sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A filosofia é obrigatória, mas isto é pouco!

-
A filosofia é obrigatória, mas isto é pouco!

Jan-Fev/2009

Por Celso João Carminati*

Durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), boa parte da formação escolar brasileira, foi direcionada para a profissionalização. Com este intuito, e tendo como pressuposto a formação aligeirada para o mercado de trabalho, disciplinas humanísticas foram excluídas do currículo de ensino médio.

Assim, boa parte da juventude, ao menos aquela que tinha acesso aos bancos escolares, perdeu parte significativa de sua formação, submetendo-se aos modelos de formação apressados impostos às escolas pela reforma educacional nº 5.692, de 1971.

A reação de professores, alunos e intelectuais em geral a esta realidade foi imediata. Em meados da década de 1970, no Rio de Janeiro, foi fundada a Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas – SEAF. Rapidamente esta entidade agregou professores de outras áreas, e se tornou um importante espaço de encontro, discussão e preparação de textos e publicações para dar fôlego às investidas dos militares contra a liberdade de expressão, sobretudo de cátedra. Lembro que alguns professores universitários de filosofia mais críticos foram aposentados compulsoriamente, outros foram vigiados em suas atividades de ensino e pesquisa.

Com o arrefecimento da ditadura, e a abertura política lenta e gradual, após a aprovação da anistia, supostamente ampla e irrestrita, o debate em torno das conseqüências da profissionalização avançou e culminou com mudanças na lei nº 7.044 de 1982, que alterou dispositivos referentes à profissionalização e permitiu a presença de Filosofia no currículo enquanto disciplina optativa.

A presença da Filosofia no ensino médio foi pouco alterada, pois algumas escolas a re-introduziram nos currículos, e apenas alguns Estados se dispunham a legislar sobre o assunto.

Com a redemocratização e um inevitável esvaziamento dos espaços de lutas dos professores, o movimento pelo retorno da filosofia só conseguiu se rearticular na segunda metade dos anos de 1990.

Algumas iniciativas, como a do Estado de Santa Catarina, a tornou obrigatória no currículo no ano de 1998. Ainda assim, ocorreram outras iniciativas sem sucesso na Câmara dos Deputados, mas sua obrigatoriedade só se tornou lei, a de nº 11.684/2008 em 02 de junho de 2008, quando foi sancionada pelo Vice-Presidente da República. Isto foi possível devido a alteração do artigo 36 da LDB nº 9.394/1996. A lei estabelece no seu inciso IV: ”serão incluídas a Filosofia e a Sociologia como disciplinas obrigatórias em todas as séries do ensino médio”.

Depois de 37 anos ausentes dos currículos de ensino médio, a filosofia volta a ser obrigatória nas escolas brasileiras. Isto, porém, não é suficiente, pois um texto de lei não garante que a filosofia de fato volte a ser parte obrigatória dos currículos, pois se sabe que o currículo é um campo em disputa e que a presença de novas disciplinas significa a redução de carga horária de outras já existentes. Mesmo assim, os sistemas de ensino terão um prazo de um ano para se ajustarem a nova realidade e apresentarem a filosofia como parte obrigatória do ensino médio.

Mesmo com essas dificuldades encontradas, sobretudo, por se tratar de uma lei que poucas pessoas estarão vigilantes para saber se a mesma foi cumprida ou não, temos ai um importante instrumento de formação mais crítica para os estudantes do ensino médio.

* Professor na UDESC e autor do livro: “Professores de Filosofia: Crise e Perspectiva”. (Editora UNIVALI, 2006).

Extraído de Jornal da Educação
-

UFBA tem Bacharelado em Gênero e Diversidade

-
Tem por finalidade preparar profissionais/técnicas/os para o planejamento, execução e avaliação de políticas públicas com enfoque de Gênero e Diversidade.

Com a formalização de acordos internacionais e pactuações nacionais e estaduais em torno da questão de Gênero e Diversidade (raça/etnia, idade/geração, orientação sexual etc.) há uma demanda por profissional/técnica/o especializada/o para o trabalho com estas questões.

Os cargos que esta/e profissional pode ocupar, dentre outros, são:

a) Assessoria técnica de Ministérios, Secretarias e outras Instituições Públicas;
b) Técnicas/os de ONGs, Instituições Filantrópicas e Fundações;
c) Coordenação e execução de pesquisa em instituições públicas e privadas;
d) Carreira acadêmica em instituições públicas e privadas;
e) Técnica/o especializada/o em gênero e diversidade em empresas com programas de responsabilidade social e equidade.

Destaca-se que a questão de gênero é transversal, portanto a demanda por profissionais tende a crescer em todo o território nacional.

Maiores informações sobre o curso:
http://www.neim.ufba.br/site

Sobre o vestibular UFBA/2010: http://www.vestibular.ufba.br

Profa. Dra. Iole Macedo Vanin
Coordenadora do Curso.
-

A exclusão midiática não é por acaso

-
Grande mídia e a criminalização da pobreza

Gizele Martins
Qua, 26 de agosto de 2009 17:19

Em meio ao subdesenvolvimento e consequentemente às diferenças sociais vividas pela maioria da população brasileira e mundial, nos deparamos com uma sociedade que só enxerga e trata o outro de forma excludente. O que não é por acaso. Segundo a sociedade capitalista, imperialista, é preciso que uns tenham mais acesso, oportunidades e direitos do que outros. Isso significa, em termos práticos, que muito poucos - se considerarmos a proporção de ricos e pobres no mundo - serão aqueles que terão acesso irrestrito a bens e serviços. E é exatamente este restrito grupo que comandará as coisas, como acontece desde a fundação do capitalismo no mundo.

E os meios de comunicação são os grandes apoiadores dessa sociedade do capital, pois é por meio deles também que se aliena, é por meio deles que se influencia toda a sociedade, seja na vida política, na vida pessoal etc. O seu papel é o de mostrar sempre a versão do capital, estar sempre contra os trabalhadores, os movimentos sociais e o desenvolvimento equilibrado e justo do país. Ela é uma comunicação que favorece e sempre favorecerá a minoria rica.

Eu, como moradora de favela, vejo esta exclusão midiática de perto. Quantas vezes a mídia fala o que realmente existe nas favelas? Quantas vezes mostrou, ou mostra, que ali existem pessoas trabalhadoras, estudantes, gente que quer apenas seu direito de viver? A mídia quando entra na favela é só para cobrir assuntos ligados à violência, isso quando ela relata a verdade do que ocorreu. E isso nada mais é do que mais uma forma de influenciar a população. Com isso, as pessoas acabam reproduzindo preconceitos sobre o morador de comunidade. Os que moram fora dizem que somos vagabundos, sujos, violentos, entre outras coisas mais. Há uma generalização, todos os meninos são vistos como bandidos, e todas as meninas são vistas como vagabundas, além de relatarem que todos os moradores de favela são preguiçosos, que só não conseguem estudar, trabalhar e etc. porque não são interessados.

Isto não é verdade! Seguramente mais de 90% dos moradores de favelas nada mais fazem do que trabalharem, do que tentarem sobreviver todos os dias. Tudo isso, toda essa reprodução de conceitos que são mostradas nos meios de comunicação fazem com que a maioria das pessoas não respeite o que realmente somos. Muitos moradores não assumem morar em comunidades por conta do preconceito existente e disseminado na sociedade. Exemplo disso é na hora da procura por emprego. É difícil nessas horas você dizer que é morador de comunidade. Pois muitas das vezes, você nem recebe o telefonema de confirmação de currículo.

Nossos governantes, aqueles que votamos de quatro em quatro anos, não nos atendem. Todos sabem que dentro das favelas há diversos problemas, seja o de habitação, de saúde, de educação, de saneamento básico, e aquele que é considerado o mais grave: a violência. Mas, eles nada fazem para resolver estes problemas, pelo contrário, o que se percebe é que por suas atitudes excludentes, reproduzem o que toda a sociedade acha.

Põem caveirão - veículo blindado usado pela polícia nas incursões em favelas - para "resolver" o problema de segurança, põem Postos de Saúde, sem nenhum preparo de atendimento, nos oferecem escolas precárias. As faculdades públicas deveriam estar lotadas de estudantes de classe baixa, mas estão cheias de pessoas que podem pagar instituições particulares. Além disso, o Estado apóia ainda a entrada de Ong's nas favelas, com o discurso de salvar mais um pobrezinho, mais um favelado.

Até quando vamos ter que agüentar isso, até quando vamos tapar nos olhos para isso tudo, até quando vamos aceitar essas injustiças, até quando vamos ter que clamar pelo direito à vida?

Outro exemplo da injusta segurança e da desonesta mídia que temos é o caso de Matheus Rodrigues, menino de 8 anos, que há um mês foi assassinado pela Polícia Militar na porta de sua casa, no Complexo da Maré, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro. E isso não aconteceu apenas com o Matheus não, todos os dias ocorrem isso em nossas comunidades, todos os dias nos deparamos com esta dura e cruel realidade. Há três anos, morreu Renan Rodrigues, de 3 anos. Há aproximadamente quatro anos, morreu Carlos Henrique, de 11 anos, todos eles crianças e inocentes, também moradores da Maré. Eram meninos que queriam apenas ter o dinheiro de brincar, de sorrir, de estudar, de sonhar com o seu futuro. Mas os seus desejos, os seus sorrisos, foram todos covardemente enterrados.

Isso por causa do precário policiamento que temos, por causa do massacre que é cada vez mais claro em todas as favelas da nossa cidade, do nosso país. Esse extermínio é cada vez mais claro quando se trata do pobre, do negro e do favelado, seja em que lugar ele for, ou esteja. E estes, nunca fugirão disso, sempre carregarão no peito as marcas cruéis e preconceituosas da sociedade. E como eu já disse, preconceitos estes que na maioria das vezes são produzidos, lançados pela grande mídia.

Fonte: Blog O Cidadão

Extraído de socialismo.org.br
-

Liberdade de expressão & corporações midiáticas - EEUU

-
Chomsky: A liberdade de expressão é propriedade das corporações midiáticas nos EEUU

ABN
Ter, 25 de agosto de 2009 16:09

Noam Chomsky

Caracas, 25 Ago. ABN.- Se bem que a liberdade de expressão foi uma conquista dos estadunidenses nos anos 60, hoje está sob o controle de grandes corporações midiáticas que pertencem aos que ostentam o poder econômico.

A premissa pertence ao ensaísta e linguista norte-americano Noam Chomsky, que na segunda-feira passada (24 agosto 2009) ofereceu uma conferência magistral na Sala Ríos Reyna, do Teatro Teresa Carreño, em Caracas.

"Nos Estados Unidos o sistema sócio-econômico está projetado para que o controle dos meios esteja nas mãos duma minoria, dona de grandes corporações (...) e o resultado é que sob o manto da 'liberdade de expressão' estão sempre os interesses financeiros desses grupos".

Destacou que as corporações midiáticas são especialistas em desviar a atenção dos grandes temas para centrar a opinião pública em questões como a moda ou o espetáculo em diversos momentos da conjuntura.

Apesar disso, ressaltou que os meios foram os responsáveis pela vitória do atual Chefe de Estado norte-americano Barack Obama, o que, a juízo de Chomsky, contribuiu para a crescente decepção que rodeia o mandatário, porque chegou à presidência sob um lema publicitário que carecia de discurso político.

"Esta decepção com Obama era previsível. Seu lema de campanha foi 'mudança e esperança', mas nunca especificou em que sentido e isso é o que eles sabem fazer, mercadejar os candidatos da mesma maneira que promovem um pasta de dentes", disse o intelectual estadunidense.

Por isso, Chomsky agregou que para falar de liberdade de expressão, os Estados Unidos devem passar obrigatoriamente por permitir o uso dos meios sem que a mão dessas corporações maneje o conteúdo do discurso.

Essa postura foi respaldada pelo economista Michael Albert, que acrescentou que exercer o direito a expressar-se sem restrições nos Estados Unidos implica necessariamente a luta contra as grandes corporações midiáticas que têm o poder sobre o que transmite através da televisão, da rádio e da imprensa.

"A liberdade de expressão é um importante valor para a sociedade norte-americana (...) Mas o que não se adverte é que os que creem exercê-la na plenitude, o fazen sob os desejos dos donos do império midiático e isso em definitivo não é liberdade", sentenciou.

Fonte: Agencia Bolivariana de Noticias

Chomsky propõe Zona de Paz na América Latina ante pretensão militarista dos EEUU

Caracas, 24 Ago. ABN.- Ante a ameaça estadunidense de manter presença militar através de bases na Colômbia, o linguista e ensaísta político norte-americano Noam Chomsky propôs a instalação de uma Zona de Paz na América Latina.

Destacou que a participação e o apoio dos Estados Unidos nos golpes militares no continente devem preocupar as nações, situação que se agrava com a instalação de soldados e armas norte-americanos na América do Sul com a desculpa de "luta contra o narcotráfico".

Na sala José Félix Ribas, do Teatro Teresa Carreño, em Caracas, Chomsky explicou que neste século a América do Norte já apoiou três golpes de Estado: Haiti, Venezuela e Honduras.

Indicou que a administração Obama não só apóia o regime instaurado em Honduras como continua treinando cadetes desse país na Escola das Américas. Diante disso, espera que a reunião extraordinária da União das Nações Sul-americanas (Unasur) resulte numa posição contundente.

"Deveria haver uma declaração forte opondo-se à militarização do continente e à presença estadunidense nas bases militares colombianas", expressou Chomsky, que destacou que os Estados Unidos não toleraria as intervenções que, com a desculpa do apoio à democracia, este país faz nos outros.

Colocou a necessidade de que na reunião da Unasur se apóie uma proposta para a criação de uma Zona de Paz como um objetivo que se pode lograr em conjunto, e revelou que estas bases militares na Colômbia, ainda que não representam um gasto significativo no orçamento estadunidense, são muito valiosas pela posição estratégica e pela zona energética onde se localizam.

Manifestou que, além das bases e da militarização do continente, a Unasur poderá tocar em temas como o problema da dependência da exportação de produtos primários como o petróleo, e o impacto ambiental do sistema sócio-econômico que predomina na região.

"As transformações que se estão fazendo na Venezuela para criar outro modelo sócio-econômico pode ter um impacto global se esses projetos se realizam de maneira exitosa", explicou o lingüista, e definiu o modelo estadunidense como suicida, e deste sistema disse: "Pretende impor-se como remédio para os males que o mesmo causa", destacou.

Fonte: Agencia Bolivariana de Noticias

Qualquer incitação das bases militares pode justificar uma guerra

Caracas, 24 Ago. ABN.- A instalação das bases militares estadunidenses na Colômbia gera um clima sumamente perigoso na América Latina, porque qualquer provocação ou incitação que ocorra através da fronteira de outros países pode desatar uma guerra.

Assim o considerou o linguista e ensaísta político Noam Chomsky durante a conferência oferecida sesta segunda-feira na Sala José Félix Ribas do Teatro Teresa Carreño, em Caracas.

Chomsky indicou que a vinculação da Colômbia com a potência armamentista é por si mesma una provocação, e enfatizou que, em situações similares de la historia, foram atritos aparentemente de escala menor os responsáveis pelas guerras.

O ensaísta norte-americano instou os países da região a fortalecer a unidade e rechaçar em bloco e de maneira contundente a localização do componente militar na Colômbia na reunião da União das Nações Sul-americanas (Unasur) que se realizará nesta sexta-feira (28 agosto 2009).

Recordou que a instalação das bases na Colômbia é resultado da retirada dos componentes belicosos de Manta, no Equador, após a negativa do presidente desse país, Rafael Correa, de renovar o contrato armamentista que se manteve durante dez anos sob o pretexto da luta contra o narcotráfico.

A esse respeito, enfatizou que a luta contra o tráfico de estupefacientes era um argumento manipulado e pouco sério utilizado pelos Estados Unidos para justificar sua incursão no continente, com o objetivo de apropriar-se dos recursos naturais que já escasseiam na economia responsável pela crise financeira mundial.

Além disso, destacou que a política belicista do presidente estadunidense Barack Obama não é distinta da que implementou seu antecesor George W. Bush, questão que foi fortemente criticada pelos eleitores que apoiaram sua proposta de governo sob o lema de "Mudança e Esperança".

"Essa decepção com Obama era previsível. Seu lema de campanha foi 'mudança e esperança', mas nunca especificou em que sentido, e isso é o que eles sabem fazer, mercadejar os candidatos da mesma maneira que promovem uma pasta de dentes".

Fonte: Agencia Bolivariana de Noticias

Extraído de socialismo.org.br
-

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A Revista SEAF e a associação à SEAF

-
Prezado/a Leitor/a

Para publicar um artigo na Revista de Filosofia SEAF você precisa ser associado/a em dia com sua contribuição. A associação é feita anualmente. Assim, em qualquer mês que você fizer sua filiação, a SEAF enviará a você a última Revista editada. A próxima será enviada pela editora, tão logo seja editada e lançada. Você tem acesso ao formulário de filiação AQUI MESMO, em arquivo PDF. Para preenchimento, você encontra o arquivo em programa de texto AQUI ou, se preferir, solicite cópia do aquivo. Estamos ao dispor para qualquer informação adicional no endereço de e-mail seaffilosofia@gmail.com.

Para o ano de 2009, o valor da anuidade é de R$ 100,00

Como sócio/a você... Ler Mais...


Dear Reader

To publish an article in the Revista de Filosofia SEAF you need to be a current member. The membership is a calendar year membership. So in any month you join we will send you last issue. Next issue will come to you from the printer. You can download PDF format of the membership form by clicking HERE. Or as text format, HERE. Or ask to receive membership form by e-mail. Please let us know if you need any additional information. Send a message to e-mail seaffilosofia@gmail.com.

For year 2009, the payment is 55 USD or 39 EUR

As a member you... Read More...
-

domingo, 23 de agosto de 2009

O Twitter é de direita

-
Por que o Twitter é de direita

Mauro Carrara*

Esta é uma bela reflexão que, pessoalmente, gostaria de levar para as ferramentas, conforme proposta do autor, ao final, quando compara o Twitter e o Orkut. Mas o brilhante Mauro Carrara chega a essa reflexão a partir de episódios da política brasileira atual. Bem, ele tinha de partir de algum lugar. Vale acompanhar o texto, apesar de que meu foco aqui, neste Blog de Filosofia é pela reflexão, como escrito acima, sobre as ferramentas.

Raras vezes o revés se exibiu tão instrutivo. E o senador Mercadante, do partido mudo, merece gratidão por nos oferecer incrível lição de como torrar a própria imagem diante da opinião pública.

Depois da tarde das garrafadas invisíveis, em que a bancada do partido mudo quis converter-se em madame girondina, Mercadante utilizou-se do microblog Twitter para anunciar, em caráter irrevogável, sua renúncia à liderança do PM na Câmara Alta.

O sol deitou, voltou, deitou e Mercadante resolveu pisar atrás, anunciando, pelo mesmo Twitter, sua desistência de desistir.

E uma onda de indignação hipócrita e seletiva passou como tsunami sobre a praia governista. Foram muitas as vítimas. Estava posta a carniça aos abutres. Folha de S. Paulo e Estadão, por exemplo, lambuzaram-se das tripas do bigodudo parlamentar.

Do episódio neodantesco, ficaram três lições: 1) O partido mudo não sabe o que é o Twitter; 2) Os parlamentares do partido mudo utilizam essa e outras ferramentas de maneira imprópria e irresponsável; 3) A direita nada de braçada nessa lagoa da comunicação interativa.

Deu pena do incauto Mercadante. O tal perfil da Juventude do DEM, a mesma que utilizou o Twitter para engrossar o coro de “Fora Sarney”, divertiu-se à vontade em cantigas de maldizer, levantando hordas de playboys para espezinhar o pobre líder mudista.

O meio é a mensagem

Assisti a uma palestra de Marshall McLuhan há uns 5 mil anos, na Universidade de Wisconsin, numa época em que meu Inglês não era lá essas coisas.

Mas peguei o básico, sem grandes problemas.

Neste momento, vem à memória o trecho da preleção em que o canadense falava sobre sua teoria de que “o meio é a mensagem”, conceito que na época eu não compreendia muito bem, e continuei sem compreender.

Agora, contudo, tudo faz muito sentido.

Mercadante e o partido mudo nem desconfiam do impacto sensorial das novas mídias. Presos à ideologia e ao conteudismo, não percebem que os meios de comunicação se constituem em extensões humanas, nas tais próteses técnicas capazes de determinar padrões de comportamento e reconstruir discursos.

O Twitter é exemplo claro da importância do meio na conformação da conduta do usuário.

Mais do que o Orkut, por exemplo, que é sucesso entre os brasileiros de todas as classes sociais, o Twitter tem em sua engenharia interna a inspiração do modelo personalista.

Serve, portanto, de modo perfeito, à construção de púlpitos para gurus. É da pessoa e não do tema, estabelece uma hierarquização no tráfego de informação e copia os modelos verticais de gestão corporativa.


O Orkut, por exemplo, é campo aberto de batalha e debate. Ali, os famosos e poderosos têm medo de se expor. Equivale a se apresentarem no meio da multidão, em praça pública.

Por conta das características do meio orkutiano, as pequenas legiões leonídeas da esquerda organizada destroçam facilmente as gordas falanges do mainardismo virtual.

O Twitter, ao contrário, enfatiza o emissor e exclui o intercâmbio dinâmico de ideias. Não há corpo a corpo e, por conta das condições do campo de batalha, a quantidade pode vencer a qualidade.

Vale dizer que o Twitter funciona no campo da comunicação declaratória. Não trabalha com base na argumentação e na exposição racional do pensamento.

No Twitter, as personalidades têm o que o sistema chama de “seguidores”, característica que fortalece um padrão de falsa interação.

Um tema dromológico


Cada tweet (mensagem) tem que se limitar a 140 caracteres. Assim é a coisa.

É fácil pedir “Fora Sarney” nessa tecladas mínimas. Mas é difícil explicar que o presidente do Senado está por aí há 45 anos, que a bronca tucana é oportunista, que Arthur Virgílio é um bandalho e que o movimento midiático faz parte de um projeto de desestabilização do governo Lula.

O Twitter é ótimo para gritar e exigir cabeças. É péssima ferramenta para qualquer advogado.

Curiosamente, o Twitter no Brasil é utilizado majoritariamente por homens paulistas e cariocas, na faixa de 20 a 30 anos, a maior parte deles com ensino superior. A agência Bullet, que coletou os dados, mostra que 60% dos twitteiros são considerados formadores de opinião.

No total, 51% dos usuários valorizam os tais perfis corporativos.

Cabe destacar que o Twittter se casa perfeitamente com o modelo de comunicação veloz da juventude. É um SMS da Internet.

A informação é rala e muitas vezes codificada. O importante é estar “em contato”, integrado, saber um pouco, talvez quase nada, mas de muitos. Também é preciso mostrar-se vivo, disparando a mensagem, mesmo que irrefletida.

O Twitter faz parte do arsenal das bombas informáticas, às quais faz referência o filósofo Paul Virílio, pessimista mas sabido.

Como instrumento de controle e alienação, a ferramenta já se converteu em arma poderosa do que se convencionou chamar de “direita”, considerado aí o termo conforme a brilhante conceituação de Norberto Bobbio.

Em seus estudos, Virílio alerta para a supervalorização da velocidade na sociedade tecnológica contemporânea. Segundo ele, perdemos o valor mediador da ação em benefício da interação imediata.

O pensador, que bem avaliou os elementos simbólicos da guerra, afirma que a velocidade divinizada reduz drasticamente o poder de atuação racional e estabelece uma conduta de reação, muitas vezes automatizada.

Por isso, o Twitter tem menos interesse no pensamento estruturado que no jogo rápido das reações. Assim, vem sendo utilizado com sucesso no fortalecimento de marcas, agregando “seguidores” por categorias definidas pelos profissionais de marketing.

Razões éticas ou morais podem afastar as esquerdas do Twitter. A esquerda não se contenta (e não sabe se contentar) com 140 caracteres e historicamente não tem gosto pela velocidade.

Os esquerdistas de raiz libertária, em especial, valorizam a dialética e a comunicação multidirecional, em que a igualdade de direitos faz emissores e receptores trocarem de lugar a cada passo da valsa.

O partido mudo e alguns setores decrépitos da esquerda são casos à parte. Praticam, há tempos, certo neoludismo fanático e tolo. Noutras ocasiões, a inépcia marca o uso das novas armas-meio.

Como já estive por aqueles lados, posso assegurar que os vietnamitas não se valeram apenas de zarabatanas e armadilhas de caça para vencer a maior potência bélica do mundo.

O Twitter é de direita, hoje. Mas não precisa ser para sempre.

----------

* Mauro Carrara é jornalista, nascido em 1939, no Brás, em São Paulo. É o segundo filho de Giuseppe Carrara, professor de Filosofia em Bologna, e de Grazia Benedetti, uma operária e militante comunista de Nápoli. O casal chegou ao Brasil em 1934, fugindo da perseguição fascista. Mauro foi para a Itália em 1959, por sugestão do amigo dramaturgo G. Guarnieri. Em Firenze, estudou arte, ciências sociais e comunicação. De volta ao Brasil, passou dois anos na Amazônia. Ao atuar na defesa dos povos indígenas, foi preso pelo regime militar. Libertado, voltou à Itália. Como free-lancer, produziu reportagens para jornais como L?Unita e Il Manifesto. Com o primo Antonino, esteve no Vietnã, no início da década de 70. Em 1973, no Chile, juntou-se à resistência ao golpe contra Allende. No Brasil, como clandestino, aproximou-se do cartunista Henfil, cujos trabalhos traduziu para uma revista alternativa italiana. Na década de 80, prestou serviços para a ONU em países como China, Iraque e Marrocos. Nos anos 90, assessorou ONGs brasileiras, especialmente na área de Direitos Humanos. Ainda atua na área de comunicação e relações internacionais.

Fonte da matéria: NovaE
recebida de "Novae Informa" - revista.novae@gmail.com
em Domingo, 23 de agosto de 2009 23:06


Conhecendo NovaE: Novae: uma história de amor ao copyleft

Esta é a mensagem de rodapé nos textos em NovaE: Fortaleça a imprensa independente do Brasil e a Livre Expressão ao disseminar este artigo para sua rede de relacionamento. Imprima ou envie por e-mail.

foto "Redes Neurais" extraída de "cerebromente"
-

sábado, 22 de agosto de 2009

SciELO chega ao continente africano

-
SciELO chega à África

Por Fábio de Castro - 21/8/2009

Agência FAPESP – A fim de otimizar o alcance global e o impacto potencial da pesquisa feita no país, a Academia de Ciências da África do Sul (Assaf) adotou a modalidade de acesso aberto por meio da plataforma SciELO (Scientific Eletronic Library Online) para a publicação de seus periódicos acadêmicos.

Em editorial publicado na edição desta sexta-feira (21/8) da revista Science, Wieland Gevers, chefe do Comitê de Publicações Acadêmica e ex-presidente da Assaf, explica por que o modelo foi escolhido para tornar mais visível – em sistemas de busca e ferramentas bibliométricas – o trabalho publicado em periódicos científicos locais.

O programa SciELO, criado em 1997 por meio de uma parceria entre a FAPESP e o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme), foi implantado até agora em outros sete países – Argentina, Chile, Colômbia, Cuba, Venezuela, Espanha e Portugal.

O modelo conta também com duas coleções temáticas nas áreas de saúde pública e ciências sociais. Além da África do Sul, estão atualmente em fase de desenvolvimento bases de dados para coleções de Costa Rica, México, Paraguai, Peru e Uruguai.

No editorial da Science, Gevers, que é professor emérito de bioquímica médica da Universidade de Cidade do Cabo, afirma que a visibilidade internacional da pesquisa sul-africana deverá ter um salto com a adoção da plataforma. O projeto está em fase piloto de desenvolvimento com a cooperação da Bireme.

Gevers destaca dois objetivos principais da plataforma SciELO: indexar periódicos de alta qualidade, ampliando os títulos indexados na base do Instituto para a Informação Científica (ISI, na sigla em inglês) – por meio de uma seleção com base em avaliações transparentes –, e oferecer acesso livre global ao conteúdo dessas revistas.

“Esse sistema já revelou a existência de periódicos locais e artigos altamente citados nas revistas indexadas na base ISI e também revelou periódicos e artigos que tiveram alto impacto no próprio sistema SciELO”, afirmou Gevers.

Segundo ele, com apoio de governos locais e da comunidade internacional, será plenamente possível estender o modelo também para outros países africanos. “Poucas iniciativas poderiam ter mais chance de oferecer tanto rendimento como esse, ao facilitar um sistema nacional e regional interconectado, com livre acesso e qualidade garantida”, acrescentou.

Gevers conta que, dos 225 periódicos científicos sul-africanos, mais de 100 nunca tiveram seus artigos citados. “A África do Sul ocupa uma posição paradoxal no contexto da publicação científica: o de ser, ao mesmo tempo, um gigante dentro do contexto africano e um anão na arena internacional”, disse. A África do Sul já produziu nove prêmios Nobel, sendo quatro em áreas científicas.

“O objetivo do Programa SciELO é aumentar a visibilidade de publicações científicas em revistas brasileiras e os resultados tem sido exemplares e reconhecidos por observadores independentes de entidades estrangeiras”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

“As revistas que fazem parte do SCIELO tiveram seus artigos mais citados internacionalmente, gerando com isso benefícios para o desenvolvimento científico em São Paulo e no Brasil. Uma estratégia efetiva dos líderes do projeto tem sido a de abranger publicações de outros países, inicialmente ibero-americanos e, em seguida, da África. Tal estratégia aumentou ainda mais o valor de toda a coleção, beneficiando todas as publicações envolvidas”, destacou.

Pioneirismo reconhecido

De acordo com Abel Packer, diretor da Bireme e um dos idealizadores do SciELO, a adoção do sistema por mais um país e o editorial na Science demonstram o quanto foi acertada a decisão de criar o programa, há 12 anos.

“A extensão do programa à África do Sul é um reconhecimento do pioneirismo e da visão estratégica do grupo que criou o SciELO e da FAPESP, que nunca deixou de nos apoiar. E o editorial sinaliza o reconhecimento da Science de que a produção científica dos países em desenvolvimento é importante e precisa ganhar visibilidade”, disse à Agência FAPESP

Todos os países que participam do SciELO são nações em desenvolvimento, com exceção da Espanha e de Portugal. “O programa é especialmente importante para países em desenvolvimento – ao aumentar a acessibilidade e tornar mais citados os periódicos dessas regiões –, mas representa uma solução também para os dois países europeus que, como todos os ibero-americanos, também enfrentam a barreira da língua”, destacou.

A proposta de adoção da SciELO na África do Sul partiu de um estudo iniciado pela Assaf em 2007. Uma comissão da academia avaliou os periódicos do país e considerou as principais soluções existentes de publicação em acesso aberto. Em julho de 2008, o comitê visitou a Bireme para conhecer o desenvolvimento do programa brasileiro.

“Em dezembro, o modelo foi adotado e a fase piloto do projeto sul-africano teve início com quatro publicações do país, com o objetivo de testar as funcionalidades da plataforma. Na próxima fase, a coleção deverá contar com 35 periódicos”, explicou.

Sucesso no Chile

A expectativa, segundo Packer, é que a adoção do programa pela África do Sul aumente efetivamente a visibilidade da produção científica local e o impacto global da pesquisa realizada no país, alcançando o sucesso obtido, por exemplo, no Chile, primeiro país, além do Brasil, a adotar a plataforma, em 1998.

Para a coordenadora do SciELO Chile, Marcela Aguirre, da Comissão Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica (Conicyt, na sigla em espanhol), a opção pelo modelo criado no Brasil trouxe um grande aporte ao programa chileno para o fortalecimento de suas revistas científicas.

“Trata-se de uma metodologia que provocou grande impacto na comunidade científica chilena e nas diferentes instituições que editam periódicos científicos. O fato de proporcionar acesso aberto é uma excelente vantagem para as revistas, que ganharam grande visibilidade, divulgando a produção científica nacional em diferentes áreas do conhecimento”, disse à Agência FAPESP.

Em 1998 o Chile iniciou a participação piloto no SciELO com quatro veículos científicos. A coleção atual já tem 80 periódicos e outros 25 estão sendo avaliados. “Acredito que a adoção dessa metodologia foi boa para ambas as partes, já que trouxe benefícios para as revistas chilenas – que ganharam qualidade ao seguir os critérios rigorosos exigidos para fazer parte da coleção SciELO – e também enriqueceu a própria coleção”, disse.

Segundo Marcela, ao ganhar um sistema de difusão massivo, com acesso completo na internet, as revistas científicas chilenas foram beneficiadas de forma marcante. “Com essa visibilidade, as revistas passaram a receber mais artigos para publicação. Isso exerceu grande impacto nas publicações nacionais. O SciELO também foi importante para padronizar normas de difusão e políticas editoriais, elevando a qualidade dos artigos”, disse.

Marcela conta que a plataforma também trouxe uma grande contribuição em relação à acessibilidade. “Em 2008, tivemos cerca de 78 milhões de acessos à coleção do SciELO Chile. É um número importante de artigos chilenos sendo consultados em todo o mundo.”

O programa trouxe também, segundo ela, um estímulo à internacionalização das revistas chilenas. “Agora temos um grande número de periódicos reconhecidos e indexados em índices internacionais e bases de dados. Tivemos cerca de 30 títulos indexados, por exemplo, na base da ISI. Houve também aumento da presença chilena em bases como Scopus. Essa visibilidade internacional é muito importante”, disse Marcela.

O artigo Globalizing Science Publishing, de Wieland Gevers, pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag.org.





SciELO: www.scielo.org

Extraído de Agencia FAPESP
--