inventar uma nova política, libertária, democrática, republicana, participativa?

4. estão dispostos a não reduzir sua participação a um evento pontual e efêmero e a não se deixar seduzir pela imagem que deles querem produzir os meios de comunicação?

Lastro histórico: quando Luiza Erundina, partindo das demandas dos movimentos populares e dos compromissos com a justiça social, propôs a Tarifa Zero para o transporte público de São Paulo, ela explicou à sociedade que a tarifa precisava ser subsidiada pela Prefeitura e que ela não faria o subsídio implicar em cortes nos orçamentos de educação, saúde, moradia e assistência social, isto é, dos programas sociais prioritários de seu governo.

Antes de propor a Tarifa Zero, ela aumentou em 500% a frota da CMTC (explicação para os jovens: CMTC era a antiga empresa municipal de transporte) e forçou os empresários privados a renovar sua frota.

Depois disso, em inúmeras audiências públicas, ela apresentou todos os dados e planilhas da CMTC e obrigou os empresários das companhias privadas de transporte coletivo a fazer o mesmo, de maneira que a sociedade ficou plenamente informada quanto aos recursos que seriam necessários para o subsídio.

Ela propôs, então, que o subsídio viesse de uma mudança tributária: o IPTU progressivo, isto é, o imposto predial seria aumentado para os imóveis dos mais ricos, que contribuiriam para o subsídio juntamente com outros recursos da Prefeitura.

Na medida que os mais ricos, como pessoas privadas, têm serviçais domésticos que usam o transporte público, e, como empresários, têm funcionários usuários desse mesmo transporte, uma forma de realizar a transferência de renda, que é base da justiça social, seria exatamente fazer com que uma parte do subsídio viesse do novo IPTU.

Os jovens manifestantes de hoje desconhecem o que se passou: comerciantes fecharam ruas inteiras, empresários ameaçaram lockout das empresas, nos “bairros nobres” foram feitas  manifestações contra o “totalitarismo comunista” da prefeita e os poderosos da cidade “negociaram” com os vereadores a não aprovação do projeto de lei.

A Tarifa Zero não foi implantada. Discutida na forma de democracia participativa, apresentada com lisura e ética política, sem qualquer mancha possível de corrupção, a proposta foi rejeitada.

Esse lastro histórico mostra o limite do pensamento mágico, pois não basta ausência de corrupção, como imaginam os manifestantes, para que tudo aconteça imediatamente da melhor maneira e como se deseja.

Cabe uma última observação: se não levarem em consideração a divisão social das classes, isto é, os conflitos de interesses e de poderes econômico-sociais na sociedade, os manifestantes não compreenderão o campo econômico-político no qual estão se movendo quando imaginam estar agindo fora da política e contra ela.

Entre os vários riscos dessa imaginação, convém lembrar aos manifestantes que se situam à esquerda que, se não tiverem autonomia política e se não a defenderem com muita garra, poderão, no Brasil, colocar água no moinho dos mesmos poderes econômicos e políticos que organizaram grandes manifestações de direita na Venezuela, na Bolívia, no Chile, no Peru, no Uruguai e na Argentina. E a mídia, penhorada, agradecerá pelos altos índices de audiência.

Fonte: Viomundo

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O retorno a Diderot


O retorno a Diderot

Mauro Santayana
Jornal do Brasil - 15/03/2013

Este deveria ser, em todas as universidades do mundo, o Ano de Diderot. Em outubro fará 300 anos de nascimento do pensador que, mais do que qualquer outro de seus contemporâneos, acendeu as velas do Iluminismo e ajudou a dar autonomia à razão dos homens. Diderot morreu cinco anos antes da Revolução Francesa. Sem ele, ela teria sido inviável.

Voltar a Diderot não é fuga de cronista político de atualidades, entediado, como tantos outros que sofrem com a mediocridade de nossos tempos chochos, mas convite à reflexão. Estamos em pausa, não obstante a turbulência aparente. A História cochila no mormaço de uma tarde que se alonga, enquanto as universidades, as grandes editoras de livros, e o meio estridente da internet — em que ainda se depositam esperanças — se encontram, a cada dia mais, sob o domínio das instituições financeiras. A moeda, ficção útil à sociedade dos homens, se tornou, manipulada por seus guardiões, instrumento de dissimulada tirania. E essa tirania limita a liberdade de pensar e de criar.

Diderot, filho de um mestre cuteleiro de Langres, estava destinado ao sacerdócio, de onde escapou ainda cedo. Educado pelos jesuítas,  levou algum tempo para abandonar a crença católica. Dedicou-se ao estudo das artes. Aos 19 anos, obteve o mestrado na Universidade de Paris. Depois de breve incursão no campo do direito,  passou a viver aleatoriamente. Dava aulas eventuais e, como ghost writer, redigia sermões para missionários. Ao frequentar os cafés da moda, conheceu Rousseau, um ano mais velho, e os dois, que se identificavam na inquietação filosófica e na sedução pessoal, tornaram-se o centro de um grupo que daria motor ao Iluminismo. Durante anos, ele, Condillac e Rousseau se reuniam para jantar e pensar em comum, no Panier Fleuri, singular restaurante da cidade naquele tempo.

Era senhor de um talento universal. Seu conhecimento ia da alta matemática de então aos ensaios em biologia —  que o fez antecipar-se a Darwin, ao discutir a capacidade da adaptação ao ambiente dos cegos, mediante o tato, e inspirar Braille. E ainda havia a sua surpreendente literatura de ficção.  Diderot, no entanto, foi, antes de tudo, homem de ação.

Ao ser convidado pelo editor André Le Breton para traduzir a discreta enciclopédia britânica de Chambers, em dois volumes, e, diante da recusa do seu autor em permitir a edição francesa, Diderot encontrou sua pólvora. Ele, Rousseau, Condillac e outros só viam uma saída para a Humanidade: a universalização do conhecimento. Decidiu-se, então, pelo ambicioso projeto da Encyclopédie e trouxe para a empreitada o químico — mas também grande humanista — D´Alembert.

Durante 21 anos, de 1751 a 1772, Diderot — sem abandonar suas múltiplas atividades e intensa vida social — empenhou-se na execução dos 17 extensos volumes da Enciclopédia. Além de rever todos os artigos e de fazer o que chamaríamos hoje “a lincagem” entre os vários verbetes para o melhor entendimento dos temas, Diderot administrou todo o processo editorial e comercial do projeto. Enfrentou a censura, e, mais do que ela, a reação da Igreja e dos aproveitadores das injustiças sociais e do obscurantismo que temiam o conhecimento da verdade pelas massas. Para não deixar dúvida de seu objetivo, Diderot deu à grande obra o subtítulo de Dictionnaire Raisonné: não se tratava de uma coleção de verbetes mas de uma incitação à liberdade de pensar sem os dogmas castradores da Igreja e seus teólogos.

Entre todos os depoimentos da grandeza de Diderot — que vendeu sua biblioteca para Catarina II da Rússia e dela ganhou uma pensão para viver seus últimos anos — está a de uma mulher da nobreza russa, princesa de Dachkov, que o conheceu em Paris. Disse ela, em suas memórias: “O mundo não conheceu bem esse homem extraordinário. Sua paixão dominante e seus estudos só visavam a contribuir para a felicidade de seus semelhantes”.

Se André Maulraux fosse hoje o ministro da Cultura da França,  provavelmente editaria  nova edição raisonnée, da Enciclopédia: os verbetes científicos podem estar superados pelas novas descobertas, mas o gênio insuperável dos enciclopedistas, Diderot à frente,  poderia despertar a inteligência universal da modorra em que letargia. É uma dívida da França com seu grande homem de pensamento e ação e para com a Humanidade em crise.

Extraído de JB



quarta-feira, 13 de março de 2013

Marx
                Antonio Delfim Netto
                                            13/03/2013 - 03h30 - FSP

Em 22 de fevereiro último, Cassiano Elek Machado publicou, nesta Folha, erudita nota sobre a nova tradução de "O Capital", realizada pelo competente marxólogo Rubens Enderle. Esta será publicada pela editora Boitempo (o terceiro volume sai até 2015), que já tem no seu catálogo outras obras em traduções muito bem cuidadas dos textos restabelecidos pelas edições críticas (Mega) das obras completas da dupla Marx-Engels.

Cassiano colocou uma mesma pergunta ("Por que ler Marx hoje?") a mim e a três brilhantes filósofos, seguramente mais conhecedores da obra de Marx do que eu. Eles deram respostas argumentadas e definitivas. Eu, um modesto economista, pensei em me livrar dela respondendo simplesmente: "Porque Marx não é moda. É eterno".

Ledo engano. Recebi a cobrança de alguns elegantes leitores para que a explicitasse. Pois bem, os "marxismos" que continuam a infestar a história são modas: produtos de ocasião de pensadores menores. Há sérias dúvidas, aliás, que Marx tenha alguma vez se reconhecido como "marxista".

Mas a problemática que ele colocou --o que é o homem e como pode realizar plenamente a sua humanidade diante dos constrangimentos que lhe impõe a organização da sociedade-- é eterna. Ele teve muito cuidado em não explicitar a sua solução. Cuidado que não tiveram alguns que se pensaram como seus discípulos no século 20. Quando no poder, decidiram levar a sério a construção do "homem novo", o que terminou em tragédia.

Para dar um pequeno exemplo da intuição de Marx, basta lembrar que, no "Manifesto Comunista" (1848), ele revelou a propensão do capitalismo financeiro emergente e avassalador de produzir uma crescente concentração do poder econômico que, se não fosse coibido pelo poder político, levaria ao desastre social.

A financeirização que ele previa continua forte e abrangente no século 21. Por exemplo, nos últimos dez anos, as commodities tornaram-se ativos financeiros de fundos de investimento internacionais. Em 2000, estes não chegavam a US$ 10 bilhões. Em 2012, passaram de US$ 400 bilhões, um aumento de 40% ao ano! Há menos de 20 anos existiam mais de 20 "traders" de cada commodity (as oito mais importantes tinham mais de 160!). Houve a verticalização e fusão antecipadas por Marx.

Hoje, não passam de 15 organizações que financiam, compram, armazenam, transportam, vendem e especulam com o resultado do trabalho de bilhões de agricultores que não têm o menor controle sobre sua produção. A maior delas, a Glencore, que comercializa tudo, de petróleo e metais a açúcar e trigo, acaba de aumentar sua integração. Comprou uma participação na Ferrous Resources, em Minas Gerais.


domingo, 13 de janeiro de 2013

Rubem Braga entre Sartre, Matisse e Breton


Rubem Braga entre Sartre, Matisse e Breton
 

AUGUSTO MASSI
especial para a FSP - 13/01/2013 - 08h05

Na série em que a "Ilustríssima" adianta os principais lançamentos do ano, leia trecho da apresentação de "Retratos Parisienses" (160 págs., R$ 35), que a José Olympio lança neste mês. Organizado por Augusto Massi, o volume reúne textos inéditos em livro que Rubem Braga (1913-90) escreveu em Paris, em 1950.
 

Ele estava com 37 anos, novamente solteiro e retornava a Paris como correspondente do "Correio da Manhã". Para quem havia participado da cobertura da Segunda Guerra Mundial (1939-45), a temporada parisiense soava, no mínimo, como uma trégua. O salário do jornal, esparsas colaborações para a revista "Leitura", um bico no Escritório Comercial do Brasil e o câmbio favorável permitiam que Rubem Braga, após peregrinar por pensões e prisões em nosso país, pudesse viver confortavelmente em Paris. Talvez, por tudo isso, 1950 tenha sido um dos melhores anos de sua vida.

"Retratos Parisienses" reúne parte substancial da produção do cronista ao longo desses 12 meses. O núcleo central é composto por textos escritos em 1950, na capital francesa. Além de assinar a breve crônica diária "Recado de Paris", estampada na página 2 do "Correio da Manhã", Braga realizou uma série de entrevistas ou reportagens destinadas ao suplemento de cultura. É surpreendente que tais entrevistas tenham permanecido inéditas em livro e, até hoje, não tenham recebido atenção dos estudiosos.


Elas são a melhor prova do quanto o correspondente Rubem Braga trabalhou firme. Entre os entrevistados figuram Pablo Picasso, Jean Cocteau, André Breton, Jean-Paul Sartre, Jacques Prévert, Juliette Gréco. Como se não bastasse a experiência pessoal, intensa e única de cada entrevista, o conjunto possui forte unidade. Elas conversam entre si. Por isso, o leitor reencontrará os primeiros entrevistados citados nas entrevistas subsequentes: Cocteau será criticado por Marie Laurencin, Jacques Prévert mandará lembranças a Chagall, Juliette Gréco fará o elogio de Sartre. 

É como se o cronista se aventurasse pela arte do retrato de escritores, pintores, atores e cantores. A dificuldade para definir o livro do ponto de vista do gênero não diminui em nada a sua importância: é exatamente na mistura de ângulos e falas, planos e colagens que reside o seu interesse. 

A bússola sensível de Rubem Braga apontou a direção histórica a seguir. Ele, que já tinha optado por viver em lugares distantes e periféricos, via-se agora no meio do meio do século, no centro nevrálgico do continente. Numa escala diminuta, "Retratos Parisienses" é um panorama da cultura europeia do pós-Guerra. 

VIDA LITERÁRIA
 
O primeiro interesse de Braga está voltado para a vida literária. Contrariando o folclore de leitor indisciplinado, é notável como ele esboça um amplo quadro das personalidades e dos debates literários da época. Contempla desde a vanguarda heroica --Breton, Cocteau-- até nomes cujo prestígio se consolidaram no pós-Guerra, como Sartre e Prévert. 

Mesmo a quem ele não pôde conhecer ou entrevistar pessoalmente, tratou de comentar na sua coluna, "Recado de Paris". Somos informados sobre as principais revistas, livrarias, polêmicas e os últimos lançamentos em torno de Valéry, Gide, Colette, Claudel, Mauriac etc. 

No âmbito da poesia, é significativo que o cronista tenha dado voz ao italiano Eugenio Montale, com quem já havia travado contato: "Lembro-me que visitei Montale, em Florença, ainda em 1945; ele reassumia tranquilamente o seu lugar de bibliotecário ou zelador de um palácio cheio de livros e obras de arte, lugar que perdera 20 anos antes por causa do fascismo". 

Menos conhecido que Ungaretti, que havia estado entre nós, lecionando literatura italiana, entre 1937 e 1942, na Universidade de São Paulo, Montale é um dos poetas mais sofisticados e complexos do século 20. O que nos leva a considerar que as leituras de Braga nem sempre se pautam por afinidades estilísticas. Sua sensibilidade de leitor é mais elástica e porosa do que podemos imaginar, admira tanto a dicção escarpada de Montale quanto o lirismo cotidiano de Prévert. 

Ao que tudo indica, tinha autonomia na escolha dos entrevistados. Logo, inferimos que ausentes como Albert Camus, figura incontornável na época, não despertavam o seu interesse. Tirando o fato de que o escritor havia acabado de visitar o Brasil, em 1949, e com nova recaída da tuberculose, viveu recluso entre 1950 e 1951, a presença de Camus só se faz notar por intermédio da revista "Combat", da qual fora redator-chefe, e que era sempre citada e recomendada por Braga. 

É visível o destaque dado à passagem de Thomas Mann por Paris, assim como será incontestável o prestígio de Sartre. Encontrar vínculos literários entre o cronista e os dois autores não me parece uma hipótese fecunda. Penso que o interesse seja de fundo político, mediado pela importância do papel do escritor e as novas posições assumidas com o realinhamento ideológico. Não devemos desvincular as modulações líricas da prosa de Rubem Braga de certa inclinação democrática e solidária que o levou a ser um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro (1947). 

Depois de ter coberto a guerra, trata-se agora de cobrir o pós-Guerra. O momento histórico não é dos melhores. Rubem Braga sente a força traiçoeira da vida pulsando nos retratos 3 x 4 que faz dos colaboracionistas: Maurice Sachs, Louis-Ferdinand Céline, Corinne Luchaire. 

É um período de acerto de contas, conflito entre vencedores e vencidos. A política catalisa as energias do cronista. A cada entrevista literária está em jogo o destino da Europa e a redefinição do papel dos intelectuais. Há pouco espaço para as modas ou para o último grito. Paris não é uma festa. 


PINTURA
 
Rivalizando com os escritores, surpreende o número de entrevistas e crônicas dedicadas aos pintores. Rubem Braga nunca foi nem jamais teve qualquer pretensão de atuar como crítico de artes plásticas, como bem demonstra o simpático livrinho "Três Primitivos" (1953), no qual comenta o trabalho "naïf" de Heitor dos Prazeres, Cardosinho e José Antônio da Silva. Mas, durante a temporada parisiense, frequentou com disciplina e afinco todas as exposições de arte moderna. E a cada entrevista ou crônica declara abertamente suas predileções --Picasso, Braque, Matisse-- assim como suas restrições --Marie Laurencin, Chagall, Foujita, De Chirico. 

Penso que a crítica ainda não explorou o seu profundo convívio com as artes plásticas, o quanto ele está entranhado em sua prosa, na sua concepção da imagem poética. Para ficarmos num único e bom exemplo, o olhar treinado do cronista responde por uma das passagens mais agudas desses "Retratos Parisienses", o breve comentário sobre um quadro do holandês Frans Post (1612-80): "O Rio São Francisco" (1638). Em poucas linhas, Rubem Braga disseca a paisagem: 

"À esquerda, um mandacaru ergue os braços, entre as pedras, na beira do rio, há um matinho miúdo, uma cabaça, três flechas de ubá --e uma capivara. Do outro lado da água, um barco, umas casinhas, um caminho que sobe um morro, onde há alguma coisa que deve ser um forte defendendo a entrada do rio. Tudo minucioso e ingênuo no primeiro plano --mas há, nesse mundo de água e de céu, nesses morros baixos e distantes do outro lado do rio, a tristeza dos espaços brasileiros." 

Neste textinho esquecido, garimpado entre milhares de crônicas, podemos ter uma ideia concreta de como o seu olhar era atento, cortante e preciso. Trata-se de um gesto de recuperação da imagem (um mandacaru abre os braços), percepção do mundo sensível (matinho miúdo), ato de salvamento de formas ocultas na paisagem (há alguma coisa que deve ser um forte defendendo a entrada do rio). Todo o movimento de enumeração de coisas concretas termina neste poder de abstração: a tristeza dos espaços brasileiros. 

De repente, somos transportados no tempo, viajamos de 1638 para 1950, trocamos a paisagem de Post por uma mulher de Matisse. Num estado de total encantamento, Braga para diante de um quadro realizado com recortes de papel colorido: 

"Tem dois metros e tanto de altura por um de largura, e apresenta uma mulher de pé, cada mão apoiada a uma mesinha. Está datado de 1950. É espantoso que um octogenário tenha produzido esta obra-prima de esplendor juvenil. Um ou outro traço de desenho, leves e raros retoques a pincel --e essa figura em cores vivas se planta em nossa frente com uma indescritível e luminosa sensualidade." O cronista está em casa. Ele vai navegar. 

É preciso escrever um ensaio capaz de captar, numa única e sinuosa linha, a célebre divisa de "invitation au voyage" (convite à viagem), que está no cerne da experiência lírica de Braga e Matisse: "Luxe, calme et volupté" (luxo, calma e volúpia). O luminoso erotismo que se desprende das frases do cronista tem o mesmo poder de evasão de certas linhas do pintor. Persuasivos até na contemplação. 

O roteiro dos museus e das galerias não é suficiente. Vive cercado de pintores. Visita Foujita na companhia de Clóvis Graciano, ouve Duke Ellington tocar em companhia de Antônio Bandeira, frequenta Cícero Dias e sua mulher Raymonde, diverte-se com Miró e Calder dançando samba, conversa com Portinari e Clóvis Graciano, que retornam da Itália sucumbidos pela pintura dos pré-renascentistas. Para sua alegria, havia 21 pintores brasileiros em Paris. 

CONVÍVIO
 
Não deixa de ser estranho só agora tomar conhecimento de que o cronista introvertido e interiorano conversou com algumas das personalidades que definiram os contornos do século 20. Penso que o charme desses "Retratos Parisienses" está no confronto entre ocultar e revelar. Por causa da função de correspondente, Braga nunca esteve tão exposto ao exercício do diálogo. O jornalismo o obriga a um estilo de vida voltado para o convívio. 

Mas o encanto é que no movimento de aproximação de ícones da cultura também podemos entrever aspectos da personalidade de Braga. Somos impelidos a acompanhá-lo a cada uma das visitas. Através do olhar que lança aos outros, ele acaba se revelando, de corpo inteiro, diante de nós. Ele se resguarda, evita colocar-se cara a cara com seus entrevistados. Por isso, nunca nos sentimos diante do retratado, mas sempre lado a lado com o cronista. Por vezes só vislumbramos o encontro por trás dos seus ombros. 

O posicionamento do cronista afeta radicalmente o estilo da entrevista, que faz pouco uso do tradicional método pingue-pongue, alternando perguntas e respostas. Dessa perspectiva, a palavra retrato, presente no título, adquire novo sentido. Quando Rubem Braga opta por fazer um retrato frontal, temos a fala do entrevistado expressa por travessões, como se criasse uma faixa de pedestres para que o leitor não corra o risco de ser atropelado pelo constante fluxo de vozes. 

Mas, quando opta pelo retrato de perfil e incorpora a voz do entrevistado ao seu próprio texto, coloca ambos entrelaçados no mesmo parágrafo, reduzidos ao mesmo plano, como numa colagem cubista, que ora ilumina o conjunto, ora oculta metade do rosto, ora sobrepõe a mesa do café e o recorte de jornal. 

Podemos afirmar que nunca realizou uma autêntica entrevista. O termo ao qual recorria com certa insistência era visita --"Visita a Jean Cocteau", "Visitando Marie Laurencin"--, ou empregava variações, como "Na casa de Georges Duhamel". Quando a conversa ocorria de forma solta, o título já traduzia a simpatia mútua, caso de Juliette Gréco --"A mais bela professora de filosofia"-- ou a cumplicidade dos velhos amigos que dividem a mesa de um café: "Com Jacques Prévert, em La Reine Blanche". 

O sentimento de pudor predomina. Braga evita se apresentar como jornalista: "Quando me apresentei na casa de Picasso não disse que era jornalista. Não menti, nem mesmo por omissão. Ser jornalista é, sobretudo, fazer perguntas e, na verdade, eu não tinha nenhuma pergunta que lhe pudesse fazer". Em outra passagem da mesma crônica: "Sou o pior jornalista do mundo. Para que fazer perguntas de interesse para uma reportagem?". 

Na "Visita a Jean-Paul Sartre" o velho constrangimento encontra um novo disfarce: "Devemos ir embora, mas a essa altura sinto que já posso abrir o jogo. Confesso-lhe que além de minhas altas funções diplomáticas (Roberto [Assumpção, secretário cultural] me apresentou como se fosse alguém da Embaixada) escrevo alguma coisa sobre literatura francesa para o Brasil. Sei que ele não gosta de dar entrevistas, mas se pudesse...". 

Esse desconforto talvez seja responsável pela beleza áspera, quase irritadiça, de determinadas entrevistas. Distante de qualquer objetividade jornalística, Rubem Braga antes, durante, depois, revela desbragadamente a sua total simpatia ou antipatia pelo entrevistado. Por vezes, como em "Visitando Marie Laurencin", a força do contato humano o faz passar da mais absoluta desconfiança com relação à qualidade artística da pintora até a mais comovente declaração de afeto pela sua figura: 

"Eu me pergunto o que vou escrever sobre essa mulher e, de repente, me dá uma ternura por essa velha trabalhadora de cabelos brancos que anda ao meu lado, uma ternura que dá para entender e cobrir tudo o que nela é mediocridade e despeito. Afinal, ela é um expoente deste meio século, com suas mocinhas de sonho, flores líricas de uma época desigual e bruta; nosso tempo ficaria mais feio e não ficaria melhor se ela não existisse. Despeço-me com respeito de Marie Laurencin." 

O primeiro olhar resulta de uma lenta aproximação. O cronista não sabe bem o que está fazendo ali, recusa-se a invadir a privacidade alheia. O segundo olhar perscruta e investe contra a imagem que já tinha em mente e o quanto ela confere com o personagem que agora está ali, diante dele. 

Em diversas ocasiões, enquanto deveria estar compenetrado na entrevista, pouco a pouco, vai fornecendo ao leitor suas impressões, rápidas descrições físicas misturadas a observações de ordem ética e estética. A intenção principal não é de informar, porém tornar o entrevistado mais próximo e humano: 

"Não sei a idade de Cocteau; deve estar entre os 50 e os 60 anos; os cabelos são grisalhos sobre a testa alta mas fina; há uma coroa, que os cabelos não chegam a dissimular bem, como se ele fosse um padre renegado. A cara é magra, nervosa e triste, talhada de rugas; o nariz bem traçado e firme, a boca pequena, as orelhas agarradas à cabeça e pontudas. Tudo isso lhe dá um ar ao mesmo tempo de cansaço e de atividade; os olhos pequenos, as pálpebras fatigadas, são alternativamente vivos e sonhadores. Fala com rapidez e facilidade, e sua conversa prende, porque passa incessantemente de observações práticas e precisas para coisas de poesia e sonho. Sente-se que ele vive a um só tempo nesses dois mundos; confunde-os em um só, a que chama realidade". 

Tais retratos, feitos ainda sob o impacto da presença física, possuem um traço rápido, incisivo, direto, capaz de nos fornecer uma imagem completa do retratado e, ao mesmo tempo, revelar certas obsessões do cronista. Por exemplo, o gosto pela palavra "retaco" ("atarracado"), empregada para descrever a estatura de Sartre e Picasso. Ou na fascinante contemplação da cabeça do pintor: 

"É um pouco mais baixo do que eu esperava, retaco, musculoso e belo, com sua grande cabeça bronzeada. Sei que vai fazer este verão 69 anos --e eu não lhe daria mais de 54. Conheço bem e tenho prazer em ver pessoalmente essa bela cabeça de homem à qual todas as marcas da passagem do tempo só fizeram ajuntar energia e firmeza: suas rugas, a calvície que lhe aumenta a pureza do vulto." 

Por vezes, para facilitar a vida do leitor brasileiro, naquela época em que a imagem não era tão disponível, Braga tece algumas relações curiosas e hilariantes. Por exemplo, ao tentar descrever Jean Cocteau: "De repente me ocorre que ele parece um pouco com [o crítico] Sérgio Milliet, mais velho e mais rápido para falar e fazer as coisas. Não, não é isso: ele parece um [poeta] Olegário Mariano desidratado". 

Outra passagem repleta de graça é a descrição de Prévert: "Esse homem que, não sei por quê, eu esperava magro, é um senhor meio grosso de 51 anos, rigorosamente vestido de preto, com chapéu preto e no bolso do paletó um lenço que ele pretende ser azul-marinho mas também é preto. Tem a cara avermelhada e os cabelos profusamente grisalhos --uma cara absolutamente típica de qualquer bar de Paris, um irmão mais moço de Jayme Ovalle [compositor]". 

Relendo estes textos me dou conta de que, na década de 1950, a literatura ainda cumpria a função de nos dar a ver a imagem real de um rosto, hoje com a televisão, telefones celulares, câmeras fotográficas, Facebook, tal esforço descritivo se tornou algo superado. Ao ler "Retratos Parisienses" percebo como o recuo da refinada arte de narrar ou descrever representa uma perda brutal. 

O mesmo pode ser dito sobre a fisionomia das cidades como na bela comparação de Rubem Braga: "Paris é feita de ruas, avenidas, perspectivas, Roma é feita de escultura e arquitetura entre a sombra de árvores imensas. Daí a sua beleza grave; nunca se tem vontade de fazer um quadro a óleo, como em Paris, nem uma aquarela, como em Lisboa: Roma só pode ser bem contada em gravuras, tem massas e volumes, não cores". 

BRASIL-FRANÇA
 
"Retratos Parisienses" foi organizado de forma que, ao abrir e fechar o livro, o leitor pudesse sentir um forte interesse na aproximação entre Brasil e França. No pós-Guerra, o maior temor dos franceses era perder terreno para os EUA. Por isso, o governo francês empenhou-se em criar uma política cultural eficaz que previa uma intensa colaboração: concessão de bolsas a artistas brasileiros, maior presença do livro francês, criação da Maison de France no Rio, viagem de intelectuais e companhias francesas ao país. Havia entre os franceses uma disposição para o diálogo com o Brasil, expressa em várias entrevistas de Rubem Braga. 

O clima de chegada e partida foi responsável por duas das melhores crônicas de Rubem Braga, escritas justamente nesta viagem e publicadas em "A Borboleta Amarela" (1955): "A que Partiu" e "A Navegação da Casa". A primeira é marcada pelo estranhamento com a cultura e a língua, a segunda é fruto da saudade e do desejo de voltar criar raízes na casa. 

Na partida de Braga, o jornalista Louis Wiznitzer escreveu, para o "Jornal de Letras", uma nota comovente sobre a convivência com o cronista: "Por muito tempo o cronista de 'Pé de Milho' possuiu um apartamento à rua St.-Dominique; quatro peças de teto baixo e um ateliê que também servia de sala de banho. Aí vinham trabalhar pintores. Sucessivamente, Cícero Dias, Graciano, Bandeira, Portinari, Da Costa ali apareceram para fazer 'gouaches', ou mesmo um retrato do próprio Rubem. Havia, de quando em vez, concursos de pintura. Em todos os quartos, garrafas de conhaque junto a ensaios sobre arte e literatura. Por cima de um espelho, via-se permanentemente escrito: 'Amanhã tem feijoada'. 

Sem dúvida este 'amanhã' não era todos os dias, mas, por vezes, um grupo alegre de gente de teatro, fotógrafos, comerciantes, brasileiros, franceses, suecos ou italianos ali se reunia como que por acaso. Cantava-se em coro 'Boire un petit coup c'est agréable' [canção boêmia francesa], discutia-se pintura abstrata. O apartamento estava sempre cheio. 

Brasileiros em trânsito entre Londres e Rio de Janeiro chegavam a dormir ali. O mesmo sucedia aos que não dispunham provisoriamente de hotel. Todas as manhãs, porém, às 9h, Rubem batia infatigavelmente à máquina as suas crônicas." 

Ele tinha quase 38 anos, permanecia solteiro e deixava Paris pela segunda vez.

Extraído de FSP

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