segunda-feira, 17 de março de 2008

Poema para Galileu

de Antônio Gedeão - poeta português contemporâneo
fonte: http://minerva.ufpel.edu.br/~histfis/poema.htm

Poema para Galileu

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios).

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileu Galilei!

Olha. Sabes? Lá na Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileu,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileu!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileu?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileu,
daquela cena em que tu estavas centado num escabelo
e tinhas à tua frente
um guiso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.

Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando um perigo
para a Humanidade
e para a civilização.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscava os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.

E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.

E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma

Ai, Galileu!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andava a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilômetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileu Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso, estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto enacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão direta dos quadrados dos tempos.

Antônio Gedeão

(Rev. Ens. Fis., v.1, n.1:61-63, jan/1979)

domingo, 16 de março de 2008

Marilena Chaui recebe diploma Mulher Cidadã


Por indicação da deputada Janete Rocha Pietá (PT-SP), a filósofa Marilena Chaui foi agraciada pela Câmara com o diploma Mulher Cidadã - Carlota Pereira de Queirós. Marilena Chaui não pôde comparecer à solenidade, pois proferiu aula magna na Faculdade de Filosofia e recebeu o prêmio de Professora Emérita.

Ela encaminhou à Presidência da Câmara carta de agradecimento pela homenagem. A deputada Janete Pietá acertará agenda com o presidente da Casa, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), para que a homenageada receba pessoalmente o diploma.

Informes PT - 7/mar/2008 nº3939

Dissertações e Teses em acesso livre (06)

-
Dissertações de Mestrado

- Michel Foucault e a constituição do corpo e da alma do sujeito moderno
Autor: Silveira, Fernando de Almeida
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/59/59137/tde-17052004-120350/

- A unidade da verdade em Erasmo
Autor: Nassaro, Silvio Lucio Franco
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8133/tde-13112006-142531/

- O que é resiliência humana? Uma contribuição para a construção do conceito
Autor: Barlach, Lisete
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-19062006-101545/

- Do indivíduo à cultura: um estudo sobre Freud
Autor: Soria, Ana Carolina Soliva
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8133/tde-29052006-201930/

- Um Acerto de Contas com o Futuro. A anistia e suas conseqüências - um estudo do caso brasileiro
Autor: Mezarobba, Glenda Lorena
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8131/tde-06112006-162534/

Teses de Doutorado

- Corpos sonhados - vividos: A questão do corpo em Foucault e Merleau-Ponty
Autor: Silveira, Fernando de Almeida
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/59/59137/tde-09062006-162253/

- Ciência e teologia nos caminhos de Pascal
Autor: Parraz, Ivonil
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8133/tde-05062006-113525/

sábado, 5 de janeiro de 2008

Estatuto da SEAF - Fac Simile - 1976


SOCIEDADE DE ESTUDOS E ATIVIDADES FILOSÓFICOS (SEAF)

ATA DA ASSEMBLÉIA GERAL DE CONSTITUIÇÃO DA SOCIEDADE



Aos dez dias de julho de mil novecentos e setenta e seis, às quatorze horas, na Estrada Velha da Tijuca nº 45 – sala 5, na cidade do Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro, realizou-se uma Assembléia dos Fundadores, com o objetivo de organizar a SOCIEDADE DE ESTUDOS E ATIVIDADES FILOSÓFICOS – (SEAF), com a presença dos sócios abaixo-assinados e qualificados. O Sr. Olinto Antonio Pegoraro, por aclamação, foi escolhido para presidir a Assembléia e convidou a mim, Maria Célia de Moraes Neiva Simon, para servir como secretário. O Presidente declarou instalada a Assembléia, cujo objetivo era efetivar a organização da SOCIEDADE DE ESTUDOS E ATIVIDADES FILOSÓFICOS – (SEAF) E COMUNICOU QUE A REFERIDA Sociedade será uma sociedade civil, sem fins lucrativos e sem intuitos políticos, cujo objetivo principal será a melhoria de condições para o estudo e a pesquisa de assuntos filosóficos; a divulgação de trabalhos filosóficos, por veículo próprio ou em cooperação com outros órgãos; o aperfeiçoamento do ensino da filosofia; a promoção do relacionamento interdisciplinar e o intercâmbio de idéias entre seus associados. A SOCIEDADE DE ESTUDOS E ATIVIDADES FILOSÓFICOS (SEAF) aplicará todos os seus recursos financeiros na manutenção de seus serviços e na realização dos seus objetivos e não remunerará, sob qualquer forma, os seus Diretores, os seus sócios, sejam eles efetivos, colaboradores e fundadores, por não visar lucros e não ter objetivos econômicos. A sociedade civil se regerá pela legislação aplicável e pelos seguintes estatutos que eu, Secretário, passei a ler aos presentes:


ESTATUTOS DA “SOCIEDADE DE ESTUDOS E ATIVIDADES FILOSÓFICOS” (SEAF)

CAPÍTULO I

Denominação, Sede, Fins e Duração

Art. 1 - A Sociedade civil, de fins não econômicos, se denominará “SOCIEDADE DE ESTUDOS E ATIVIDADES FILOSÓFICOS”, usando as iniciais SEAF.

Art. 2 - A Sociedade terá sede no Rio de Janeiro, na Estrada Velha da Tijuca nº 45, sala 5, e poderá ter núcleos regionais em outras cidades do pai e colaborar com outras entidades filiadas com os mesmos objetivos.

Art. 3 - A Sociedade terá por objetivo:

- a melhoria de condições para o estudo e a pesquisa de assuntos filosóficos;

- a divulgação de trabalhos filosóficos, por veículo próprio ou em cooperação com outros órgãos;

- o aperfeiçoamento do ensino da filosofia;

- a promoção do relacionamento interdisciplinar; e

- o intercâmbio de idéias entre seus associados.


Parágrafo Primeiro: Para a consecução desses objetivos a SEAF incentivará seminários, pesquisas e estudos de caráter filosófico; animará seminários sobre temas filosóficos; organizará conferências e debates; prestará serviços, tais como, o fornecimento de índices bibliográficos, a comunicação de programas, a troca de experiência e a colaboração no desenvolvimento de programas escolares.

Parágrafo Segundo: A SEAF respeitará a pluralidade de convicções filosóficas e abster-se-á de participar de manifestações de caráter político-partidária e de discriminação religiosa e racial.

Art. 4 – A Sociedade durará por prazo indeterminado.


CAPÍTULO II

Dos Sócios

Art. 5 – Serão sócios os signatários da ata de constituições da Sociedade, na qualidade de fundadores, e os efetivos e colaboradores.

Parágrafo Primeiro: A categoria de sócio efetivo é destinada aos graduados e pós-graduados em filosofia.

Parágrafo Segundo: A categoria de sócio colaborador é destinada aos estudantes e aos intelectuais graduados em outras áreas aptos a colaborarem interdisciplinarmente na investigação filosófica.

Parágrafo Terceiro: A admissão de sócios se fará por aprovação dos Núcleos regionais, homologada pela Diretoria da SEAF.

Art. 6 – Os sócios não responderão subsidiária ou solidariamente pelas obrigações da Sociedade.


CAPÍTULO III

Dos Recursos das Sociedade

Art. 7 – A Sociedade não terá fins lucrativos. Ela não terá capital fixo.

Seus recursos englobarão, particularmente:

- as quotas anuais pagas por seus sócios;

- as doações recebidas de pessoas físicas ou jurídicas;

- as subvenções concedidas por organismos nacionais ou estrangeiros.


CAPÍTULO IV

Da Diretoria

Art. 8 – A Sociedade será administrada por uma Diretoria composta de cinco membros, eleitos pela Assembléia Geral, sendo um Presidente, um Vice-Presidente, um Secretário Geral, um Tesoureiro e um Diretor de Publicações e Promoções Culturais.

Art. 9 – A Sociedade será representada perante terceiros, pelos seus Diretores, na ordem em que figuram no artigo 8.

Art. 10 – A Diretoria se reunirá quando convocada pelo seu Presidente.

Art. 11 – Cabe ao Presidente presidir as reuniões da Diretoria e as Assembléias Gerais.

Art. 12 – Cabe ao Vice-presidente substituir o Presidente nas suas ausências e impedimentos.

Art. 13 – Cabe ao Secretário Geral referendar a correspondência recebida.

Art. 14 – Cabe ao Tesoureiro referendar os contratos onerosos que forem aprovados pelo Presidente e gerir os fundos de que trata o artigo 7 destes estatutos.

Art. 15 – Cabe ao Diretor de Publicações e Promoções Culturais a divulgação de trabalhos filosóficos, por veículo próprio ou em cooperação com outros órgãos, de acordo com o Presidente.

Art. 16 – As deliberações da Diretoria serão tomadas pela maioria dos diretores.

Art. 17 – A Sociedade só poderá ser validamente citada na pessoa do seu Presidente ou de seu substituto.

Art. 18 – A duração do mandato dos diretores será de dois anos.


CAPÍTULO V

Da Assembléia Geral

Art. 19 – Os sócios se reunião, anualmente, em assembléia geral ordinária, em dia, lugar e hora designados pela Diretoria.

Art. 20 – A convocação para as assembléias gerais será feita por carta aos sócios, posta no correio com pelo menos 15 (quinze) dias de antecedência.

Art. 21 – A assembléia será presidida pelo Presidente da Sociedade que escolherá quem deve secretariá-la.


CAPÍTULO VI

Dos Núcleos Regionais

Art. 22 – Os Núcleos Regionais será os órgãos da Sociedade nas Unidades da Federação e terão existência autônoma em tudo que disser respeito ao seu peculiar interesse, nos termos destes estatutos.

Art. 23 – Cada Núcleo Regional será dirigido por uma Diretoria composta de um Diretor, um Secretário e um Tesoureiro, eleitos por mandato de dois anos, em reunião especialmente convocada para esse fim.

Parágrafo Único – O Diretor do Núcleo Regional deverá ser sócio efetivo.

Art. 24 – As atribuições da Diretoria e o funcionamento dos Núcleos Regionais serão fixados nos respectivos regimentos.

Parágrafo Único – A Diretoria Regional deverá apresentar relatório anual à Diretoria da Sociedade.


CAPÍTULO VII

Disposições Gerais

Art. 25 - Os Estatutos só podem ser alterados por iniciativa da Diretoria e voto da maioria de 2/3 dos sócios.

Art. 26 – A Sociedade não remunerará os seus Diretores, nem distribuirá lucros aos seus sócios.


CAPÍTULO VIII

Dissolução


Art. 27 – A dissolução da Sociedade só poderá ser decidida por iniciativa da Diretoria e pela maioria dos seus sócios, ou, se não houver quorum por ocasião da primeira reunião, pela maioria dos membros presentes.

Parágrafo Único – No caso de dissolução da Sociedade seu patrimônio será entregue a uma instituição que for designada pela maioria dos sócios.


A seguir o Presidente submeteu os Estatutos à discussão e posteriormente à votação, tendo os mesmos sido aprovados unanimemente. O Presidente declarou então definitivamente organizada a SOCIEDADE DE ESTUDOS E ATIVIADES FILOSÓFICOS – (SEAF) e convidou os sócios a elegerem a primeira Diretoria, verificando-se que o resultado da eleição foi o seguinte: Presidente: OLINTO ANTONIO PEGORARO; Vice-Presidente: LEDA MARIA DE MIRANDA HÜHNE; Secretário-Geral: MARIA CÉLIA DE MORAES NEIVA SIMON; Tesoureiro: FRANCIMAR ARRUDA CAMPOS; Diretor de Publicações e Promoções Culturais: ANA MARIA FELIPPE GARCIA, sendo todos eles eleitos na forma do art. 8 dos Estatutos Sociais. A seguir o Presidente declarou que a Diretoria tomará imediatamente as providências necessárias para efetuar o registro deste instrumento nos Registros pertinentes. Nada mais havendo a tratar, a assembléia foi encerrada, da qual eu, Secretário, preparei esta ata que foi lida e aprovada e é assinada por todos os presentes. Rio de Janeiro, 10 de julho de 1976.

Olinto Antonio Pegoraro

Maria Célia de Moraes Neiva Simon


Leda Maria de Miranda Hühne


Francimar Arruda Campos


Ana Maria Felippe Garcia


Hilton Ferreira Japiassu


Regina Simas de Araujo Miranda


José Silveira da Costa

José Alves de Araújo



REGISTRO CIVIL DAS PESSOAS JURÍDICAS
EM 22 DE DEZEMBRO DE 1976


quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Os aspectos da violência institucional

"A violência institucional é uma política que não depende dos governos", diz Paulo Arantes

Para o filósofo, o Estado de Direito encontra-se à deriva no mundo inteiro: "ainda é norma incontornável, porém cada vez mais inefetiva"

17/12/2007 - da redação
por jpereira — Última modificação 17/12/2007 19:22

"Tortura-se desde sempre em qualquer cadeia pública brasileira. O escândalo dos anos de chumbo é que esta prática se estendeu aos brancos de classe média politicamente radicalizados. Quer dizer, o que havia de chocante era a inédita ampliação das classes torturáveis brasileiras, até então seletivamente restritas aos pobres, negros e presos”. A opinião é de Paulo Arantes em entrevista especial, por e-mail, à IHU On-Line.

Segundo ele, "a violência institucional ilegal é exercida hoje como uma política sistêmica”. Tanto é assim que, constata o filósofo, que "os governos não fazem mais a diferença. Foi assim com o FHC, e continua agora com o Lula, ambos equipados não obstante com os melhores secretários de direitos humanos disponíveis no mercado de ativistas bem intencionados".

Paulo Arantes é graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), doutor pela Universidade Paris X, Nanterre, com a tese Hegel: l'ordre du Temps (Paris: Harmattan, 2000), também disponível em português: Hegel: a ordem do tempo (2. ed. São Paulo: Hucitec, 2000). Arantes é docente emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, departamento de Filosofia da USP. Escreveu inúmeras obras, das quais destacamos Um departamento francês de ultramar (São Paulo: Paz e Terra, 1994); Ressentimento da dialética (São Paulo: Paz e Terra, 1996); e Extinção (São Paulo: Boitempo, 2007).

Considerando os últimos acontecimentos no Brasil, como a prisão da menor L. em uma cela masculina, o ataque a mendigos e a morte de crianças indígenas por desnutrição, como o senhor avalia o cumprimento dos direitos humanos em nosso país? Concorda com a declaração da ONU de que no Brasil podem estar havendo atos de tortura?

Paulo Arantes - As barbaridades que você acaba de evocar dentre os descalabros mais recentes em foco na mídia – e bastaria apenas uma, como disse certa vez Borges , interrompendo um relato de atrocidades perpetradas pela ditadura argentina – dão bem uma idéia do novo ciclo histórico de violência que paradoxalmente se abateu sobre o Brasil desde o fim do regime militar. Registro de violações como o da ONU sempre ajudam, mas acabam contribuindo para a anestesia geral na medida em que tudo acaba virando uma questão de indicadores mais ou menos desalentadores.

Comecemos pelo básico: tortura-se desde sempre em qualquer cadeia pública brasileira. O escândalo dos anos de chumbo é que esta prática se estendeu aos brancos de classe média politicamente radicalizados. Quer dizer, o que havia de chocante era a inédita ampliação das classes torturáveis brasileiras, até então seletivamente restritas aos pobres, negros e presos. Não deixa de ser inquietante reparar que é precisamente esta a circunstância histórica que viu nascer o que viria depois a se institucionalizar como uma política de direitos humanos e igualmente não por acaso desde então acoplada à eterna promessa de uma “verdadeira” política de segurança pública, em contraposição à usual, baseada na escalada punitiva, desde o enfrentamento tipo “guerra urbana” até o endurecimento contínuo da execução penal. Voltando ao básico.

Nunca é demais lembrar que o gatilho da violência institucional ilegal contra os de baixo no Brasil foi disparado no momento em que o Código Criminal dos primeiros tempos do país independente restabeleceu a tortura e a punição sem encarceramento dos escravos, de cuja força de trabalho seus proprietários não poderiam ser privados. Vem dessa atualização liberal do escravismo a tradição de uma polícia com plenos poderes de arbítrio, até às prerrogativas de vida e morte que vemos hoje. Essa, a matriz histórica da catástrofe humanitária em que o Brasil está se tornando. Resta a contribuição da regressão global em curso, a confluência do grande capital corporativo com o sistema local da violência: penso, por exemplo, no episódio de alguns anos atrás, quando se verificou que um hiper-mercado Carrefour havia contratado seus serviços de segurança junto ao tráfico numa favela ao lado. Parcerias.

O que a postura das autoridades de segurança e saúde revela sobre a estrutura política do governo Lula a respeito desses temas?

Paulo Arantes - Mostra que os governos não fazem mais a diferença. Foi assim com o FHC, e continua agora com o Lula, ambos equipados não obstante com os melhores secretários de direitos humanos disponíveis no mercado de ativistas bem intencionados. Que a violência institucional ilegal é exercida hoje como uma política sistêmica. E não adianta dizer que as coisas mudarão quando forem enfim controladas e unificadas as vinte e sete polícias autônomas dos 27 estados, que além do mais são três, federal, militar e civil. Já é assim na Colômbia (polícia unitária e exército dando combate direto ao narcotráfico). Mas, por acaso, mano dura com obras públicas, isto é, o modelo Medellín – é o que se está buscando? Não é só no Brasil que nos defrontamos com um Estado de Direito cuja polícia pode agir como um grupo de extermínio.

O Estado de Direito encontra-se à deriva no mundo inteiro: ainda é norma incontornável, porém cada vez mais inefetiva. Nos países centrais, tornou-se quando muito uma ordem política mínima encarregada de tutelar os direitos subjetivos para o terço superior da população entrincheirado na fortaleza do conforto material capitalista. Pelo menos é assim que raciocina um jurista como Danilo Zolo: o Estado de Direito continua insubstituível e em vigor, mas tudo se passa como se estivesse suspenso.

Que contradições o senhor percebe entre a duplicação do orçamento para rearmar o exército brasileiro a fim de defender nossas fronteiras e a situação da segurança pública nacional, mal-equipada e muito mais reativa do que preventiva?

Paulo Arantes - Nenhuma. A fronteira que realmente conta é interna e social, a função de polícia das forças armadas é questão de tempo, e está sendo testada no laboratório cruento do Haiti. Quanto ao descalabro da segurança pública nacional, não é uma questão de maior ou menor dotação orçamentária. Um aparato policial bem equipado continuaria amalgamando os ilegalismos, em cujo limiar os pobres estão condenados a sobreviver, com a condição descartável de indivíduos fora do direito.

Como o senhor conecta a situação social brasileira com a situação mundial da globalização, sobretudo de mazelas como a violência, fome e educação precária? Esses problemas tendem a se aprofundar ou é possível vislumbrar uma solução?

Paulo Arantes - Se fosse realmente para valer, a declaração da ONU deveria reservar um tópico especial para os Estados Unidos, a globalização da tortura e crimes conexos, como seqüestro de suspeitos e a proliferação de campos em que prevalece a lógica da exceção. O que era operação encoberta durante a Guerra Fria tornou-se objetivo explícito de memorandos oficiais legitimadores do limbo jurídico para o qual se está empurrando uma espécie de classe torturável global, algo como uma humanidade excedente em que todos são a rigor clandestinos. Daí a guerra suja de contenção permanente desse povo subterrâneo e o decorrente embrutecimento do conjunto da sociedade.

Qual deveria ser a postura dos intelectuais sobre temas como os direitos humanos e segurança pública? Nesse sentido, como o senhor percebe o caso brasileiro?

Paulo Arantes - O Estado hoje é a um só tempo, e cada vez mais, penal e social. A massa carcerária barbarizada aumenta na mesma proporção dos pobres assistidos. Além de vigiar e punir, é preciso “cuidar”. Novos fatores de risco e populações vulneráveis exigem novos gestores dessas emergências. Daí o número proliferante de núcleos de estudo da violência que já não se distinguem mais de agências ideológicas da Lei e da Ordem, assim como o Terceiro Setor vai tocando programas em que direito se confunde com prestação de serviço. Se um militante dos direitos humanos também se encarrega de segurança pública, só um doido recusaria este tipo ideal. Um cínico diria, porém, que ele oferece a vantagem suplementar de livrar da má consciência o atual esforço punitivo, enquanto acena para o povo dos porões com a eventualidade de uma janela na mídia das violações espetaculares.

Em entrevista recente, o senhor diz que votar nem pensar. Não seria essa uma forma de aprofundar a apatia política e reiterar um niilismo que só solidificaria a falta de perspectivas em nossa política?

Paulo Arantes - Nietzsche distinguia niilismo ativo e passivo. Sancionar a oligarquia política de quatro em quatro anos me parece ser um caso da segunda espécie.

Fonte: IHU-on line

extraído de http://www.brasildefato.com.br

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Prêmio Clarival do Prado Valadares

PESQUISA HISTÓRICA
Até 31 de março de 2008

Estão abertas as inscrições para a quinta edição do Prêmio Clarival do Prado Valadares, que seleciona anualmente um projeto de pesquisa inédito ligado à história do Brasil.


O Prêmio é promovido pela Organização Odebrecht, destina os recursos necessários para a realização da iniciativa, da pesquisa à edição de livro ilustrado.

Informações: 11-3443-9518, 11-3673-1724
http://www.odebrecht.com.br/
http://www.odebrecht.com.br/index.cfm?conteudo_id=48

domingo, 9 de dezembro de 2007

Concessão da Medalha Otávio Lobo a Lauro de Oliveira Lima


Marcondes Rosa

Dias atrás, a convite do Presidente da Assembléia Legislativa, na qualidade de integrante da galeria dos que receberam a Medalha Otávio Lobo, com a qual o Poder Legislativo do Estado do Ceará condecora os maiores nomes da educação no Ceará, estive presente na entrega da honraria a LAURO DE OLIVEIRA LIMA, ali, por motivo de saúde, representado por um de seus filhos, da mesma comenda.

Confesso-lhes que duas reações ali me invadiram: a) o como me senti - e isso confessei a professores ali sentados a meu lado - pequeno ante a magnitude histórica de Lauro, na mesma galeria; b) o diminuto, conquanto seleto, número de pessoas ali a tributar homenagens ao polêmico e grande educador.

Aqui, gostaria de transcrever homenagem da Página "Opinião" do Jornal "O Povo", prestou a Lauro de Oliveira Lima, em 10 de abril de 2007, por ocasião da concessão pela UFC do título de Doutor Honoris Causa, ao educador, um dos artigos, "Minha universidade", lido agora no Plenário da Assembléia Legislativa do Ceará, por sua autora, Ester Barroso, em sessão solene presidida pelo Deputado Artur Bruno, ex-aluno e ora proponente do título ao grande educador.

***

OPINIÃO
FORTALEZA-CE, TERÇA FEIRA, 10 de abril de 2007

LAURO DE OLIVEIRA LIMA

Na véspera dos 85 anos de idade do professor Lauro de Oliveira Lima, a serem completados depois de amanhã, nesta quinta-feira, O POVO abre suas páginas para homenagear um dos mais eminentes educadores brasileiros, recentemente agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará.

Ao se incorporar à homenagem, tributada com muita justiça, co mestre, O POVO sente-se orgulhoso de ter tido o privilégio de contá-lo entre seus colaboradores da página de Opinião, e assim contribuído para a difusão de suas idéias revolucionárias na Educação.

Minha universidade
Ester Barroso*

Nas épocas decadentes, a adulação prodigaliza a mancheias o título de gênio aos poderosos. Imbecis há que o outorgam a si próprios. Os que se elevam sobre a mediania são marginalizados, desestiinados, escarnecidos, proscritos em seu próprio país. Sua presença humilharia com a força do contraste. Bastam os vulgares. As academias se povoam de míopes, de charatães, de servis, de burocratas.

Os tartufos, os inimigos de toda luz estelar, de toda palavra sonora persigam-se diante do herético, do subversIvo, do pioneIro. Ter um ideal é um crime que os poderosos não perdoam.

O idealista é supliciado nos impérios absolutos, nas monarquias constitucionais e nas repúblicas burguesas. A Sócrates deram cicuta, o desterro a Dante, o cárcere a Galileu, a fogueira a Giordano Bruno, o isolamento a Espinosa.

Compreende-se, porque, só agora (O4/l/O7), aos 86 anos, o filósofo pedagogo, Lauro de Oliveira Lima, cearense, conhecido no Brasil e no exterior, foi outorgado com o título do Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Ceará, proposição do reitor Renê Barreira, que foi sou aluno, no Ginásio Agapito dos Santos, fundado por Lauro.

Lá iniciou suas experiências pedagógicas, inspiradas nas teorias do grande epistemólogo suiço, Jean Piaget. Piaget foi o pioneiro absoluto na descrição dos estágios de desenvolvimento mental da criança. Criou também a epistemologia genética, ciência que demonstra como o conhecimento é gerado no organismo, como se aprende. Lauro foi o introdutor do pensamento de Piaget no Brasil.

Foi o criador do método psicogenético fundamento nos estágios do desenvolvimento mental, daí denominar-se "educação pela inteligência". Lauro fez-se o aríete da ciência contra curandeirismo pedagógico. Foi o educador mais fecundo, fértil e injustiçado no nosso país. Foi vítima do silêncio, da sabotagem, da inveja, do obscurantismo, da politicalha, da prepotênia e dos lacaios.

Seu pecado original foi desorbitar as pupilas em direção às estrelas antes que o dia amanhecesse para todos. Nunca teve paciência resignada, nem a mansidão de quem se acomoda às circunstâncias, para vegetar tranqüilamente.

E um polemizador contundente, irônico, avassalador em suas criticas, porém, sempre foi vanguarda em tudo que propôs em sua trajetória íngreme e corajosa pela educação. De fato, a educação conserva-se empírica e tradicionalista.

Mesmo as"renovaçõcs" pedagógicas apóiam-se em pura "festividade" experimentalista, geralmente de pouca duração. Hoje, qualquer proposta pedagógica, não fundamentada na psicologia genética, é, simplesmente, uma contrafação.

Em pleno coração da velhice, Lauro continua a pensar por si mesmo, sempre alerta contra os que queriam desplumar as asas dos seus grandes sonhos.

E, mesmo depois de sua partida eterna, ainda ousaria a arrebentar a tumba mais resistente, se lhe fosse dado antever a esperança de que ressuscitaria de entre as cinzas, como a ave mitológica..

Conheci e convivi muitos anos com o professor Lauro, quando fui sua aluna e professo no seu Ginásio Agapito dos Santos, onde o grande mestre me ajudou a aprender tudo o que aprendi.

Por isso, dentre todas as universidades por que passei, incluve a USP, considero o professor Lauro de Oliveira Lima a minha verdadeira universidade.

* ESTER BARROSO é professora e técnica em educação do Ministério da Educação.

recebido de Antonio Morales antonio_morales@uol.com.br, em sábado, 8 de dezembro de 2007 13:09

para saber mais: