segunda-feira, 10 de maio de 2010

Revista Veja contra Filosofia e Sociologia

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A “Veja” contra a lei de obrigatoriedade da Filosofia e Sociologia no Ensino Médio.

por Vitor Hugo Fernandes de Souza *
e Diego Felipe de Souza Queiroz *


A revista Veja publicou matéria no dia em sua edição 2158 / 31/03/2010 (também disponível no site) fazendo duras críticas ao ensino de Sociologia e Filosofia no ensino médio, que a partir deste ano é obrigatório em todos os anos do ensino médio. A crítica principal se direciona aos currículos elaborados pelas secretarias estaduais de educação que, segundo a revista, seriam “um festival de conceitos simplificados e de velhos chavões de esquerda”, citando vários estados brasileiros. Seus “profundos” comentários se direcionam também aos cursos de Ciências Sociais, que segundo o autor “se ancoram no ideário marxista”. É citada também uma fala do diretor de um colégio particular de São Paulo: “Está sendo duríssimo achar professores dessas áreas que sejam desprovidos da visão ideológica". Para concluir a o artigo, o autor reproduz o pensamento de um funcionário da própria revista que diz “Os países mais desenvolvidos já entenderam há muito tempo que é absolutamente irreal esperar que todos os estudantes de ensino médio alcancem a complexidade mínima dos temas da sociologia ou da filosofia - ainda mais num país em que os alunos acumulam tantas deficiências básicas, como o Brasil".

Primeiramente, precisamos reconhecer que o papel da grande mídia no sistema capitalista jamais será neutro, pois as comunicações são os instrumentos de difusão e reprodução de ideologias (tanto no sentido comum, como no sentido marxista), que tem por função representar mentalmente as relações sociais, inclusive a educação. É sabido que o setor de comunicação no Brasil é dominado por pouquíssimos grupos, que conseguem reproduzir o seu poder por décadas. Entre os principais estão as organizações Globo e o Grupo Abril, que é proprietário de diversos meios de comunicação, como grandes editoras, canais de televisão, portais na internet, TV por assinatura, etc. A família Civita, proprietária do grupo associou-se, em 2006, à Naspers, grupo de mídia Sul-Africano, estreitamente ligado ao Partido Nacional, de extrema-direita, que legalizou o regime do apartheid naquele país no pós Segunda Guerra Mundial. Então, não estamos falando de uma simples revista, mas de um dos maiores grupos de mídia no Brasil, que reproduz a ideologia dominante e contribui para a preservação do staus quo.

O artigo, de autoria de Marcelo Bortoloti, considera a orientações curriculares das Secretarias de Educação “esquerdistas”. Porque obviamente, para a “Veja” os governos estaduais aliados do governo federal são de esquerda, como o governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Então as suas Secretarias tentariam difundir o marxismo, assim como os cursos de Ciências Sociais e Filosofia. Basta analisar as propostas de orientação curricular do Estado do Rio, deste ano, para Sociologia e Filosofia, que fica evidente que o conteúdo a ser aplicado em sala de aula não tem nada a ver com doutrinamento esquerdista.

charge por Diego Felipe

O autor da matéria quer passar a idéia de que os professores de Sociologia e Filosofia são “ideológicos”, em frase reproduzida no texto e no próprio título, Ideologia na cartilha, o que demonstra uma profunda ignorância sobre o conceito e o debate a respeito da objetividade da ciência. Perguntamos ao autor: Onde não há ideologia? Até na matemática, na física ou na educação física existe ideologia. Quando aprendemos uma determinada fórmula matemática ou uma determinada regra esportiva, poderemos até nos esquecer dela depois, mas a organização mental que foi feita para que aprendamos mesmo que superficialmente estes conteúdos e valores ficam em nossa mente. A ciência não é neutra. Todas as nossas idéias e valores são ideológicos!

A Sociologia e a Filosofia, por lidarem com valores sociais, com a cultura, com visão de mundo estão um pouco mais vulneráveis à interferência da subjetividade. Até Max Weber, ferrenho crítico do marxismo, não cria na possibilidade da imparcialidade total no estudo da sociologia, pois a própria escolha do objeto de estudo já é subjetiva, mas dizia que a objetividade da ciência deve ser buscada ao máximo.

Isso não quer dizer de forma alguma que os professores de Sociologia e Filosofia sejam doutrinadores marxistas, até porque a maioria deles não é sequer marxista. O nosso papel é ajudar os estudantes a desenvolverem o senso crítico e conhecer melhor o mundo onde vivem, de forma a compreender que eles são atores sociais, cidadãos e não meros espectadores; que eles têm poder de intervir no mundo onde vivem e, para isso precisam compreender melhor o funcionamento da sociedade e os seus valores (explícitos ou implícitos). Os conhecimentos de Filosofia e de Sociologia, assim como das matérias já tradicionais, como Matemática e História, são imprescindíveis para o exercício da cidadania. Uma disciplina não é concorrente da outra, são complementares de um único ser humano. E não é “irreal”, que os nossos estudantes sejam capazes de “alcançarem uma complexidade mínima dos temas da sociologia ou da filosofia” como reproduziu o autor da matéria. Se a educação que oferecemos à população não é melhor, é devido ao descaso dos governos, seguindo a cartilha educacional dominante, de desmonte da educação pública aliado à grande desinformação e difusão da ideologia dominante, desde as novelas até os jornais e a internet, por parte dos meios de comunicação, pois a educação formal é apenas uma parte de todo o processo educativo.

Segundo a matéria, deveríamos seguir o modelo de “países mais desenvolvidos”. Mas quais seriam estes? Qual é a concepção de educação que está sendo difundida? Seria aquela mecanicista, reprodutivista, que conhecemos bem? Temos certeza que não é uma educação libertadora como a propagada por Paulo Freire, um verdadeiro educador.

Ideológico é o artigo da Veja e as publicações da grande mídia, que reproduzem trechos das orientações curriculares das Secretarias Estaduais de Educação com comentários embaixo, como se os leitores não fossem capazes de pensar por si mesmos. Cadê a liberdade de pensamento? Antes que possamos pensar, a Veja já nos diz o que devemos achar. É como um programa humorístico que coloca risadas no fundo para avisar quando devemos rir...

Para concluir, queríamos deixar uma questão: por que o ensino de Sociologia e Filosofia, que só começou agora e ainda está em processo de consolidação, está incomodando tanto à grande revista brasileira?


Autores:

Vitor Hugo Fernandes de Souza
é Professor de Sociologia na Rede Estadual de Ensino-RJ

Diego Felipe de Souza Queiroz
é Professor de Filosofia na Rede Estadual de Ensino-RJ


Política de Publicação

5 comentários:

Adília disse...

Depois da desinformação sistemática operada pela maioria dos órgãos de comunicação social dominados por sectores «ideológicos» só fica é dificil acreditar que a inclusão dessas disciplinas no ensino secundário possa alterar significativamente a situação,até porque na melhor das hipóteses a competição é extremamente desigual. Enquanto a comunicação social estiver,praticamente na sua totalidade, ideologicamente veiculada à direita, falar em pluralismo é mera fachada para enganar papalvos.

Célio Roberto Pereira disse...

Escolhi o seu blog para receber o Prêmio Dardos! Passa lá no meu blog e dá uma conferida.
Abraço!

http://historiofobia.blogspot.com/2010/05/premio-dardos.html

Nilton Domingues disse...

olá, sou prof de filosofia. A matéria da veja é facciosa. O autor da dita cuja, demonstra que não conhece nada da história da filosofia.É bom avisá-lo que a filosofia tem 2.500 anos e não se resume a Marx, que por sinal era contra os filósofos ( idealistas, é claro). Essa cara precisar conhecer melhor o que escreve.Ele é um ignorante, pensa que sabe!Nada sabe sobre o que pensa.

Anônimo disse...

Claro que a filosofia vai aumentar a pregação de esquerda. Bertrand Russell, Frege, Thomas Nagel, Hume, Platão, Aristóteles, Daniel Dennett, Cantor, John Searle, David Chalmers, etc. eram todos amigos pessoais de Lênin.

Anônimo disse...

Concordo com a ideia de quem escreveu a matéria é ignorante, mas acrescento que é também burro, pois citar o comentário "Rubem quem?", podia ao menos ter pesquisado um pouco para saber quem é Rubem Alves.