quinta-feira, 21 de abril de 2011

Hobbes como um teórico de segurança internacional

Por que ler Hobbes como um teórico de segurança internacional?

Contexto int. [online]. 2010, vol.32, n.1, pp. 09-38. ISSN 0102-8529.  doi: 10.1590/S0102-85292010000100001

Thomas Hobbes tornou-se uma figura canônica para teorias de segurança internacional, ainda que seus escritos digam relativamente pouco acerca do que chamaríamos hoje de um sistema internacional. Este artigo sugere que Hobbes permanece importante para a análise de segurança internacional, assim como para a teoria política de modo mais geral, não por desenvolver qualquer teoria coerente de Relações Internacionais, mas sim porque sua consideração sobre a soberania de Estados particulares exige uma análise sobre as condições de possibilidade externas de tais Estados. Uma política após Hobbes precisa tratar dos efeitos constitutivos de sua filosofia da história particular. Assim, este artigo propõe uma leitura política de Hobbes, a qual enfatiza sua importância para o pensamento da política moderna e de suas condições de possibilidade; de suas origens e limites, que são também nossas origens e limites enquanto sujeitos modernos.

Palavras-chave : Hobbes; Política Moderna; Segurança Internacional; Filosofia da História.

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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Paul Ricoeur - O sentido do tempo

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Obra-prima de Paul Ricoeur investiga relação entre experiência humana e narrativa

Resenha de 'Tempo e narrativa', de Paul Ricoeur

Tempo e narrativa, de Paul Ricoeur.
Tradução de Claudia Berliner.
1.208 páginas. R$ 156 (os três volumes)




Por Júlio Cesar Machado de Paula*

Vez por outra, o mercado editorial brasileiro nos dá razões de celebração, resgatando do limbo obras que, inexplicavelmente, lá permaneciam com o frustrante rótulo de “esgotadas”. É o caso da trilogia “Tempo e narrativa”, de Paul Ricoeur, que volta às livrarias em nova e bem cuidada edição da Martins Fontes.

Por mais ampla que seja a acepção em que o tomemos, o termo filósofo jamais será suficiente para recobrir o trabalho acadêmico de Paul Ricoeur, pensador múltiplo que abarcou em sua extensa produção, além da própria filosofia, textos de historiografia, teologia, psicanálise e teoria literária. Tendo iniciado sua formação no começo da década de 1930, manteve-se atento aos principais sistemas filosóficos europeus do século XX, sabendo colher de cada um deles, mesmo dos que divergiam de sua trajetória, elementos que lhe parecessem válidos para suas próprias análises. Tal procedimento, assumidamente assistemático, foi, por um lado, alvo de críticas por parte dos que o tinham como um pensador excessivamente eclético e, por vezes, incoerente; e, por outro, motivo de elogios por parte daqueles que, como o próprio Ricoeur, não se vexavam de buscar no trabalho do outro (mesmo daquele de quem se divergia) aquilo que o nosso pensamento isoladamente não seria capaz de atingir.

Um exemplo dessa busca pelo pensamento do outro pode ser dado pela experiência de Ricoeur na academia norte-americana, especialmente por seu contato com a filosofia analítica anglo-saxônica e sua inclinação por estudar não apenas a natureza ontológica de cada categoria, mas seus mecanismos de funcionamento e de interação com o mundo. “A metáfora viva”, de 1975, primeiro fruto desse contato, determinou uma mudança significativa na trajetória de Ricoeur, assinalada, dali em diante, pela convicção de que a linguagem não deve ser vista como um mero dispositivo simbólico que torna apreensível a experiência humana, mas como um dos principais elementos constitutivos dessa mesma experiência. E é o próprio Ricoeur quem nos alerta: concebidas em conjunto, “A metáfora viva” e “Tempo e narrativa” são obras gêmeas.

Em “Réflexion Faite”, sua autobiografia intelectual, Ricoeur evidencia a tese que orientou a escrita de “Tempo e narrativa”: a existência de uma “conexão significativa” entre a função narrativa e a experiência humana do tempo, já que “o tempo se torna tempo humano na medida em que está articulado de maneira narrativa”, e, em compensação, “a narrativa é significativa na medida em que desenha as características da experiência temporal.” De caráter circular, tal hipótese é posta à prova, no primeiro momento, por um inusitado diálogo entre o Livro XI das “Confissões” de Santo Agostinho e a “Poética” de Aristóteles. O primeiro acaba concluindo pela negação ontológica do tempo, já que ele não seria mais do que um trânsito entre um futuro que ainda não é e um passado que já não é mais.

Diante do impasse, Ricoeur vislumbra na dinamicidade do conceito aristotélico de mythôs, entendido como a criação de uma estrutura de sentido, e cerne, para ele, do processo de tessitura da narrativa, a possibilidade não de definir o tempo, mas de conferir-lhe justamente uma estrutura de sentido que o torne apreensível. É por meio da tessitura narrativa, portanto, que nossa experiência com o tempo se torna significativa.

Na sequência, Ricoeur se entrega à investigação desse processo na narrativa histórica, ainda no primeiro volume, e na narrativa de ficção, objeto do segundo volume. Livre das obrigações acadêmicas, o romance constituiria, para Ricoeur, “o grande laboratório no qual o homem experimenta relações possíveis com o tempo.” Em busca de tais relações, Ricoeur se dispõe a analisar, no segundo volume, a estruturação temporal de três romances, por ele classificados como fábulas do tempo: “Em busca do tempo perdido”, de Proust, “A montanha mágica”, de Thomas Mann, e “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf.

No terceiro volume da trilogia, Ricoeur prossegue em seu método de entrecruzar vozes filosóficas, desta vez, trazendo à cena o pensamento fenomenológico de Kant, Heidegger e Husserl. A intenção (bem sucedida) de Ricoeur é demonstrar como as diferentes abordagens fenomenológicas do tempo não só não resolvem o intervalo que separa o tempo cosmológico do tempo da percepção, como acabam por ampliá-lo. Não resta alternativa, pois, senão insistir no preenchimento desse intervalo por meio da incessante elaboração narrativa.

O objetivo de Ricoeur, contudo, não é analisar as abordagens fenomenológicas em si, mas propor, a partir da paradoxal concepção husserliana de duração, que engloba, a um só tempo, mecanismos de permanência (retenção da memória) e de mutação (protensão da memória), o conceito de identidade narrativa.

Para Ricoeur, a noção corrente de identidade é problemática, pois negligencia o fato de que, na origem, eram dois os termos latinos capazes de expressar tal ideia, idem e ipse, cujos valores semânticos, ainda que próximos, não se confundiam. No primeiro caso, o sentido que se destaca é o da manutenção pura e simples dos caracteres ao longo do tempo, resultando em um princípio denominado por Ricoeur de “mesmidade”. Do segundo termo, ipse, decorreria, paradoxalmente, um modelo fluido de identidade, constituído pela linguagem e regido por um princípio de “ipseidade”. Tal princípio se caracterizaria por mecanismos capazes de estabelecer compromissos com o tempo por meio da palavra, como a promessa e a profecia. Ocorre que tais mecanismos, sujeitos às intermitências da palavra, não asseguram ao sujeito a constituição de uma identidade em moldes essencialistas. Do mesmo modo, portanto, como a dinamicidade do mythôs nos leva a pensar não em uma estrutura definitiva da narrativa, mas em um processo constante de estruturação, o que a identidade narrativa salienta não é uma identidade pré-definida e estática, mas um processo constante e inconclusivo de identificação.

E é a partir justamente da identidade narrativa que Ricoeur elabora, quase transformando a trilogia em um quarteto, “O si-mesmo como um outro”, livro que aguarda, em língua portuguesa, tradução e edição à altura de sua importância. Resta torcer para que o mercado editorial nos dê mais este motivo de celebração.

* Júlio Cesar Machado de Paula é professor adjunto da Universidade Federal do Amazonas

Extraído de O Globo - Prosa & Verso
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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Tragédia em Realengo se transforma em circo de horrores dissociado de reflexão social

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Tragédia em Realengo se transforma em circo de horrores dissociado de reflexão social

Duarte Pereira*
13-Abr-2011

"Alô, alô, Realengo:
Aquele abraço!"
(Gilberto Gil, no samba-exaltação Aquele abraço,
ao partir para o exílio, forçado pela ditadura militar)

Vêm à lembrança as advertências de Engels e de
Rosa Luxemburgo de que o declínio da civilização capitalista poderia ser seguido não por um salto socialista,
mas por uma regressão à barbárie.


A dor pelas mortes e pelos ferimentos, brutais e gratuitos, das crianças e pré-adolescentes da Escola Municipal Tasso da Silveira, no bairro do Realengo, na cidade do Rio de Janeiro, não deve obscurecer nossa consciência crítica.

Nada que é humano é somente individual. É individual e social. Mesmo a loucura e suas consequências.

Em que exemplos de violência e insensibilidade, reais e fictícios, o rapaz Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, ex-aluno da escola atingida, buscou inspiração? Onde conseguiu informações sobre o manejo de armas e o planejamento de massacres? Como adquiriu os dois revólveres e a farta munição que utilizou? Por que Wellington, filho de uma paciente psiquiátrica, arredio desde criança, e que já apresentava há vários meses, após o falecimento dos pais adotivos, sinais perceptíveis de descontrole e decadência pessoal, foi esquecido sozinho numa casa herdada, sem apoio nem assistência?

A forma capitalista de vida social, sobretudo em seus traços contemporâneos, engendra um individualismo cada vez mais exacerbado e uma perda crescente de atenção e solidariedade das pessoas entre si. Não é possível outra forma de sociabilidade humana, que reduza tragédias como a que ensanguentou ontem pela manhã o bairro carioca de Realengo?

Estou cada vez mais estarrecido com a cobertura predominantemente passional e facciosa da tragédia ocorrida em escola municipal do Rio de Janeiro, no bairro do Realengo.

O jovem Wellington de Oliveira, autor dos disparos que mataram e feriram alunos inocentes da escola, foi chamado de "meliante" nas primeiras declarações do policial que o abateu e continua sendo indigitado como "assassino" por quase toda a mídia, embora já se saiba que sofria de esquizofrenia desde criança. A mídia negligencia as informações de que Wellington, quando era aluno da escola, passou por vexames e humilhações por causa de sua introversão e bizarrices. Não aborda a falta de acompanhamento e tratamento adequados de um paciente diagnosticado de esquizofrenia desde criança, o que agravou a evolução de sua enfermidade. Não trata das informações sobre atentados e manejo de armas que podem ser acessadas facilmente na internet. Não reavalia a divulgação maciça, cotidiana e acrítica dos mais variados atos e formas de violência praticadas por grandes potências e contumazes delinquentes, reproduzidos em filmes de sucesso e até mesmo em jogos eletrônicos. Não esclarece como Wellington conseguiu as armas e as munições, sem as quais não poderia ter feito seus disparos cruéis e desvairados. Não alerta para a atmosfera envenenada de individualismo e competição em que a infância e a juventude vêm sendo forjadas.

Com essa cobertura irresponsável e superficial, a maioria da mídia apenas acirra a dor e as reações equivocadas dos parentes das vítimas e de um amplo setor popular. E, nesse clima irracional, as autoridades policiais já alertam para possíveis ataques de represália a familiares do jovem atirador.

São poucos também os professores e mais reduzidas ainda as entidades do magistério que têm vindo a público para lembrar a violência que se tornou endêmica nas escolas, principalmente nas escolas públicas, rebatendo a ideia de que a tragédia do Realengo possa ser considerada um fato isolado e imprevisível. Surpreende também que os movimentos de saúde, sobretudo os de saúde mental, não se empenhem em repor a apreciação do trágico acontecimento num quadro mais objetivo e multilateral, que leve em conta a condição do autor dos disparos, a falta de acompanhamento e tratamento de seu padecimento mental e as circunstâncias finais de abandono e solidão que precederam seu gesto de sofrida insanidade. Preocupa também que juristas de indiscutíveis convicções democráticas não se pronunciem para reclamar o tratamento jurídico adequado que merece um jovem esquizofrênico, mesmo que pratique atos de grande crueldade.

Abalados pelo acontecimento, que não conseguem entender satisfatoriamente, muitos parecem retroceder à Idade Média, quase pregando a condenação dos loucos como endemoninhados e bruxos e seu justiçamento nas chamas de fogueiras.

Vêm à lembrança as advertências de Engels e de Rosa Luxemburgo de que o declínio da civilização capitalista poderia ser seguido não por um salto socialista, mas por uma regressão à barbárie. É preciso insistir, portanto, na necessidade de lutar pela alternativa de uma civilização superior, socialista, baseada não apenas no poder democrático dos trabalhadores, na propriedade social dos meios de produção, no planejamento das atividades econômicas ou em serviços públicos universais e de qualidade, principalmente nas áreas de saúde, educação e previdência, mas também em valores de respeito, solidariedade e ajuda mútua no convívio social.

Questões que não querem calar

O programa “Fantástico” transmitido pela Rede Globo na noite de domingo exibiu novas reportagens sobre a tragédia que se abateu sobre a Escola Municipal Tasso da Silveira, no bairro do Realengo, na cidade do Rio de Janeiro. As reportagens devem ter suscitado novas preocupações nos espectadores atentos.

1) É legal e admissível que a polícia carioca repasse imagens e documentos da investigação para a Rede Globo com exclusividade, discriminando os outros veículos de comunicação?

2) Segundo as imagens transmitidas, as professoras das duas salas de aula invadidas pelo atirador foram as primeiras a fugir, deixando para trás as crianças e adolescentes pelos quais eram responsáveis. Por que a entrevistadora não questionou esse comportamento? Por que as autoridades educacionais do Rio de Janeiro não apuram, nem discutem com as famílias dos alunos, a conduta da direção, dos professores e dos funcionários da escola no episódio, até mesmo para estabelecer padrões de reação escolar na eventual repetição de ocorrências semelhantes? Segundo regra conhecida, o comandante de uma embarcação que naufraga deve ser o último a abandoná-la.

3) Relatos de colegas de Wellington de Oliveira, reproduzidos pelo programa da Globo, confirmaram que o menino introspectivo e vulnerável costumava ser objeto de gozações e humilhações na escola. Grupos de alunas o cercavam, roçando seu corpo e simulando assediá-lo sexualmente, para o sádico divertimento de outros alunos e alunas que assistiam. Em uma ocasião pelo menos, colegas mais fortes o levantaram pelas pernas, enfiaram sua cabeça numa privada e acionaram a descarga, conforme os entrevistados admitiram. Contraditoriamente, uma das professoras que abandonou precipitadamente a sala de aula, deixando para trás seus alunos, declarou enfaticamente no programa da Globo que nunca houve “histórico de violência” na Escola Municipal Tasso da Silveira. O que era feito com Wellington não configura violência e violência repetida? Como são supervisionados os banheiros, os horários de recreio e as saídas das escolas, que se têm revelado momentos e espaços críticos para a integridade e a segurança de alunas e alunos mais indefesos?

4) Conforme as declarações de um dos irmãos de criação de Wellington, a mãe deles foi chamada à escola, alertada para o comportamento discrepante do aluno e aconselhada a procurar um psicólogo ou psiquiatra para avaliá-lo. Isso foi feito? Em nossa sociedade capitalista, sobretudo na fase neoliberal e privatizante que atravessa há cerca de duas décadas, existe serviço público na região capaz de assegurar esse atendimento, tratamento e acompanhamento? Por que esses aspectos da tragédia não são pesquisados, nem discutidos?

5) Por que não têm sido ouvidos juristas competentes sobre os aspectos penais envolvidos em atos de jovens esquizofrênicos, mesmo que esses atos sejam chocantes, brutais e injustificáveis como os que abalaram a escola do Realengo? Se Wellington tivesse sobrevivido, ele poderia ser levado a júri e condenado à prisão? É correto tratá-lo raivosamente como “criminoso” e “assassino” como qualquer jovem normal e imputável, esquecendo seu prolongado e negligenciado sofrimento mental? A dor merecida pelas vítimas de sua insanidade e a solidariedade com os familiares dos alunos mortos e feridos devem impedir a solidariedade com os familiares do autor dos disparos e a compaixão pelo jovem que premeditou e executou o massacre e acabou sendo vítima de seus próprios atos tresloucados?

A tragédia do Realengo precisa ser debatida de forma séria e multilateral se a intenção for evitar a repetição de ocorrências semelhantes e não apenas disputar índices de audiência.

É preciso insistir: tudo que é humano é inseparavelmente individual e social. Inclusive a loucura e suas consequências. O capitalismo contemporâneo incentiva, mais do que nunca, o individualismo, a competição, a insensibilidade. Exalta os vencedores e despreza os derrotados. Pode queixar-se de colher os frutos de seu darwinismo social?

Internem a Globo?

O locutor William Bonner anunciou ontem à noite (11/04) em tom dramático pelo Jornal Nacional, transmitido pela Rede Globo para todo o país, que o "homem" que assassinou "covardemente" alunas e alunos da escola carioca Tasso da Silveira mantinha contatos com um grupo "terrorista" supostamente islâmico, insinuando que esse grupo o poderia ter influenciado a planejar e executar o ataque sangrento à escola.

Era o que faltava. A Globo encontrou a linha ideal de investigação policial para tentar impedir qualquer discussão séria e abrangente sobre as causas que levaram à tragédia do Realengo e para deslocar as responsabilidades por essa tragédia da direita para a esquerda do espectro político. Nada de falar na esquizofrenia do jovem Wellington de Oliveira, nem na falta de apoio e tratamento que agravou sua enfermidade. Nada de recordar as perseguições e humilhações que sofreu quando era aluno da escola atacada. Nada de mencionar as informações sobre armas e massacres que podem ser acessadas facilmente na internet. Nada de aludir à cultura de individualismo, competição e insensibilidade disseminada pelo capitalismo contemporâneo. Nada de referir-se aos filmes, jogos e exemplos de truculência e crueldade que vêm dos Estados Unidos e das outras potências imperialistas. A grande questão passou a ser, para a Globo, os contatos de Wellington com um alegado grupo "terrorista", que pode nem ser real, mas criado pela imaginação doentia do jovem.

Acresce que para os monopólios capitalistas de informação como a Globo a palavra "terrorismo" abarca tanto os atos de terror propriamente ditos e as organizações que os praticam quanto à resistência armada de povos oprimidos, como o palestino. Em contrapartida, para esses monopólios da informação, Estados, exércitos e partidos como os de Israel e dos Estados Unidos, que bombardeiam e devastam outros países e assassinam seletivamente seus líderes, não praticam o terrorismo. Assim, ao tentar envolver um suposto grupo "terrorista" nos atos tresloucados do jovem Wellington, a Globo busca comprometer setores que a população costuma considerar de esquerda no massacre justificadamente repudiado.

No esforço para montar essa versão tendenciosa, a Globo não se constrangeu sequer com uma objeção de simples bom senso: por que algum grupo terrorista, de direita ou de esquerda, teria interesse em insuflar um ataque à modesta escola municipal de bairro periférico do Rio de Janeiro?

Para revestir de alguma credibilidade a insinuação, o Jornal Nacional ouviu o ministro da Justiça que se prestou a declarar que a Polícia Federal apoiará todas as linhas de investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro, inclusive a do alegado envolvimento de grupo "terrorista" com as maquinações do jovem Wellington de Oliveira. O que não consegue a poderosa Globo?

*Duarte Pacheco Pereira é jornalista, escritor e ex-dirigente da Ação Popular.

Extraído de Correio da Cidadania
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terça-feira, 8 de março de 2011

O futuro da filosofia da práxis

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O futuro da filosofia da práxis


Filosofia e Questões Teóricas

Paulo Marçaioli *

Seg, 28 de Fevereiro de 2011 12:27


As palavras, de tanto ser repetidas, podem eventualmente ter seu significado prejudicado, sublimado pelo conjunto de usos e entendimentos de acordo com conveniências políticas mais ou menos conscientes. Deve-se sempre atentar para o fato de que falar sobre 'liberdade', 'justiça', 'democracia', 'socialismo', 'holocausto', 'direitos humanos' ou 'meio ambiente' vai implicar sempre em certa adequação dos termos a determinados discursos e práticas políticas, eventualmente antagônicas entre si. A palavra 'democracia', aqui, assume um papel bastante emblemático. Democracia é reivindicado por quase todos, da direita neoliberal aos socialistas, passando mesmo pelos regimes de ditadura militar ou civil que igualmente justificam a repressão como forma de 'salvar a democracia'. O significado de palavras como 'democracia' passa a ser definido de acordo com as convicções políticas de cada emissor em cada situação histórica específica, determinada por fins ora de legitimação ora de transformação da ordem.

Se o sentido das palavras dialoga com uma sociedade em conflito, a disputa pelos significados dos conceitos relacionados à tradição marxista (socialismo, trabalho, alienação, ideologia e, por suposto, o próprio termo 'marxismo') passa a ser algo determinante. Determinante para saber situar melhor nossas práticas de acordo com elaboração teórica mais detalhada das realidades complexas do trabalho e da luta por sua emancipação no século XXI. E determinante, particularmente, para fazer sobreviver e avançar o legado teórico-metodológico do marxismo frente à ideologia pós-moderna e/ou demais 'filosofias' que se propõem a negar em bloco qualquer atualidade das teses de Marx – corroborando, na esmagadora maioria das vezes, para a perpetuação do status quo.

Estas duas últimas preocupações, o aprofundamento teórico e a atualização do marxismo a partir da análise concreta das contradições do capitalismo do século XXI, são fontes de preocupação recorrente dos textos de Leandro Konder. Em 'Derrota da Dialética', o autor faz um estudo de fôlego sobre a recepção das ideias marxistas no Brasil, destacando as graves dificuldades de acesso, difusão e compreensão da filosofia da práxis como fontes da "derrota da dialética", da conformação do marxismo sob uma forma esquemática, linear e pouco atenta às potencialidades da dinâmica da história. A dialética é substituída pelo evolucionismo e a teoria passa a ser mera forma de legitimação das práticas políticas determinadas pela orientação das direções políticas dos instrumentos de luta. Em "Marxismo e Alienação", Konder dedica dois capítulos ao problema da alienação dentro das organizações de esquerda, no mundo e no Brasil. Já em o 'Futuro da Filosofia da Práxis', o objeto do autor é simples e ao mesmo tempo ousado: partindo do fato de Marx ter sido um pensador do séc. XIX, que influenciou diversos movimentos e autores ao longo do séc. XX, pergunta-se Leandro Konder em que aspecto a filosofia de Marx mantém sua atualidade no séc. XXI. O sentido da palavra "marxismo" tem um tratamento especial no ensaio. Mais uma vez, se as palavras são fontes de disputas políticas, o resgate das principais teses de Marx, relacionando-as com seus usos (e abusos) ao longo dos anos, cumpre o papel de desmistificar certo entendimento dogmático das ideias do filósofo alemão.

Revisitar as ideias de Marx

"Marx foi um pensador do século XIX' é o nome do primeiro capítulo do ensaio. Aqui, a constatação, aparentemente óbvia, implica levar em consideração os próprios limites do autor, dado o universo cultural e o repertório de ideias acessíveis a um pensador naquele momento e naquelas circunstâncias históricas. Trata-se, acreditamos, do velho problema do 'anacronismo' discutido pelos historiadores. Anacronismo, em primeiro lugar, correspondendo à análise de personagens do passado que não leva em consideração o fato de que aqueles mesmos personagens não terem tido acesso aos acontecimentos subsequentes à sua produção em vida, contrariando eventualmente seus prognósticos. Anacronismo, em segundo lugar, em certa recepção das ideias de Marx como uma doutrina a partir da qual a realidade deve se adequar de maneira esquemática.

Nesse sentido, um fato bastante emblemático tratado por Leandro Konder refere-se às ambigüidades entre as ideias revolucionárias de Karl Marx sobre o problema da consciência política e alienação e a sua conduta própria em vida. Marx lança as bases de um entendimento revolucionário do homem e sua formação de consciência, avançando sobre certa tradição, marcadamente ideológica, que busca encontrar traços mais ou menos universais do ser humano num plano distante das relações de trabalho e sociabilidade. Para Marx, a consciência é produto da experiência humana concreta que se dá, de forma privilegiada, a partir das relações de trabalho, que se modificam e possuem certa dinâmica correspondente aos estágios do desenvolvimento histórico. Ocorre que o indivíduo Marx também é produto de seu tempo. Mesmo lançando as bases de uma teoria crítica radical da realidade, ainda tem seu universo cultural relacionado ao conjunto de ideias disponíveis a um intelectual do séc. XIX e reproduz as práticas sociais de um homem da Inglaterra vitoriana. É conhecido, por exemplo, o etnocentrismo com que o velho Marx tratou as lutas de emancipação na América Latina. Em carta escrita ao genro cubano Paul Lafargue, relatada por Konder, Marx soa claramente racista. E, na verdade, as próprias ideias de Marx, particularmente suas análises sobre a alienação, o estranhamento do homem em relação à vida individualista e solitária no capitalismo, cria condições para se entender as contradições de sua prática em vida.

"O fato de ter sido um desmistificador genial dos fenômenos típicos de uma esfera decisiva da atividade alienada (a esfera da produção e da apropriação) não assegurava a Marx uma consciência isente de "alienação" na esfera da vida familiar e da moral privada". (Pg. 32)

Radicalizar o marxismo

Revisitar as ideias de Marx significa, portanto, aplicar até as últimas conseqüências o método crítico de Marx sobre o próprio marxismo. A crítica radical da realidade combinada a um profundo desejo e sincera disposição em engajar-se nas lutas pela superação do capitalismo foram igualmente fundamentais nos séculos XIX e XX. Hoje, a luta pelo socialismo é mais do que nunca necessária. O 'Futuro da Filosofia da Práxis', ao fazer o elo do pensamento de Marx ao longo dos séculos, certamente mereceria uma nova edição, quem sabe, pela Expressão Popular.

[KONDER, Leandro. O Futuro da Filosofia da Práxis: o pensamento de Marx no século XX. Ed. Paz e Terra.]

* Paulo Marçaioli é estudante de Direito da USP e filiado ao PSol-Valinhos


Extraído de Socialismo

  • Os grifos são nossos.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Benedito e Bento, filósofos brasileiros

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Benedito e Bento, filósofos brasileiros


Paulo Ghiraldelli Jr ©
27/02/2011

Gadafi não controla mais que 15% da Líbia. Morre Moacyr Scliar, aos 73 anos, (27/02/2011) e é homenageado pela presidente Dilma. Morre Benedito Nunes. É assim que talvez eu me lembre desse dia, no futuro. Em meio à Primavera Árabe e no dia em que a literatura nacional perde a boa pena de Scliar, desaparece também um bom filósofo brasileiro, aquele com um eterno rosto de malandro. Um rosto bem diferente dos de tantos outros filósofos, não raro marcados por vincos do sofrimento auto-imposto.

Benedito Nunes, filósofo brasileiro, esteve na mesa e na estante de muitos outros filósofos brasileiros e, enfim, de todo professor de filosofia respeitável. Caso não pelos seus diversos livros sobre Heidegger ou sobre arte, ao menos por um que, durante bom tempo, ficou solitário no que tínhamos de introdutório para os cursos de filosofia contemporânea, o pequeno mas produtivo volume de título A Filosofia Contemporânea (1991). Aliás, esse seu livrinho disse muito do professor e escritor paraense, pois, sendo de leitura sem muitas voltas, imitou o próprio humor de Benedito, também rápido no gatilho. Um humor, aliás, que combinava muito com o de outro filósofo brasileiro de sua geração, também já falecido, Bento Prado Jr.

Tive a oportunidade de estar em conversas com ambos juntos, numa mesma roda, várias vezes. Numa delas, Bento contava para nós dois, Benedito e eu, os motivos pelos quais estava contrariado. Ele dizia: “vim a uma ANPOF e não bebi, e não me deixaram falar, dado que moda agora é a filosofia meio que científica, e aí eu fiquei triste e vim noutra ANPOF e bebi, mas aí não só me deixaram falar como me fizeram falar. Eu falei bêbado, é claro. E então ficaram bravos comigo porque falei bêbado! Bem, na próxima ANPOF não saberei como agir – mas beberei”. Benedito riu e devolveu rápido para Bento: “engane-os todos, na próxima você diz que não vem, venha e não fale senão no lugar que escutam os que sabem escutar, no bar – vamos para lá urgente” E fomos!

Assim era a filosofia. Os cargos estatais eram desprezados por essa geração. Aliás, a própria reunião da ANPOF era uma reunião de amigos, não uma reunião de “produtividade”. E os filósofos liam uns aos outros. Essa geração – da qual eu peguei parte da atuação – viveu realmente para a filosofia, se deliciando em criar um clima de debates de pares na literatura nacional. Mas, após a filosofia ter se tornado “produtiva”, as teses dominaram a escrita e os leitores de colegas desapareceram. Bento foi um dos poucos que continuou lendo os colegas. Foi assim que Giannotti ganhou um crítico que, talvez, ele próprio não tenha sabido tirar proveito. Ele, Bento, sempre que podia, fazia lá a resenha de um livro novo de um colega, entre estes, Giannotti. Mas, essa prática foi desaparecendo mesmo entre os mais velhos. A idéia que vingou foi a mesquinhez: “não falo do colega nada, para não abrir espaço para ele”. Espaço onde? Na imprensa? Na briguinha departamental? Mais ou menos isso. E assim morreu a filosofia. Iniciou-se o que eu tenho chamado de o silêncio de todos contra todos. Isso refletiu nos grupos de discussão nas universidades. Cada grupo virou o grupo do orientador e seus orientandos, e não o grupo de filósofos de todo tipo e idade, como havia ocorrido com a geração de Bento Prado e de Benedito Nunes.

Mas, o fato é que Nunes e Bento tinham uma saudável característica que os diferenciava também de outros mais ou menos próximos deles, ou seja, a ausência de uma formação ligada à igreja ou ao marxismo ou mesmo ao cientificismo, as três grandes linhas de formação da filosofia brasileira de cunho acadêmico. Tendo ficado distantes disso, eles sempre puderam contar piadas desligadas do policiamento do “politicamente correto” e, ao mesmo tempo, serem capazes de promover o mais produtivo politicamente correto que a filosofia jamais conheceu em nossa academia. Eles eram professores que adoravam ver os alunos vencerem cada etapa. Tinham o prazer do convívio com a filosofia. Pensavam grandes teses da metafísica, mas articuladas aos problemas comezinhos, da vida cotidiana. Por isso, ambos, tinham um gosto especial por certo tipo de antropologia inteligente. E quando se tratava de aprender, não titubeavam em ouvir colegas, tentando reformular pontos de vista.

Assim, por conta dessa disposição, Bento podia se acomodar em São Carlos e Benedito podia viver longe do Rio e de São Paulo, na capital paraense. Eles gostavam do grande centro. Mas, sem Internet, eles estavam há muito conectados pelo pensamento do que havia de mais contemporâneo. Como? Ora, tinham a curiosidade do filósofo e a antena ligada para o que havia de bom “lá fora”. Sabiam rir, por isso tinham curiosidade. Não faziam da vida de filósofo a tarefa grotesca de ficar de banca em banca, de concurso em concurso, reprovando aqui e ali os jovens, para limitar as escolhas de um departamento ou outro de filosofia. Viviam soltos. E soltos escreviam. Escreviam quando queriam. Esperavam ter leitores, não alunos somente. Escreviam para algum leitor, não para o CNPq.

Tanto quanto as teses mais centrais que defenderam em filosofia, o que valeu foi que viveram como filósofos. Infelizmente, como já foi o caso de Bento, logo Benedito terá suas homenagens póstumas não por textos e obras como eles gostavam, mas por algum colóquio de filosofia em alguma universidade. Algum colóquio “para fazer currículo” de professores, que talvez não discuta nenhum dos textos mais ácidos que fizeram. Então, eles saberão que morreram. Sorte deles que não poderão saber tudo sobre isso, uma vez que a morte embaça um pouco a percepção do morto.


© 2011 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ

Recebido de Antonio Morales, a quem agradecemos

Extraído de Ghiraldelli

Para mais:

Adeus ao escritor e filósofo Benedito Nunes

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Escritor e filósofo Benedito Nunes morre aos 81 anos


Fabrício Bini - de São Paulo

O escritor e filósofo paraense Benedito Nunes, 81, morreu na manhã deste domingo (27 de fevereiro de 2011). Ele estava internado havia dez dias no Hospital Beneficência Portuguesa de Belém (PA). Às 20h de sábado (26), foi transferido ao CTI (Centro de Terapia Intensiva), após sofrer hemorragia no estômago, mas não resistiu.

O corpo está sendo velado na igreja Santo Alexandre. Amanhã, às 9h será realizada uma missa de homenagem ao escritor e logo após, às 11h, o corpo será cremado no cemitério Max Domini, localizado no município de Marituba (20km de Belém).


Vida e Obra

Nascido em Belém em 21 de novembro de 1929, Benedito José Viana da Costa Nunes foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará, posteriormente incorporada à Faculdade Federal do Pará.

Por "Clave do Póetico", Nunes recebeu o prêmio Jabuti na categoria crítica literária, em 2010. No mesmo ano, ganhou o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra.

Em 1989, publicou "O Drama da Linguagem - Uma Leitura de Clarice Lispector", um ensaio literário sobre a escritora.


Depoimentos

Aldrin Figueiredo, escritor e amigo de Nunes, conta que teve o privilégio de ter escrito um texto em parceira com ele, e que fez o prefácio de uma de suas obras, "Luzes e Sombras do Iluminismo no Pará", escrito em 2004, com Milton Hatoum.

Nunes era crítico literário e de arte, e sua primeira análise foi sobre as obras da escritora Clarisse Lispector. "Desse estudo foram criados dois livros, 'O Mundo de Clarisse Lispector' e o 'Drama da Linguagem', onde se observa uma análise fenomenológica e existencialista", explica Aldrin.

Ele conta que as obras foram elogiadas por Clarisse que se tornou amiga do autor.

Amarilis Tupiassu, professora de Letras da Universidade Federal do Pará e da Universidade da Amazônia, afirma que Nunes estava sempre de bom humor, e uma de suas últimas brincadeiras foi dizer que, quando saísse do hospital, a primeira coisa que iria fazer seria comer um pastel.

"Benê sempre foi brincalhão até nessa situação ele fez piada." Ela lembra que quando ele recebeu o título de Doutor Honoris Causa, homenagem feita aos professores eméritos, ela fez a saudação.


Recebido de Bertelli, a quem agradecemos.

Fonte: Folha de SP



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A empregabilidade do licenciado em filosofia em Portugal

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A empregabilidade do licenciado em filosofia em Portugal

António Paulo Costa

O ensino tem sido a saída profissional — agora praticamente esgotada — daqueles que, por vocação, por curiosidade ou por falta de alternativas (por distracção, também) fizeram uma licenciatura em Filosofia em Portugal. Mas, no ensino superior, o recrutamento de docentes tem sido insignificante; e, no ensino secundário, a quebra demográfica da população portuguesa e uma política educativa que impede a criação de turmas mais pequenas (com o consequente aumento do número destas e, logo, do número de professores necessários), faz com que a contratação de novos docentes tenha estagnado nos últimos anos. Parece evidente que ambas as carreiras estão relacionadas: como no secundário não há necessidade de recrutamento de mais pessoal docente, as licenciaturas em Filosofia deixam, progressivamente, de se tornar atractivas, quer para aqueles para quem ser professor de Filosofia seria uma vocação, quer para aqueles que veriam a docência como um mal menor. Assim, o número de licenciandos em Filosofia tem tido uma tendência genérica para estagnar. Consequentemente, quase não há necessidade de contratação de novos assistentes para as faculdades, cujo quadro actual, sob a ditadura da ratio, parece poder assegurar todo o serviço lectivo. Daqui decorre ainda outro problema: os recém licenciados questionam-se sobre as vantagens de cursarem as pós-graduações, posto que, se as faculdades não recrutam, parece também não haver saídas profissionais para os que optam por complementar a sua formação básica com um investimento na via científica. O quadro actual da empregabilidade do licenciado em Filosofia em Portugal é, grosso modo, este. E é muito mau, quer consideremos apenas o ensino, quer consideremos também outras saídas profissionais.

Porém, é ilusório pensar que um tal quadro se deve apenas a contingências demográficas ou políticas. Portugal é um país ainda atrasado, apesar de os portugueses terem visto melhorar consideravelmente o seu nível de vida material nas últimas décadas. Contudo, é difícil defender que o nível de vida intelectual e cultural tenha acompanhado o nível de vida material: a mais desatenta comparação entre nós e as nações civilizadas mostra, iniludivelmente, a dimensão do nosso atraso, visível nas taxas de analfabetismo, de abandono e de insucesso escolar, nos índices de leitura e de literacia, no número de licenciados, mestres e doutores, entre outros. Defendo que a empregabilidade dos licenciados em Filosofia (e, em geral, dos licenciados em cursos artísticos e humanísticos) é, também, um bom sintoma do estado de desenvolvimento intelectual e cultural do país. Em proporção directa: quanto maior fosse este, maior seria aquela. E assim se percebe que o drama da empregabilidade dos licenciados em Filosofia é um drama de países terceiro-mundistas.

Apenas em países onde a grande questão posta pela sociedade, sobre a Filosofia, é a de saber para que serve (e as correlativas "por que existe a disciplina no secundário?", "por que é que o erário público paga milhares em ordenados aos professores e investigadores em Filosofia?", etc.) é que a empregabilidade se torna um drama para o licenciado em Filosofia. Tal não acontece em sociedades desenvolvidas, em que a actividade filosófica está viva, em que as competências dos filósofos são reconhecidas (porque são úteis de alguma maneira) e em que os graduados em Filosofia são recrutados para os mais variados lugares no mundo empresarial, político e social, para além do ensino. Para isto concorrem dois factores: a maturidade civilizacional e a qualidade do trabalho filosófico. Ora, em Portugal isto não é o caso: nem atingimos uma tal maturidade civilizacional, nem existe uma comunidade filosófica cujo trabalho seja reconhecido como sendo de qualidade (e ainda menos como sendo útil). Evidentemente, o rumo das mudanças em Portugal, nos últimos anos, criou um quadro altamente desfavorável e desincentivador da prática e da intervenção filosóficas. A consciência crítica, quando existe, aparece como sendo algo desconfortável à mentalidade colectiva do "politicamente correcto" e os filósofos portugueses, dependentes que estão deste tecido social e das instâncias decisoras, parecem preferir o conforto de um silêncio cúmplice do que assumirem uma tradição pró-socrática de denúncia da ignorância, da incompetência e da mediocridade. Mas, com um tal silêncio bem comportado, não admira que o problema da empregabilidade se ponha. Vejamos porquê.

Um dos sinais mais claros do desequilíbrio entre a vida material e a vida espiritual portuguesa é dado pela defesa generalizada da falácia de que não há outra alternativa, numa sociedade moderna, senão a de assentar as relações sociais no paradigma económico neoliberal, que as reduz às trocas comerciais, ao mercantilismo, ao monetarismo. A Filosofia, obviamente, parece não encaixar neste paradigma: "Que se ganha com a Filosofia?" — eis a questão ouvida nos cafés (se alguém se lembrasse disso!), nos lares novos-ricos, nas salas de aula. Em grande parte, têm razão em perguntar aqueles que as colocam: têm razão em perguntar "para que serve a Filosofia à sociedade moderna?" porque o modo de vida estupidamente materialista, economicista e individualista que adoptámos é um terreno que alimenta bem a persistência de tal pergunta; têm razão porque a filosofia praticada ao longo de anos e anos nas salas de aula tem sido, quase sempre, algo sem sentido para os estudantes (e pergunto-me se mesmo os professores sabem o que estão a ensinar), uma arte lexical de exibir palavras rebuscadas, um exercício de memorização acrítica ou uma catequese filosófica maniqueista ("a filosofia ou as trevas..."). Numa palavra, um caldo de incompetência e de impreparação a que, recentemente, um novo ingrediente se lhe juntou: um "estado terminal de apatia" (para parafrasear um conhecido colunista do Diário de Notícias); têm razão em perguntar porque não se vê a participação positiva dos filósofos na vida intelectual, cultural, moral e política da sociedade portuguesa (e excluo peremptoriamente as intervenções públicas do Conselho de Ética para as Ciências da Vida, o qual obviamente não faz Filosofia, mas sim catequese cristã em sede errada; ou as de um ou outro filósofo mais mediatizado por motivos estranhos à Filosofia); têm razão em perguntar, finalmente, porque não há filósofos que liderem uma voz contra o estado de coisas português — um estado sem projecto, sem utopia, sem estratégia, sem autocrítica. Em suma, a demissão dos filósofos está em todo o lado.

Não espanta, pois, que perante o falso dilema entre a matéria e o espírito, e face à falência da vida intelectual, os portugueses julguem haver uma única opção. Poderiam os filósofos portugueses acusar, com alguma justiça, os sectores responsáveis pelas políticas educativas de pactuarem com o actual estado de coisas. Há dados objectivos que tornam esta crítica fundada: a revisão curricular no secundário, em curso, não tem sido um modelo de diálogo entre tais sectores e os profissionais de Filosofia, apesar das aparências. Percebe-se que há certos interesses comerciais, atendidos pela tutela da Educação, que pretendem que esta revisão seja meramente cosmética, mais do que uma reforma profunda do ensino da Filosofia, de modo a que não haja lugar aos novos investimentos que a devem acompanhar. E até um órgão consultivo, mas com peso nas decisões governamentais para a Educação, defendeu recentemente o afastamento da Filosofia dos currículos liceais (vide "Parecer n.º2/2000" do CNE, Diário da República, II Série, n.º121). Se o dilema entre uma vida materialista e uma vida espiritual já era falso, a acção dos sectores com responsabilidades torna a opção impossível.

Porém, é na inacreditável reacção da comunidade filosófica a tudo o que seja mudança que quero centrar a atenção. E a reacção é de inércia. E será esta inércia, esta apatia, esta indiferença, aquilo que contribui para que a Filosofia praticada seja como é — má — e as reformas essenciais não se façam. Aparentemente, desde que esteja garantido um subsídio à investigação, ou desde que o ordenado de cada um esteja assegurado, parece que isso é suficiente. Uma má consciência, havendo alguma consciência, faz-se sentir: quando interpelados acidamente por cidadãos, por pais, por vizinhos, por alunos, sobre a utilidade da filosofia ou que andam realmente a fazer, os filósofos nacionais coram e balbuciam uma resposta tímida, sem convicção e cheia de sentimentos de culpa. Pudera! Como esperamos que alguém compreenda o que se pode ganhar com a Filosofia, se a reacção dos pretensos protagonistas é esta? Como podemos esperar que alguém reconheça o valor dos filósofos e os empregue, se é evidente a incapacidade de demonstrarmos inequivocamente que a Filosofia é algo indispensável em qualquer quadrante da vida pública de um país civilizado? Não é difícil perceber como tudo isto está implicado na questão da empregabilidade. A fraquíssima empregabilidade dos filósofos portugueses é causada, em primeira instância, por esses mesmos filósofos, cuja atitude demissionária ou cuja incompetência filosófica alimenta a mentalidade dominante. Os sectores responsáveis e as contingências sociais apenas a catalisam.

Há muito que se enraizou a ideia de que o ensino é a única saída profissional. Mas terá de ser assim? Estarão os licenciados em Filosofia portugueses condenados ao desemprego e à esmola familiar? De facto, se se toma o ensino como sendo a única saída, e porque tal saída se esgotou, parece ser este o quadro a esperar. Paradoxalmente, as faculdades continuam a proporcionar formação para o ensino, como se algum daqueles licenciados pudesse vir a exercer funções docentes nos anos mais próximos (e longínquos?). E aqui chegamos ao meu ponto neste artigo. Poucas instituições universitárias tomam como sua a responsabilidade de garantir emprego aos seus licenciados. Muitos dirão que talvez essa não seja uma obrigação das universidades: a estas cabe formar, ao Estado e ao mercado cabe criar as condições de emprego. Quero defender que ambas as coisas não podem ser desligadas. A empregabilidade está certamente dependente das contingências do mercado de trabalho e das intervenções reguladoras do Estado (aliás, o próprio Estado é empregador). Mas a empregabilidade depende, igualmente, da qualidade das universidades e dos cursos aí facultados. Ainda que a falta de saídas profissionais se faça sentir numa dada área — e é o caso de Filosofia e do ensino —, uma formação deficiente apenas estreitará as perspectivas laborais dos licenciados, enquanto que uma formação de qualidade tornaria muito mais amplas as suas possibilidades de emprego. E, se essas possibilidades fossem boas, a falta de empregos no ensino teria uma dimensão menos trágica para os licenciados em Filosofia do que actualmente tem. Cabe, assim, às universidades garantir, pela sua qualidade, a empregabilidade dos seus licenciados. A garantia não tem de ser formal, isto é, não se pretende que o caloiro possa exigir um contrato de trabalho no dia em que ingressa num curso. A garantia a que me refiro é criada pela qualidade do ensino e da investigação. E o mercado empregador, especialmente o privado, percebe o que é uma licenciatura de qualidade. Assim, penso que a par com outros indicadores, as universidades deveriam ser avaliadas pela sua capacidade de inserir os seus (ex-)estudantes no mercado de trabalho. Daqui não se segue que eu defenda um cariz profissionalizante para os cursos aí ministrados; nem se segue a defesa do absurdo de garantir formalmente contratos de trabalho a todos os estudantes. Segue-se, apenas, que as coisas não podem ficar como estão, especialmente no caso de Filosofia.

Se o problema já tivesse sido pensado seriamente por quem oferece e por quem procura cursos de Filosofia, o estado de coisas seria diferente: desde logo, porque o modo reinante de praticar a Filosofia, tradicionalmente verborreico, mimético e cinzento, teria de ser banido para dar lugar a uma prática rigorosa, argumentativa, crítica e fecunda, sem a qual a Filosofia continuará a ser "inútil", um mundo de papel bolorento e de filósofos mortos venerados ad nauseum. Quem sabe pensar crítica e rigorosamente, quem sabe disputar pontos de vista argumentativamente, quem tem visão estratégica, utopia e projecto para o mundo que o rodeia não tem problemas de emprego. Mas o licenciado em Filosofia está longe de ter esta formação. Aprende a comentar, a interpretar, a palavrear. Cita autores, faz notas de rodapé, copia bibliografias, parafraseia comentadores. Não discute, nem quer discutir. Não argumenta, nem sabe argumentar. É incapaz de reconhecer um argumento falacioso ou duas teses inconsistentes. E isto torná-lo-á sempre inútil, quer num mundo onde só o dinheiro parece interessar, quer no almejado melhor dos mundos possíveis, onde a Filosofia teria a dignidade perdida. Não é apenas a vida intelectual portuguesa que é pobre: também é a pobreza filosófica em que temos vindo a ser (de)formados, e de que somos cúmplices, que é a nossa desgraça. Há que rebentar com esta apatia, com a comiseração, com o hábito de não sermos (os) melhores. A Filosofia pode ser praticada de outra maneira e essa maneira é seguramente útil à sociedade. Se assim for, o reconhecimento social advirá naturalmente e os licenciados em Filosofia serão certamente recrutados para empresas e instituições e para onde quer que seja necessário alguém munido de um espírito crítico, rigoroso, persuasivo e produtivo.

A nova formação advogada não consiste em substituir apenas umas disciplinas por outras nos currículos escolares, universitários ou do secundário: consiste fundamentalmente em mudar o tipo de trabalho feito em torno dos problemas, das teorias e dos argumentos tradicionais em Filosofia; consiste em nos apropriarmos dos instrumentos críticos adequados para enfrentar esses problemas, teorias e argumentos. Tais instrumentos são entendidos, perversamente, como constituindo a matéria de mais uma disciplina filosófica ao lado de outras — a Lógica. A Lógica não é uma disciplina de símbolos vazios, uma formalização desligada do discurso natural, uma moda anglo-saxónica. Não é apenas mais uma disciplina filosófica cultivada por alguns excêntricos com espírito geométrico e redutor. Ela é a ciência da inferência rigorosa. Mas não é a única: existe, na Filosofia praticada nos países desenvolvidos, uma área praticamente desconhecida da tradição portuguesa e que é designada por "critical thinking". A par com o estudo aturado das várias disciplinas filosóficas, fornece uma formação indispensável para que possa ser feito um trabalho consequente diante dos autores, dos seus livros, das suas teorias e dos seus argumentos. Se houvesse uma formação tendencialmente crítica como a que estou a advogar, ao invés de uma tradição exegética e ensaística, os licenciados em Filosofia saberiam como formular rigorosamente os problemas filosóficos, conheceriam quais as teorias disponíveis, compreenderiam os argumentários existentes e correlativas objecções — numa palavra, saberiam usar a sua razão para debater consequente e vivamente as matérias filosóficas, desenterrando-as das bibliotecas poeirentas. E isso dar-lhes-ia o hábito de pensar estrategicamente; dar-lhes-ia, adicionalmente, uma formação desejada por qualquer instituição ou empresa moderna; dar-lhes-ia, finalmente, um emprego. Esta é a razão pela qual qualquer curso de uma boa universidade europeia ou americana exige e proporciona aos seus alunos o domínio de certos instrumentos lógicos, formais e informais — para que saibam pensar. E pensar rigorosamente é tudo o que é preciso. Mas, entre nós isto é visto como uma presunção, uma rebeldia desviante, uma irreverência de juventude. E assim se fabricam licenciados amorfos, tacanhos, acríticos, tristes. A falência da tradição dita "continental", exegética e pós-modernista, até agora dominante na academia portuguesa, está à vista. Não gera filósofos nem gera empregos. Isto é um argumento factual suficiente para que tal tradição fosse pura e simplesmente banida das faculdades e liceus. À tradição crítica é devido, no mínimo, o benefício da dúvida, estando à vista os resultados animadores que tal tradição tem nos níveis de empregabilidade dos licenciados em Filosofia americanos e ingleses.

A empregabilidade dos licenciados em Filosofia, em Portugal, deve ser tornada um objectivo central dos cursos de Filosofia e é em função dela que tais cursos se devem organizar a nível de currículos e a nível de métodos. Urge mudar o que se estuda e como se estuda em função da utilidade do que se estuda, e esta utilidade é definida em termos de empregabilidade. Perguntemo-nos, por exemplo, onde está a reflexão filosófica nacional sobre o fenómeno das novas tecnologias, omnipresentes na sociedade portuguesa. Que formação têm os licenciados em Filosofia para manipular basicamente um computador? E onde encontrar uma formação consistente em teoria da decisão, cujo saber é crucial no mundo económico moderno? Que sabemos para poder discutir ética empresarial? Onde adquirir as competências argumentativas indispensáveis para qualquer cargo público, para a investigação, para os tribunais, para a política, para os media? Onde aprender a debater os mais prementes problemas éticos que as biotecnologias fazem emergir? Poderá dizer-se que as universidades e os liceus, no que à Filosofia respeita, estão a preparar cidadãos informados, críticos e intervenientes, como se pode ler em qualquer carta de intenções do sistema educativo? Estarão os currículos liceais e universitários a acompanhar o que acontece? Estarão estes (e outros) problemas a ser discutidos consequentemente nas nossas salas de aula? Estarão os professores e, em geral, os licenciados em Filosofia portugueses aptos a liderar o debate destes problemas? A resposta é tragicamente negativa. Não fomos preparados e não nos preparámos para tal. Hesitamos ser "politicamente incorrectos", como Sócrates, e morrer com a cicuta. Não sabemos, sequer, o que fazer para sacudir o torpor e a "apatia terminal", o que ler, o que escrever, onde e como publicar, a quem nos associarmos, o que temos a dizer. Estamos mortos. E aos mortos ninguém dá emprego.

Suponho que alguns verão a tese pragmática que associa os currículos e os métodos à empregabilidade com desconsolo e desconfiança. Muitos insistirão na questão de saber se cabe às escolas e universidades cultivar um ensino profissionalizante. Insisto: ele não está implicado no modelo de qualidade que aqui defendo. E é importante não misturar a universidade com o liceu — neste, quanto menor for o grau de escolaridade, maior deverá ser a generalidade dos currículos, que deverão conciliar a formação humanística e artística com a preparação técnica e científica; naquela, defendo que os currículos e métodos se deverão orientar prioritariamente para a qualidade, avaliada pela bitola da empregabilidade (a par com outros critérios relevantes). As razões pelas quais defendo isto são as seguintes: a formação universitária actual prepara mal os licenciados para o mercado de trabalho, mas também não se vê para o que esteja ela a preparar. Ao assumir sem complexos o ónus de tornar empregáveis boa parte dos seus licenciados, a universidade tomaria um rumo definido e objectivamente avaliável. À espera de dinheiros públicos para que a investigação avance, o cérebro nacional definha, as instalações degradam-se, a funcionalização emerge, o clientelismo alastra. Mas caso o saber que aí se cultivasse e os recursos humanos existentes tivessem outra qualidade e produzissem algo que fosse atractivo para os agentes sociais e económicos, estes tornar-se-iam investidores nessas universidades e na sua massa humana. Numa palavra, a universidade seria tão bom investimento a prazo quanto a especulação bolsista o parece ser a curto prazo. E isto é ilustrado, uma vez mais, pelas simbioses existentes entre as melhores universidades do mundo e os agentes económicos que nelas apostam, beneficiando ambos, e também os países que as albergam. Pelo contrário, as universidades portuguesas continuam a acreditar que se pode investigar e ensinar independentemente do que se passa neste mundo, nem mudando elas, nem sendo capazes de modificar tal mundo. Agarradas ao velho preconceito da (pretensa) independência e da autonomia, continuam a perpetuar uma tradição contemplativa e subsídio-dependente. Os intelectuais invectivam a decadência, talvez real, dos costumes e lamentam a redução do social e do cultural ao económico, dizendo-se mal compreendidos no que andam a fazer, tão mesquinha que é a classe dirigente e tão ignorante que é povo. Pois. Possivelmente, têm alguma razão. Mas a classe dirigente é quem decide, e é eleita pelo povo alegadamente inculto, que é, também, contribuinte. Temos de enfrentar o desafio de produzir saber e recursos humanos que, mais do que lamentar-se, estejam capacitados para intervir e demonstrar que o país não pode viver à sua margem. Temos de tornar-nos úteis a esse país amesquinhado e culturalmente atrasado, para simultaneamente nele podermos intervir. Temos de dar, para que possamos modificar e, então, exigir. E para isso, deveremos preparar-nos convenientemente, o que não tem sido o caso. O divórcio tradicional entre as vacuamente altivas universidades e o mundo de gente materialista e arrogante que, quer se queira quer não, se agarrou à ilusão do consumo, já provou ser desastroso para aquelas e para esta (que parece viver bem com isso). A questão do financiamento do ensino superior é apenas mais uma faceta desse divórcio; o problema da empregabilidade, que aqui importa, é mais outra.

O quadro que tracei não é um exclusivo da Filosofia, ou dos graduados em Filosofia. Mas não encontro consolação em saber disto. A fortiori se exige que tenhamos ideias inovadoras, estratégia, utopia e força de vontade. Sejamos exigentes connosco, com os professores, com os currículos e métodos, e com aqueles que, arrogante e ignorantemente, desprezam a Filosofia. Pensemos sobre o que sabemos fazer bem e como colocar esse saber — filosófico que seja, evidentemente — ao serviço do colectivo. Consequentemente, ao nosso próprio serviço. Abandonemos a esperança em obter, no fim do curso, um emprego pela tradicional "cunha". Envergonhemo-nos da esmola familiar que parece perpetuar-se. Sejamos "empresários filosóficos" (ou filósofos empreendedores) sem complexos, sem preconceitos, sem anátemas, em vez de meros desempregados ou funcionários resmungões e conformados. Estudemos muito e preparemo-nos melhor. Comparemos o que somos com os melhores exemplos estrangeiros, se necessário, para avaliarmos o que nos falta fazer e aprender. Para uma tal comparação, termino com uma sugestão de consulta aos sites abaixo listados, que darão ao leitor uma ideia daquilo que não se passa com a Filosofia em Portugal. Não suponho, é claro, que a vida dos filósofos estrangeiros seja um mar de rosas; mas, se a obtenção de um emprego é um objectivo que depende do mundo, acredito que depende ainda mais de nós próprios.

António Paulo Costa

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