Por uma revisão da formação do cleroOlinto Pegoraro*
Folha de S. Paulo - 14/04/2010Toda a estrutura de normas e disciplinas que sustentam o celibato dos padres não faz mais sentido para o mundo contemporâneo CONSTATAMOS que, ao longo da história, a Igreja Católica tratou de forma diferenciada dois assuntos considerados fundamentais: a doutrina e a moral.
Nas
questões de doutrina dogmática, exige-se uniformidade. Qualquer desvio é cobrado com retratação pública, e quem se recusa a fazê-la é afastado do ensino da teologia, assim como destituído das funções religiosas. Existem muitos teólogos nessa condição marginalizada.
Quanto aos desvios morais, muito mais claros e evidentes que os supostos erros, as autoridades eclesiásticas procedem lentamente, na esperança do arrependimento dos faltosos.
A quem se arrepende e promete emendar-se a igreja oferece o perdão e segue a vida. Sem dúvida, essa prática se baseia nos exemplos de perdão que Jesus ofereceu generosamente a tantos pecadores e pecadoras.
Entretanto, a igreja de Jesus é dirigida por homens com as limitações de todos, seja qual for o seu

grau hierárquico. Em casos de desvios morais, os faltosos são mantidos em observação, são transferidos de um lugar para outro, de diocese para diocese e até de país para país, na expectativa do arrependimento e emenda do faltoso.
A sociedade contemporânea entende essa atitude como negligência.Essa tolerância conta com outro aliado: o silêncio. O silêncio para não gerar escândalo e para manter a imagem da igreja. Dessa maneira, casos de graves desvios morais são encobertos por espessa camada de cinza.
Se, por acaso, algo transparece, a autoridade competente, local ou vaticana, faz um pedido de desculpas.
O silêncio e o segredo dispensam até o processo canônico, isto é, o processo no tribunal eclesiástico. Um processo civil seria abominável. Por isso, é auspiciosa a manchete de ontem desta Folha, segundo a qual a igreja passa a recomendar explicitamente que casos de pedofilia sejam levados à Justiça.
Isso porque os tempos mudaram. A ética humana sofreu enormes transformações a partir da segunda metade do século 20, notadamente na esfera dos comportamentos sexuais. As pílulas anticoncepcionais e as camisinhas contribuíram enormemente na dita revolução sexual.
Essas transformações comportamentais tiveram por base um dos mais importantes princípios da ética moderna, o princípio da autonomia.
Pessoas autônomas são aquelas que respondem por seus atos sem depender das normas religiosas ou de qualquer outra regra moral.O atual caso de pedofilia mostra que os novos tempos da ética da autonomia alcançaram também a Igreja Católica. Pelos direitos humanos processam-se padres, dioceses e até o Vaticano. Já não são suficientes o reconhecimento do erro e o pedido de desculpa às vítimas.
Será necessária uma intervenção jurídica, canônica e civil, visto que o clérigo faltoso é, ao mesmo tempo, um cidadão.A história mostra o resultado negativo de normas aplicadas durante séculos, como o celibato, no caso atual da pedofilia. É preciso reconhecer esse fato, e não tergiversar. As normas envelhecem e, com o andar do tempo, geram efeito contrário do esperado.
De fato, toda a estrutura de normas e disciplinas que sustentam o celibato dos padres não faz mais sentido para o mundo contemporâneo.
O que faz sentido é um clérigo de muita fé, bem formado em teologia e filosofia e plenamente integrado na sociedade. A atual estrutura da formação do clero age contra os grandes propósitos da igreja.
Nos dias atuais, é incompreensível, por exemplo, que a mulher ainda esteja longe do exercício sacerdotal.Uma revisão profunda da formação do clero certamente incluirá a mulher. Esse é o pensamento da comunidade cristã em sua grande maioria.
Não faço esse comentário olhando as coisas de fora, como simples espectador que nada tem a ver com o assunto. Pelo contrário, como católico, punido por suposto desvio doutrinário, sinto-me profundamente envolvido, e essas notas querem contribuir para que, no seio da igreja, encontremos novos rumos.
Duas atitudes são decisivas: primeiro, não ter medo de quebrar paradigmas arcaicos. Segundo, prestar máxima atenção à realidade, aos modos de vida atuais. Assim poderemos construir um novo paradigma na igreja, que inclua homens e mulheres nos exercícios do sacerdócio.
Será um fato novo, um novo dia, há muito esperado. Essa é a lição positiva que emerge dos atuais debates sobre desvios morais em setores da Igreja Católica.
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* OLINTO PEGORARO, ex-padre, doutor em filosofia pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica), é professor de ética na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e membro da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa do Ministério da Saúde. É autor, entre outras obras, do livro "Ética dos Maiores Mestres".Adendo nosso: Olinto Pegoraro também é Sócio Fundador da SEAF – Associação de Estudos e Atividades Filosóficos (1976), tendo sido seu Presidente e, hoje, é respeitado e reconhecido com o título de “Presidente de Honra”.
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Os grifos são nossos.
Publicado originalmente em Folha de São Paulo, Opinião, 14 de abril de 2010
Extraído de Clipping do Ministério do Planejamento, Orçamento e GestãoPublicação online em:
Aqui, para ver notícia segundo a qual a igreja passa a recomendar explicitamente que casos de pedofilia sejam levados à Justiça".