Mostrando postagens com marcador Homenagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Homenagem. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 29 de março de 2012

Dois gênios da filosofia política


Dois gênios da filosofia política

JB - por  Mauro Santayana - 29/03/2012

A morte de Millôr Fernandes e de Chico Anysio é mais do que a perda de dois grandes humoristas. Chico e Millôr, cada um em seu espaço, foram importantes filósofos políticos, distanciados dos grilhões acadêmicos, e argutos observadores da realidade brasileira.
 
Millôr não dispunha dos atributos do ator de Maranguape, capaz de usar duzentas máscaras diferentes, para expor os sentimentos e o ridículo da condição humana. Nele havia a profundidade de reflexão, ancorada em uma erudição tanto mais ampla quanto menos pomposa. Ambos fustigaram a mediocridade e fizeram o povo pensar.

E me permitam defender uma categoria de pessoas a que também pertenço: aquelas que encontraram o seu caminho fora das escolas formais. Millôr e Chico foram dispensados da moldagem do ensino tradicional, mas compensaram essa aparente dificuldade na formação dialética — e ética — do trabalho. Millôr um pouco antes, no início da adolescência, ao entrar para a equipe de O Cruzeiro, e Chico, poucos anos depois, ao se tornar locutor de uma emissora de rádio. 
 
Sendo um homem do espetáculo, e vivendo tantos e tão diferentes personagens, Chico Anysio teve a vida exposta, como um eterno caçador de experiências amorosas e pai incansável. Uma psicanálise de botequim poderia explicar a sua afetuosidade insaciável, que o fez marido de tantas e tão belas mulheres, como resultado do mundo de ficção em que vivia. Os atores sempre adicionam à alma, ainda que não desejem, parcelas de seus personagens, como transplantes da emoção dos autores. Millôr não era ator, mas, sim, um excepcional pensador. Essa foi a essencial diferença entre os dois.

Foram ácidos críticos da sociedade e aplicados defensores da verdadeira razão política.

Ambos foram ácidos críticos da sociedade e aplicados defensores da verdadeira razão política. Chico exercia a sua cáustica vigilância no aparente desprezo pelas personalidades públicas. Ninguém soube caricaturar com tanta acuidade o parlamentar corrupto, do que ele, ao encarnar o deputado Justo Veríssimo. Já na fase final do regime militar, os telefonemas de Salomé, de Passo Fundo, ao presidente João Batista Figueiredo, serviram, ao mesmo tempo, de crítica ao governo e de estímulo ao movimento de redemocratização em marcha.

Millôr ia muito mais fundo. Sua crítica não se limitava à política em senso estrito, aos governos e às instituições do Estado, mas atingia, em seu âmago, a sociedade contemporânea, com seus desavisos e submissão ao efêmero. Para isso, ele sempre se abasteceu dos clássicos gregos aos autores contemporâneos, passando, naturalmente, por Shakespeare, Goethe, Schiller, Molière, Racine e tantos outros. Ele era capaz de ir adiante das reflexões desses grandes autores, ao trabalhá-las em sua fulgurante inteligência. Ele usava a erudição para resumir a sua visão do mundo em frases curtas, certeiras, surpreendentes, definitivas. 
 
Não conheci pessoalmente Chico Anysio. Meu universo era outro. Não morando no Rio, fui privado de convívio maior com Millôr. Fazíamos parte, como tantos outros de nossos contemporâneos, do Círculo de Conceição de Mato Dentro que se reunia eventualmente no apartamento de José Aparecido, em Copacabana. Ambos fomos agraciados com o título de cidadãos de Conceição o que, para os que não conheceram Aparecido, nem a cidade na Serra do Espinhaço, pode não ter qualquer importância. A cidade de Aparecido, tão forte na história e no caráter de Minas, hoje, mais do que a Itabira de Drummond, não passa de uma foto esmaecida: mineradores estrangeiros a conspurcaram, ao dilacerar as serras que a cercam e esvaziar a cidade de sua identidade e de seu caráter ancestral.

Chico e Millôr, gênios vindos do povo, foram figuras emblemáticas dessa geração singular na história do país

Entre as minhas memórias de Millôr, há a de um encontro na terra de Aparecido, em que ele, Gerardo de Mello Mourão, Newton Rodrigues e eu mesmo — não me lembro se houve outros colaboradores — redigimos longo poema sobre o aniversário de José, naquele mesmo dia, e que se iniciava com a evocação da morte de Giordano Bruno na fogueira, em 17 de fevereiro de 1600. Os versos de Millôr foram os mais fortes, mais limpos e mais significativos, naquele “abc” em louvor do aniversariante.

As sucessivas gerações de homens brilhantes, que atravessaram o século 19 e fizeram a primeira metade do século 20, de Machado e Bilac, de Lima Barreto, de Belmonte e de J. Carlos; de Graciliano, José Lins, de Getúlio Vargas e de tantos homens de gênio foi sucedida por personalidades fortes da segunda metade do século passado, algumas das quais cruzaram o milênio. Chico e Millôr, gênios vindos do povo, em sua forma de ver o mundo e nele se integrar, foram figuras emblemáticas dessa geração singular na história do país.

Uma frase de Millôr, inscrita na escultura que adorna a porta do apartamento de José Aparecido no Rio, pode resumir a sua atitude diante da vida: “Se alguém achar o vento a favor contrário, entra com o que tem”.



quinta-feira, 30 de junho de 2011

Revista SEAF nº 9 homenageia Leandro Konder

-
Revista SEAF nº 9 homenageia Leandro Konder
172 p.
clique para ver em grande

Sumário
  • Apresentação
  • Opensamento de Karl Marx - Leandro Konder
  • Leandro Konder: um filósofo democrático - Carlos Nelson Coutinho
Artigos

  • À esquerda da Melancolia (Konder e Benjamin) - Antonio Castro Alves
  • Epistemologia e Política: Considerações em torno de Gramsci - Dirce Eleonora Nigro Solis
  • Economia e Moralidade em Marx - Ana Selva Castelo Branco Albinati
  • Sartre e o Marxismo - Luis José Veríssimo
  • Observações Didáticas sobre a Filosofia de Marx - Olinto Pegoraro
Crítica de Livro

  • Marxismo e Modernidade: Subsídios para Reflexão, a partir de Robert Kurz - Thereza Martins
Pedidos a
Editora UAPÊ Espaço cultural Barra
Av. Olegário Maciel, 511 – sala 303 – Barra da Tijuca
CEP 22621-200 – Rio de Janeiro – Tel.: (21) 2493-9175


-

sábado, 28 de agosto de 2010

Marx tem mega projeto MEGA

-


Marx voltou e ameaça ficar


O projeto MEGA é um dos maiores empreendimentos editoriais da atualidade e, possivelmente, um dos mais destacados de todos os tempos: a nova edição crítica das obras completas de Karl Marx e Friedrich Engels (Marx-Engels Gesamtausgabe). Segundo Michael Krätke, o projeto começou a ser desenhado em 1960 e reúne hoje o trabalho de 80 colaboradores de 8 países e 3 continentes. O plano original prevê a publicação de aproximadamente 164 volumes. Os princípios que orientam a edição são o respeito e a fidelidade com o texto original, além da certificação de sua autenticidade e sua preparação para serem editados de forma completa e integral. O artigo é de Carlos Abel Suárez.

Carlos Abel Suárez

Por ocasião dos primeiros sinais da atual crise econômica mundial, antes ainda do estouro da bolha das hipotecas norteamericanas, iniciou um movimento que muitos denominaram o “retorno” de Marx. Revistas de atualidade e de ampla circulação internacional publicaram sua inconfundível imagem em suas edições. O destaque de capa era Marx.

Em algumas pesquisas relevantes, Marx foi eleito como um dos pensadores mais destacados de todos os tempos. Quando das operações de resgate financeiro, nos principais jornais norteamericanos se alternavam como insulto ou como elogio a retomada das idéias daquele personagem tão querido quanto odiado, nascido em Tréveris, em 1818. Não faz muitos anos, sua memória estava sepultada e sua obra engavetada e degradada por pseudoexegetas, interpretadores falsários e filisteus de toda pelagem, processo vitaminado pela direitização da social-democracia e pela implosão da União Soviética.

Mas o Marx original, sua obra – despojada das versões de tantos “marxistas” que tanto ele como Engels desprezavam já em vida – apenas começa a se projetar nos círculos acadêmicos, nas tertúlias da esquerda e nos debates políticos coerentes. No entanto, segundo o atual retrato do mundo, na economia, na política e na cultura, parece que as idéias de Marx e Engels poderão seguir ilustrando grande parte do século XXI.

  • Uma Conferência para explicar o Projeto

Muito se perguntarão: o que é o projeto MEGA? Não se trata de um dispositivo eletrônico para espionar comunicações ou do desenho de uma nova represa gigantesca? Trata-se, na verdade, de um dos maiores empreendimentos editoriais da atualidade e, possivelmente, um dos mais destacados de todos os tempos: a nova edição crítica das obras completas de Karl Marx e Friedrich Engels (Marx-Engels Gesamtausgabe). O professor Michael Krätke, coeditor da nova MEGA, explicou durante quase duas horas as características desta espetacular iniciativa, em uma conferência realizada na Universidade de Barcelona, às vésperas do encontro internacional de Sin Permiso, realizado em Madri, em dezembro último.

O auditório da conferência – majoritariamente formado por acadêmicos e estudantes conhecedores da obra de Marx – foi surpreendido por alguns trechos da minuciosa e apaixonada exposição de Krätke, tanto por sua qualidade acadêmica, rigor conceitual, contextualização histórica e domínio dos temas sobre os quais trabalharam Marx e Engels, como pelas descobertas que virão a público com a nova MEGA.

  • As mexidas nos textos de Marx e de Engels

É conhecido que os textos de Marx e de Engels sofreram múltiplas manipulações. Krätke assegurou que não há um só dos livros publicados que tenha respeitado a versão original, seja por questões políticas ou pela caprichosa tesoura dos editores. Krätke lembrou que a primeira iniciativa de reunir e publicar toda a obra de Marx e Engels iniciou em 1911, dirigida pela socialdemocracia alemã, com a participação de Karl Kautsky, Augusto Bebel e Eduardo Bernstein. Em seguida, o projeto passou para as mãos da União Soviética, em 1922, sob a direção de David Riazanov, até este ser destituído por Stálin, em 1931, e fuzilado anos mais tarde, em 1938, juntamente com seus companheiros da velha guarda bolchevique.

  • MEGA em processo

Na MEGA contemporânea, que começou a ser desenhada em 1960 e, estima-se, deve estar concluída em 25 ou 30 anos, trabalham 80 colaboradores de 8 países e 3 continentes. O plano original, explicou Krätke, contempla a publicação de aproximadamente 164 volumes, compreendendo os textos original, mais todos os anexos.

Os princípios acordados para o imenso reordenamento e revisão de manuscritos, vários deles inéditos, livros e artigos publicados, mais toda a correspondência Marx-Engels – e a destes como amigos, colaboradores e editores – são o respeito e a fidelidade com o original, além da certificação de sua autenticidade e sua preparação para serem editados de forma completa e integral. A equipe multidisciplinar que trabalha no MEGA realiza um acompanhamento da evolução dos textos, discute exaustivamente os mesmos, evitando ao mesmo tempo os comentários políticos.

Com a perícia de um arqueólogo que vai limpando com cuidado as peças de um achado para não danificá-lo, Krätke expôs as vicissitudes pelas quais passaram os trabalhos de Marx mais difundidos. Todos têm sua história, suas polêmicas, as marcas da manipulação, do silenciamento. Há “montanhas” de papéis: fichas, apontamentos, cartas, cadernos com cálculos matemáticos, que os entusiastas da MEGA ordenam e classificam.

No plano da nova MEGA, O Capital e todos os textos preparatórios e manuscritos, somam 15 volumes, a maior parte deles já publicados em alemão. A correspondência completa entre Marx e Engels e a destes com terceiros, compreende 35 volumes. A coleção de extratos, fichas bibliográficas e anotações marginais dos amigos inseparáveis, tomará outros 32, segundo o programa editorial.

  • Marx inédito

É notável que, a 127 anos da morte de Marx, ainda existam trabalhos inéditos do autor, observou Krätke. Um deles sobre a crise financeira de 1857-1858 será publicado em breve. Segundo o pesquisador alemão, que possui uma contundente trajetória como economista e historiador, à qual se agrega seus conhecimentos da obra de Marx, o trabalho sobre a crise de 1857 lança luz para entender melhor a crise financeira e econômica atual. Aquela, como a atual, começou nos Estados Unidos (1).

Krätke se encarregou de refutar, à luz das investigações até agora realizadas, as especulações sobre as diferenças entre Marx e Engels e as diligências deste em procurar ordenar a publicar a obra inconclusa de seu amigo. Pode ter cometido alguns erros, mas o trabalho de Engels foi cuidadoso e respeitoso, assegurou.

A Espanha na obra de Marx

Mas se algo ilustra a erudição e, cabe dizer também, a coragem de Krätke, é falar da história da Espanha, em Barcelona, e diante de acadêmicos bem conhecedores dessa história. Um só dado mostra bem a importância dos trabalhos de Marx e Engels sobre a Espanha: do total da nova MEGA, uns 12 volumes contém seus ensaios, artigos e estudos vinculados ao tema. Marx nunca visitou a Espanha, mas começou a estudar espanhol em 1850 e, desde então, encontram-se em seus escritos citações de clássicos como Cervantes e Lope de Vega.

Várias vezes em sua trajetória intelectual, Marx realizou estudos sistemáticos sobre a história da Espanha. Particularmente entre os anos 1847 e 1848, e depois durante os anos 1850 e 1851, 1854 e 1855 e, por último, entre 1878 e 1882m quase ao final de sua vida. Em uma oportunidade, no período que vai de 1854 a 1855, Marx se pôs a escrever uma história crítica das mudanças revolucionárias na Espanha, precisou Krätke.

Por algum tempo, a partir de 1854, Marx escreveu sobre a situação política espanhola para o New York Daily Tribune. Vários desses artigos tiveram a participação de Engels – e fazem parte da seção da MEGA denominada “Espanha Revolucionária” (2). Sobre os motivos que levaram Marx a estudar a história e a política espanhola, Krätke assinalou que encontrou aí algumas chaves importantes do que seria sua teoria política, ou, dito de outro modo, a acumulação de conhecimentos e papéis para elaborar uma teoria política.

“Marx não começa com as “leis” da história”, afirmou, “ele constata e discute os fenômenos e as aparências, regularidades e irregularidades, e busca então as explicações históricas. Marx estudou em profundidade, no caso espanhol, a relação entre a formação das classes, a sociedade burguesa e o Estado Moderno. Segundo Krätke, o modelo de um primeiro Império colonial global, a forma curiosa que assumiu o absolutismo, o conceito de um liberalismo avançado e o desenvolvimento revolucionário tão particular é o que fazia da Espanha um campo de análise muito valioso para Marx. Entre outras coisas, para entender a transição do feudalismo para o capitalismo. Transição para a formação do Estado moderno, que, lembrou Krätke seguindo Marx, assumiu formas muito diversas.

Um capítulo relevante na seção da nova MEGA dedicada a Espanha trará os trabalhos de Marx sobre a Constituição de Cádiz de 1812. Frequentemente se esquece a sólida e inicial formação de Marx como jurista. A propósito da Espanha, volta a esses temas de seu interesse com a crítica às interpretações contemporâneas da Constituição de 1812, a qual valorizava por sua originalidade e pela situação política que dá origem a ela. Trabalho, por sua vez, que desperta a preocupação de Marx para uma releitura da Constituição francesa de 1791 e para a análise da Constituição espanhola de 1820. Nestes ensaios, observa Krätke, Marx reflete sobre a natureza das constituições revolucionárias, sempre “impraticáveis” e “impossíveis”.

Ao retornar a suas investigações espanholas, 20 anos depois, Marx revisa outra vez os vínculos entre Espanha e a história política mundial, a formação do Estado moderno na Europa, depois do ano 1000, a Conquista e a Reconquista e o papel da Espanha como poder militar e imperialista, observou ainda o coordenador da nova MEGA.


Uma vez terminado este grande empenho da nova MEGA, seguramente as idéias de Marx e de Engels poderão seguir ecoando na segunda metade do século XXI. Esta injeção de otimismo nos animou após escutar as palavras de Krätke. Uma maior dose de otimismo exigiria pensar que, na metade deste século, se terá liberado o mundo e o marxismo da “leitura dogmática e clerical” de Marx e Engels, como desejava Manuel Sacristán, ou da “clerigalla marxista”, como reclamava Franz Mehring em 1918.

NOTAS

(1) Ver Michael R. Krätke, Marx, periodista económico, en Sin Permiso Nº 6, Barcelona, 2010.

[2] Com tradução e prefácio de Manuel Sacristán, en 1960, a editorial Ariel de Barcelona publicou con o título de “Revolução na Espanha” os artigos jornalísticos de Marx e Engels sobre a Espanha que se conheciam então.

(*) Carlos Abel Suárez é integrante do Comitê de Redação de SINPERMISO. Publicado em "Bitácora" do Uruguay.

Tradução: Katarina Peixoto

Carta Maior - Economia| 11/08/2010 | Copyleft

Os títulos com marcadores são nossos.
-

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Saramago está na Ilha Desconhecida

-

Uma Leitura do “Conto da Ilha Desconhecida”, de José Saramago*

Por Sonia Camatta**


O Rei, que também é Rainha, somos nós, é o nosso Ego. Ele reina (até quando?) sobre o conjunto formado por todas as nossas “partes”. Ele reina enquanto o Amo, o Senhor, o Eu verdadeiro não vem. O suplicante, o homem que diz “Dá-me um barco” é o mensageiro do Amo, Senhor ou Eu verdadeiro. Em princípio, é frágil, infantil, sem poderes, diante do todo poderoso Rei-Ego, porém determinado. Dentro do Reino há muitos suplicantes, que vêm pedir coisas como comida, água, impressões (visuais, auditivas, olfativas, táteis, gustativas), sexo, honrarias, dinheiro, poder, etc. Todos batem à porta das petições. Há sempre alguém batendo nessa porta dentro de cada um de nós. Há outras portas, como a dos obséquios, a preferida do Rei-Ego. O Ego odeia dar e adora receber elogios, presentes, agradecimentos, o que seja. É fácil perceber dentro de nós o bater insistente dos pedintes, à porta das petições. No meu Reino o suplicante – o Eu – não veio pedir um barco, porque tendo nascido em Angustura, Minas Gerais e não conhecendo o mar, ele veio pedir ao Rei que lhe indicasse a Porta que se abre para o caminho que levará para fora dos domínios do Rei, para que encontre a Terra Desconhecida. Essa Terra Desconhecida é o verdadeiro Reino. O pedido do meu suplicante, é, pois, um Caminho. Mas, só há um jeito de qualquer suplicante – EU ser atendido: deitar atravessado na porta das petições do Rei e bater insistentemente, atormentá-lo, não lhe dar tréguas. E assim foi.

A mulher da limpeza, quem é ela? Há muitas interpretações para a presença feminina dentro do Reino ao lado do Rei. Ela é o lado direito do cérebro, do nosso cérebro, é a parte feminina e, como tal, como vivemos num mundo ainda patriarcal e ainda machista, ela é sempre destinada a tarefas menores – servir, limpar, lavar, passar, cozinhar, costurar. Ela é o “eu faço”.

E quanto ao diálogo do Rei com o suplicante que queria um barco? Duas frases se sobressaem: “A ti Rei, só te interessam as ilhas conhecidas”. O Ego só procura o que está na periferia. O centro, o interior, não é seu território. A Ilha Desconhecida é a metáfora do centro, do interior, da essência. A propósito dessa ilha, o pedinte disse: “Talvez essa não se deixe conhecer”. Nada é mais difícil do que chegar a essa ilha ou atravessar a porta e encontrar o caminho que leva para fora dos domínios do Rei – Ego.

O que significa: “Só estava a mulher da limpeza a olhar para ele com cara de caso”. A mulher da limpeza (o lado direito do cérebro, a parte feminina do ser), vê com alegria o suplicante que pede um barco ou um caminho. Tanto que virou-se e “saiu pela porta das decisões”, a porta mais difícil de ser cruzada, “mas quando o é, é”. Quantas vezes já passamos por ela? Eu, apenas duas. Para se cruzar a porta das decisões é preciso dar-se conta, de repente, do absurdo de uma vida de rotinas inúteis, de vazios, de mediocridade, de mesmice, de egocentrismo, de superficialidade. É muito difícil deixar o conhecido pelo desconhecido, mas, do lado de fora da porta das decisões está o caminho para a Ilha Desconhecida.

“Tem carta de navegação? Aprenderei no mar”. Sim, não é preciso tê-la, aprendemos no mar, da mesma forma que o caminhante aprende no caminho. “Saí do palácio pela porta das decisões”. Só por ela se pode sair. A intuição da mulher da limpeza fez com que ela descobrisse o barco antes do Homem. Em relação à profissão, ele diz: “Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a Ilha Desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver”. “Se não sais de ti, não chegas a saber quem és”. “... que é necessário sair da Ilha para ver a Ilha, que não nos vemos se não saímos de nós próprios”.

O caminho para sair de nós... há tanto tempo o procuramos. “Um pão, queijo-de-cabra, azeitona, vinho”. Eis a refeição perfeita, completa, mediterrânea, sábia, grega, cretense, romana, turca... Com uma refeição dessas, nada mais é preciso, além do céu sobre a cabeça e a terra sob os pés. Esse alimento, sua forma, cheiro e gosto, nos remete às origens do homem ocidental. Todos os povos do Mediterrâneo são irmãos: um só povo, uma só cultura, uma só música, dança, vinho, pão, coração...

“Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decisões”. Tem grande importância para nós aquele ou aquela ou aquilo que nos deu coragem, ou nos empurrou pela porta das decisões.

A mulher da limpeza tentou seduzir o Homem que queria o barco, mas aquele ou aquela que quer encontrar a Ilha Desconhecida ou o caminho só tem olhos para isso e perde o interesse pelo sexo e por tudo o mais. “A mulher dorme a poucos metros e ele não soube alcançá-la”, quando é tão fácil ir de bombordo a estibordo. Há outra leitura para essa parte: dentro de nós há um Homem e uma Mulher; um a bombordo, outro a estibordo, um à direita, outro à esquerda. Em alguns de nós, esse encontro dos dois nunca se dá.

“Ocupam-se nas suas coisas de mulheres, ainda não chegou o tempo de se ocuparam doutras”. O tempo do lado direito do cérebro, o tempo feminino está chegando agora. Esse milênio será dominado por ele, isto é, por elas. Mas será preciso evitar outro desequilíbrio, outra desarmonia, porque só com os dois hemisférios cerebrais é possível chegar-se à Ilha Desconhecida.

Por que o barco começou a se comportar como se fosse a própria Ilha Desconhecida? Terra, plantas, germinação, aves, ninhos, searas, colheitas... Por que? Porque a viagem para a Ilha Desconhecida já é a chegada.

Por que muito tripulantes e marinheiros resolveram e exigiram descer na “primeira terra povoada que lhes apareça”, que tenha um porto, uma taberna, uma cama... uma ilha do mapa? Porque dentro de nós há personagens prontos a saltar e acampar no conhecido. Eles estão sempre prontos a trair o sonho do suplicante de encontrar a Ilha Desconhecida. São os personagens do Ego.

E o que podemos esperar da Ilha Desconhecida, caso a encontremos? O que podemos esperar de Ítaca, Shangri-lá, Avalon? Nada. Segundo a tradição sufi, nada, porque ela já nos deu tudo: deu-nos a viagem, a jornada e tudo o que ela representa. A viagem, o longo caminho de volta nos faz ricos e sábios. Sem a Ilha Desconhecida seríamos para sempre prisioneiros nos domínios do Rei-Ego. A Ilha Desconhecida já é o nosso Eu a procura de si mesmo.


* Título original da Autora.

**Sonia Maria Marinho Camatta
Professora
Centro Universitário de Barra Mansa – UBM
Comissão Própria de Avaliação - CPA do UBM
Rio de Janeiro - RJ


  • A SEAF agradece a Sonia Camatta a gentileza de emprestar sua reflexão (desde 1992) para que pudéssemos deixar uma homenagem a José Saramago.

  • As cinzas do Nobel de literatura português José Saramago, morto no último dia 18 (de junho de 2010), permanecerão em um jardim em frente à fundação mantida pelo escritor em Lisboa, na Casa dos Bicos, segundo anunciou nesta sexta-feira (25) o prefeito da cidade, Antonio Costa. (G1.Globo)
José Saramago, em foto de Sebastião Salgado
-

domingo, 6 de junho de 2010

Prêmio Dardos

-
Com muita satisfação, o Blog da SEAF recebeu, na quarta-feira, 12 de maio de 2010, o selo do Prêmio Dardos.

O selo foi oferecido por Célio Roberto Pereira, um “Professor aprendendo a apreender”, nascido na periferia (e ainda morando nela! - Porto União, SC) autor do Blog Outra História [e que havia sido reconhecido pela Artista Plástica, poeta, fotógrafa e autora do blog Extremamente Tênue].

É um selo importante pois é reconhecimento a blogueiros/as que levam a vida a sério, também na blogosfera.

Apesar de Célio Roberto, informar que o “selo foi uma criação do Junior Vilanova, do blogue “Contatos Imediatos”, e da Olga, do blogue “Pensamentos, Ideias e Sonhos”, a SEAF visitou o “Contatos Imediatos – da poesia ao caos” e o próprio Junior Vilanova também ganhou o Prêmio Dardos de uma amiga blogueira.

Nosso “gênio” da pesquisa nos levou a “Prêmio Dardos…. e um mistério!” e também a Tracing the Premio Dardo.

Talvez o Prêmio Dardos possa ser um indemonstrável, como os axiomas ou os dogmas; ou mesmo regras de jogos. O fato é que é uma maneira de DEMONSTRAR nossa admiração e confraternizar com amigos e amigas, blogueiras e blogueiros que perseveram na transmissão de valores estéticos, culturais, éticos, libertários, de direitos, em uma palavra: de verdade; e que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto em suas letras, palavras, postagens.

E seguindo algumas regras, após o recebimento deste selo, devemos:

a) exibir a imagem do selo em seu blog;
b) postar um link para o blog que o/a escolheu;
c) escolher outros quinze blogs a quem entregar o prêmio;
d) avisar aos escolhidos.

Os escolhidos de SEAF - como forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agrega valor à Web e, especialmente, eleva cada leitor/a, visitante, seguidor/a; e ainda considerando que a Filosofia é busca do sentido da realidade - da diversidade da realidade - são, por ordem alfabética, e não sem deixar outros blogs admirados para próxima oportunidade: