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sábado, 25 de setembro de 2010

Educação: de Gutenberg à era dos computadores

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Desde a revolução de Gutenberg, não ocorria nada igual à internet
O futuro é a educação

Por Paulo Guedes
Publicado no jornal O Globo em 06/09/2010

Um engenheiro construiu aquedutos e catapultas na antiga Roma, castelos e catedrais na Idade Média, como constrói nos dias de hoje foguetes espaciais e plataformas marítimas para exploração de petróleo. Um exemplo de como o conhecimento transforma as profissões através dos séculos.

De carroças puxadas por bois às ferrovias, de caminhões a diesel aos aviões de carga, mesmo o passado recente registra o extraordinário impacto das inovações sobre os meios de transporte. Um exemplo de como o conhecimento também transforma de modo radical nossas atividades produtivas.

A verdade é que a educação, ao possibilitar a evolução e a transmissão do conhecimento ao longo da história humana, modificou profissões, trouxe novas tecnologias e transformou atividades produtivas, mas recebeu relativamente pouco em troca. Seus métodos de transmissão permaneceram os mesmos por milênios.

Não me refiro evidentemente ao conteúdo educacional ou à qualidade dos métodos científicos modernos em comparação às investigações filosóficas dos antigos. E sim à "tecnologia de transmissão", com alguns tutores e muita saliva. Os ensinamentos de Aristóteles para o jovem Alexandre da Macedônia foram transmitidos por aulas expositivas, diálogos e estímulo à leitura, técnicas que em pouco diferiam das atuais.

É com essa perspectiva que avaliamos o impacto das novas tecnologias sobre a educação. Desde a revolução de Gutenberg, não ocorria nada igual à chegada da internet, a globalização efetiva da informação.

A onda de inovações aplicáveis à transmissão do conhecimento está causando uma revolução no setor. Há uma convergência de novas tecnologias que permitirá a superação do maior de todos os desafios: a universalização do ensino de qualidade.

A oportunidade de criação de valor na moderna sociedade do conhecimento por meio dessa universalização de um conteúdo antes acessível a poucos, com uma dramática redução de custos pela aplicação das novas tecnologias, está produzindo, por sua vez, uma onda de fusões, aquisições e associações entre empresas de internet, da indústria de telecomunicações, da mídia convencional e do setor de educação propriamente dito.

A convergência das novas tecnologias está derrubando as muralhas antes existentes entre esses diversos setores, redefinindo fronteiras e criando novas oportunidades de investimento. E, pela primeira vez, o maior beneficiário será a educação.


* Paulo Guedes é sócio – fundador e CEO do grupo financeiro BR Investimentos. Economista com Ph.D. pela Universidade de Chicago, foi um dos sócios - fundadores e diretor do Banco Pactual. Foi Sócio e CEO do IBMEC, uma das principais escolas de negócios do país, que veio a ser um marco no ensino de negócios do Brasil. É colunista semanal do jornal O Globo e escreve a cada duas semanas para a revista Época.

7/9/2010

Extraído de A Voz do Cidadão
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terça-feira, 31 de agosto de 2010

O factóide como método

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CREDIBILIDADE
O factóide como método

Por Muniz Sodré*
em 31/8/2010

Sinal de coisa nova: no final do aviso, o alto-falante do aeroporto agradece pela atenção. Talvez não seja novidade importante, mas de qualquer forma é sintoma do valor crescente dessa mercadoria pela qual hoje se trabalha ou se briga na esfera pública: a atenção. Era ela o pano de fundo do programa do Observatório da Imprensa (TV Brasil) sobre um factóide do qual participamos semanas atrás (ver "A construção da mentira". Há, entretanto, algo mais a se dizer sobre o assunto, que parece ter uma incidência mais ampla na sociedade contemporânea.

Para quem não assistiu ou não se lembra, vale recordar detalhes do fato. Como roteiro de seu filme sobre a apuração insuficiente dos acontecimentos por parte da mídia jornalística, um profissional de imprensa inventa uma organização não-governamental inglesa destinada a abraçar pessoas. Um representante dessa imaginária "ONG do abraço" posta-se no centro de São Paulo, abraçando passantes. A mídia acorre em peso à novidade, sem que um repórter sequer se dignasse a apurar a veracidade do fato, isto é, a real existência da ONG.

No programa comandado pelo mestre Alberto Dines, nós levantamos, de forma muito breve, duas hipóteses. A primeira, inspirada no livro da professora da UFRJ Raquel Paiva (Histeria na Mídia, Editora Mauad), aponta, como característica principal da mídia contemporânea, a histeria, que é uma doença da representação. Evidentemente, não são diretamente aplicáveis as categorias nosográficas do funcionamento mental do indivíduo a instituições ou organizações. Mas, além da psiquiatria, é possível trabalhar a analogia entre a disfunção individual e o excesso discursivo típico do falatório midiático, que voa nervosamente como mosca sobre grandes e pequenas fontes de excitação.

Repórter fisicamente agredida

A segunda hipótese tem terminologia inglesa. Trata-se do flash-mob (mob como diminutivo de mobilization), designação do fenômeno midiático de produção de fatos, reais ou imaginários, capazes de mobilizar instantaneamente, ainda que por um instante (flash) a atenção do público. Acontece com frequência na internet, em especial nas chamadas redes sociais (twitters, blogs etc.), mas pode se dar em qualquer faixa do longo espectro comunicativo hoje coberto pela mídia. A "ONG do abraço" era dessa natureza.

Mas era um flash-mob metódico. Em outras palavras, um recurso para dissertar mais longamente sobre a falta de cuidado investigativo para com os acontecimentos noticiáveis, mas também a excitação (histérica?) por eventos de escasso interesse social, embora exóticos ou insólitos. Em meio à massa de fatos graves e de conhecimento importante para a boa formação da cidadania, é penoso aceitar a enorme atenção da mídia para algo tão banal quanto abraçar pessoas.

O factóide foi, portanto, revelador.

O mesmo se dá com uma "pegadinha" recente do programa televisivo CQC. Em pé na porta de entrada do Congresso Nacional, com uma tabuleta na mão, uma moça pedia a deputados e a senadores que assinassem a folha de apoio a uma suposta "PEC" (proposta de emenda constitucional) relativa à importação de produtos básicos para jovens brasileiros. Um desses produtos era a cachaça. Todos os parlamentares abordados (menos um, a bem da verdade) apuseram as suas firmas ao documento, que não ou mal leram. Ato contínuo, uma repórter do programa interpelava o parlamentar, perguntando-lhe o que exatamente havia apoiado. O constrangimento era geral. De fato, ninguém conhecia o teor do documento e aquele que sabia ao menos o nome da PEC não tinha se inteirado do item "cachaça". Um deles, antes mesmo de ouvir a pergunta da repórter, agrediu-a fisicamente, quebrando o microfone e vociferando insultos grosseiros.

Uma vez mais, o factóide como método resultou muito informativo.

O querelante contumaz

No primeiro caso, ficamos informados sobre o déficit de credibilidade do noticiário jornalístico, cada vez mais acionado por uma pressa avessa à apuração da veracidade dos fatos e pela insignificância exótica, cujo espectro editorial vai desde os pormenores da vida pessoal de celebridades (ao modo do reality show), até os acontecimentos miúdos ou insólitos do cotidiano, como a "ONG do abraço". No segundo caso, não se põe em questão o velho "quarto poder", e sim, um dos poderes reais da república, que é o Legislativo. O déficit de credibilidade dos parlamentares pode ser aferido pela inequívoca demonstração de atenção deficiente. Assina-se sem saber o que se está assinando.

Em ambos os casos, a mídia comparece seja como objeto, seja como sujeito da investigação. Mas o que propomos chamar de "síndrome social da desatenção" vai muito além da dimensão técnica da mídia, pois parece indicar uma contaminação de determinadas instituições pelos efeitos perversos do dispositivo informacional.

Por exemplo, um episódio recente que acompanhamos de perto. Um querelante contumaz (a Polícia, o Ministério Público, o Judiciário, os gabinetes de vereadores e deputados vivem assediados por esse tipo de personagem, que oscila entre o hospital-dia psiquiátrico e agremiações sindicais paranóides) denuncia junto a uma ONG uma autoridade que supostamente "violou um direito civil".

A mercadoria mais cara da sociedade midiática

Como preliminar, é preciso ter em mente um fenômeno novo na paisagem urbana brasileira: há ONGs cujo sentido social caducou, dispostas a qualquer coisa para não desaparecerem do mapa. Pois bem, a denúncia do querelante é infundada, delirante, mas a ONG a acolhe num primeiro momento, sem sequer consultar ou avisar a parte denunciada.

Até aí, se pode pensar em erro, engano e alvitrar uma retificação. Mas de repente se descobre que ninguém leu atentamente, ou não soube ler os termos da denúncia ou não prestou a devida atenção ao discurso delirante do personagem. Em outras palavras, patrocinou-se um factoide sem se saber direito o que estava fazendo. O déficit de atenção equivale aqui à mesma leviandade institucional da mídia ou dos parlamentares interpelados pelo CQC.

E de repente, não mais que de repente, um sério e competente magistrado revela-nos alarmado que, em seu meio profissional, "ninguém parece estar lendo mais nada" – a desatenção é a regra. É como se, submersas na enxurrada dos signos – que provêm tanto da mídia quanto da liberdade democrática do questionamento e da demanda – as instituições estivessem, elas próprias, à beira de se tornarem factóides institucionais, se é que o termo tem validade.

Disso tudo, não há o que concluir de modo definitivo. Há, por um lado, o sintoma de uma crescente liquefação da responsabilidade social. Por outro, o contágio virótico da imagem-sensação, que leva ao trânsito fácil do factóide em toda a sua gama de significações – da notícia sem apuração até a denúncia delirante.

No centro está a luta pela atenção, a mercadoria mais cara da sociedade midiática, onde tudo o que nos parecia sólido de fato tende a se desmanchar no ar.


* Muniz Sodré é professor da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) é o atual presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN).

Extraído de Observatório da Imprensa
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terça-feira, 15 de junho de 2010

Metodologia e Redação Científica

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Em busca de citações
10/5/2010
Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Resultado de 25 anos de dedicação ao estudo da redação e metodologia científica, o livro Dicas para redação científica, de Gilson Volpato, tem o objetivo de fornecer ao leitor os principais caminhos para a produção de artigos científicos que tenham impacto internacional. A obra acaba de ter lançada sua terceira edição revisada, ampliada e atualizada.

“A preocupação geral no livro é mostrar aos leitores os principais conceitos que devem balizar a estruturação de um artigo científico. Mas não se trata da produção de um artigo qualquer e sim da construção de um texto que maximize as possibilidades de ter impacto na ciência internacional, vencendo o preconceito científico. São dicas para escrever artigos que sejam mais encontrados, lidos e citados”, disse o autor à Agência FAPESP.

O professor do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp) vem há anos apresentando cursos sobre redação científica pelo país. Publicou seis livros sobre o assunto, incluindo Bases teóricas da redação científica ... por que seu artigo foi negado (2007) e Pérolas da redação científica (ou Como não fazer um artigo científico) (2010).

Segundo ele, o novo livro apresenta as bases teóricas para a construção de artigos de boa qualidade e, em seguida, exemplifica a aplicação desses conceitos com 245 dicas que percorrem todas as etapas do processo – da concepção da pesquisa até a redação final.

“Só a ciência de boa qualidade gera bons artigos. Por isso, o livro dá ênfase às bases teóricas e reflete sobre o ato de fazer ciência. A abordagem não é técnica, nem normativa: não são dicas mecânicas. O livro discute concepções de pesquisa visando à publicação em revistas de alta qualidade”, afirmou.

A primeira edição do livro tinha 84 páginas. A edição atual tem 150 páginas. Segundo Volpato, a obra foi amplamente reformulada, adquirindo uma nova estrutura e ganhando novas seções, com fundamentação teórica mais aprofundada.

“Nesta edição, abordei de forma mais ampla os fundamentos teóricos e epistemológicos do fazer e escrever ciência. Com isso, procurei fornecer uma agenda de estudo, reflexão e trabalho que deverá resultar em trabalhos científicos mais robustos”, apontou.

Os capítulos com ênfase teórica tratam dos temas “Por que não somos citados?”, “Substratos para redação científica internacional”, “Estrutura geral do artigo” e “Estrutura das partes do artigo”. Em seguida, as aplicações práticas são apresentadas no capítulo “Dicas para redação... rumo à aceitação”.

Volpato defende que os erros de redação apenas espelham equívocos conceituais sobre ciência e comunicação científica. “Enquetes feitas com editores de periódicos internacionais indicam que artigos brasileiros são recusados, por exemplo, por ter estilo inapropriado, excesso de referências, objetivos pouco definidos e objetivo restrito. No livro, discuto e contextualizo esses problemas e depois dou dicas práticas – muitas delas provenientes da experiência nos cursos que tenho apresentado”, disse.

Volpato conta que dedica boa parte de seu tempo, atualmente, às palestras. Um curso que foi apresentado em abril, na Universidade de São Paulo (USP), teve 900 inscrições em uma semana.

“A demanda é alta por duas razões. Uma delas é a carência de discussão conceitual sobre esse tema. Por outro lado, com o processo de globalização, as exigências para a publicação em revistas de qualidade começam a se fazer mais presentes”, disse.

Título: Dicas para redação científica
Autor: Gilson Volpato
Lançamento: 2010
Preço: R$ 33
Páginas: 152

Mais informações: www.bestwriting.com.br

Fonte: Agência FAPESP
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