quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Filosofilmar: relação entre filosofia e cinema


Filosofilmar

Cassiano Terra Rodrigues*
Sábado, 04 de Agosto de 2012


A história da relação entre filosofia e cinema pode ser escrita de muitas maneiras. Posso dizer que prefiro “estória”, ainda que digam os dicionários essa palavra não exista. O que farei doravante não é mais que apresentar superficialmente algumas linhas de aproximação.

A relação sempre foi tensa. Os filósofos nem sempre se deixaram levar pelo cinema, ou ao cinema, pacificamente. Talvez pela natureza bastante antirracional e imóvel que a plateia assume na sala de cinema, como se, ao entrar nela, entrasse na caverna de Platão. O cinema, ao contrário, sempre levou a filosofia às telas. Arrisco dizer que o cinema sempre levou a filosofia além de si.

Projeções de simulacros, representações falsas do real, ou mesmo cópia da cópia imperfeita do mundo sensível, feita de imagens e pseudo-conceitos, seja lá o que for, o cinema não é a arte mais apreciada pelos filósofos, que comumente preferem a linearidade e a facilidade para a dedução do texto escrito ou as artes feitas diretamente pela mão do homem. Não podemos deixar de notar que a proximidade entre o cinema e o mito (ou alegoria) fundador da filosofia faz pensar que à filosofia, em sua busca pelo conceito, cabe o papel de desmistificar as imagens impuras do cinema. Ou então, que ao cinema cabe a função meramente apaziguadora e, portanto, secundária, de aliviar a mente após o sério e pesado exercício intelectual – assim era que Wittgenstein se dizia fã dos filmes de Carmem Miranda ou de westerns.

Contemporâneo do nascimento da sétima arte, Bergson é o inventor de uma ideia que Gilles Deleuze tornará bastante famosa: a imagem-movimento, apresentada em seu livro Matéria e Memória, de 1896.

Mas é só no quarto capítulo de A Evolução Criadora, de 1907, que a ligação com o cinema aparece. O capítulo se chama “O mecanismo cinematográfico do pensamento e a ilusão mecanicista”, e nele Bergson afirma categoricamente: “o mecanismo de nosso conhecimento vulgar é cinematográfico”. Em outras palavras, o pensamento se move cinematograficamente, imagem em movimento em ação. A maneira como nosso aparato cognitivo reproduz o devir, a flexibilidade e a variedade da vida, é a mesma maneira como o cinematógrafo reproduz o movimento a partir de fotografias estáticas – criando a ilusão do movimento pela sucessão muito rápida das fotografias individuais. Nosso aparelho cognitivo, incapaz de registrar os detalhes e particularidades inumeráveis do devir, compõe artificialmente uma imagem geral em movimento, abstraída de várias outras imagens de estados particulares. Nossa percepção, nossa inteligência e nossa linguagem, assim, dão-nos ilusões, imitações imperfeitas e infiéis do devir:

“Em vez de nos prender ao devir interior das coisas, colocamo-nos fora delas para recompor o seu devir artificialmente. Temos visões quase instantâneas da realidade que passa e, como elas são características dessa realidade, basta-nos alinhá-las ao longo de um devir abstrato, uniforme, invisível, situado no fundo do aparelho do conhecimento, para imitar o que há de característico nesse mesmo devir. Percepção, intelecção, linguagem em geral procedem assim. Quer se trate de pensar o devir ou de exprimi-lo, ou até de o perceber, o que fazemos é apenas acionar uma espécie de cinematógrafo interior.” (p. 333).

Para Bergson, pensar cinematograficamente não é bom. Na verdade, a nossa única maneira de pensar capta mal o movimento do devir. Justamente por proceder cinematograficamente, troca o movimento real por um falso movimento, uma ilusão de movimento. Temos de aceitar essa nossa imperfeição: nosso pensamento cinematográfico falsifica o real.

O juízo negativo sobre o cinema é repisado até por alguns de seus entusiastas. Levando o cinema a sério, Walter Benjamin o compreendia no contexto da perda da aura das obras de arte. “Aura” é uma noção benjaminiana para designar o conjunto de características que fazem de uma obra de arte o que ela é: o fato de ter sido feita por um artista, em dado momento histórico e social definido, dá a uma obra de arte sua originalidade, sua unicidade e sua historicidade. Uma cópia, por isso, não tem o mesmo valor. Já o cinema é produzido industrialmente, e não por um único artista. A estética cinematográfica dependeria completamente de suas condições industriais de produção e reprodução: obras de arte (re)produzidas tecnicamente por máquinas, como quaisquer outras mercadorias, fotografias e filmes não têm a aura de uma pintura, uma escultura ou mesmo uma apresentação teatral. Por serem objetos de consumo de massa, reprodutíveis ad infinitum, perderiam o caráter de fenômeno histórico único e original das obras de arte tradicionais. Assim é que o cinema, ainda mais que a fotografia, traduziria perfeitamente a desmistificação e a reificação da realidade social moderna, jogando nas telas as imagens vivas de um mundo em que tudo é comercializável, substituível e superficial. É nessa chave que devemos entender o elogio benjaminiano a Chaplin: denunciador da alienação da classe trabalhadora, Chaplin mostraria como ninguém o lado negativo do nosso mundo, o mesmo mundo em que nasce o cinema. Uma marca negativa de nascença da qual a correta utilização política o livraria, assim como só uma revolução poderia transformar o mundo para melhor.

Benjamin, escrevendo na década de 1930, preocupava-se com a ascensão do nazi-fascismo na Europa e com a utilização do cinema como instrumento de propaganda política. Apesar de crítico, Benjamin não evita o juízo sobre o papel secundário do cinema relativamente à política – o cinema seria um meio, certamente privilegiado, de produção e transmissão de ideologia política, mas ainda assim um meio. Sua principal tese quanto à natureza estética do cinema é a da tactilidade da imagem. Em outras palavras, a imagem cinematográfica é táctil, isto é, toca a percepção humana de uma maneira como nenhuma outra arte o faz. Pela combinação de imagem e movimento, a construção cinematográfica do espaço-tempo provoca um choque perceptivo no observador, a tal ponto que o distrai completamente, absorvendo-o. A ilusão de realidade assim atingida é incomparável. Outra aura parece surgir, uma nova fascinação nasce da exposição aliada à reprodução em massa. Por isso mesmo o cinema presta-se tão bem a usos políticos.

A conclusão de Benjamin é direta: se o fascismo utiliza o cinema para estetizar a política e, com isso, produzir alienação em massa, por que é que o comunismo não faz o mesmo? Ora, Benjamin não desaprova a utilização instrumental do cinema, mas apenas a finalidade ideológica com a qual ele é utilizado. Em lugar de usar filmes para espetacularizar desfiles militares, ele defende a politização da estética. Ao contrário do fascismo, o comunismo deveria se aproveitar da peculiar estética cinematográfica para conscientizar, e não alienar as massas. Nada do que vemos na tela é real; podemos mudar ou não o real, conforme a ficção projetada nos persuadir a uma ou outra forma de conduta e pensamento.

Levou algum tempo para os filósofos abandonarem essa maneira de ver o cinema. Edgar Morin, por exemplo, chegou mesmo a trabalhar em cinema e ajudou a definir um gênero próprio de documentário, o cinéma-vérité, cujo marco inicial é considerado ser Crônica de um Verão, de 1961, co-realizado por Morin em parceria com Jean Rouch. Podemos citar mesmo Guy Debord, ou então Terrence Malick, que também lecionou filosofia no Massachusetts Institute of Technology. O orientador de Malick foi Stanley Cavell. Ele [Cavel] e Gilles Deleuze, na França, podem ser considerados pioneiros filósofos a desenvolverem uma substancial reflexão filosófica própria e específica sobre o cinema, sem inferiorizá-lo frente a formas mais tradicionais de arte e pensamento. Tanto um como outro se perguntam: o que é feito do pensamento no cinema? Qual a especificidade do pensamento cinematográfico? E, com essas perguntas, apresentam uma tese muito forte: cinema é pensamento, cinema é linguagem, sem nada dever a nenhum real exterior ou quaisquer outras formas de pensamento e linguagem.

Não vou, aqui, desenvolver uma reflexão sobre as ideias de Cavell e Deleuze sobre o cinema, inclusive porque me falta competência para tal. Quero, antes, apresentar mui resumidamente as ideias de Jean Epstein (1897-1953) e André Bazin (1918-1958). E isso pela simples razão de mostrar que pensadores do cinema também filosofam e com muita propriedade. Afinal, filosofar não é uma atividade peculiar a um profissional chamado filósofo (e, segundo o meu juízo, a profissionalização da filosofia levou a uma sua decadência atroz).

Para Jean Epstein, a máquina cinematográfica tem uma inteligência própria, ela é um verdadeiro “filósofo-robô cinematográfico”: “O cinematógrafo é um desses robôs intelectuais, ainda parciais, que, com a ajuda de dois sentidos foto e eletro-mecânicos e de uma memória registradora fotoquímica, elabora representações, quer dizer, um pensamento, no qual reconhecemos os quadros primordiais da razão” (p. 48). Diferentemente de Walter Benjamin, que entendia a câmera como mero aparelho técnico capaz de aumentar a percepção humana, de ver o que o olho humano naturalmente não vê, Epstein chama atenção a que o cinema coloca em questão o próprio conhecimento. Não se trata apenas de servir de auxílio aos sentidos humanos; o cinema constrói percepções inéditas, novas representações, faz-nos ver o invisível, dá-nos a conhecer o que de outra maneira seria incognoscível. Mais: unindo o olho inconsciente e automaticamente passivo da câmera ao olho consciente e subjetivamente ativo do cineasta, o cinema dá corpo vivo à contradição.

Para Epstein, o cinema cria um mundo em que os tradicionais dualismos filosóficos tornam-se obsoletos (sensível/inteligível, pensamento/coisas, real/irreal, sonho/vigília etc.) e, assim, vai além da filosofia (“Le cinéma et les au-delà de Descartes” é título de um de seus artigos). Ligando espaços e tempos de maneira nova e como só ele pode fazer, o cinema desbanca uma concepção linear da história e, assim, faz nascer um novo pensamento visual, capaz de traduzir de maneira inédita a complexidade do mundo. Não à toa Deleuze dirá que Epstein, ao fazer a defesa do caráter diabólico do cinema (Le cinéma du diable, outro de seus escritos), consegue ver continuidade e mistura onde antes a filosofia só via dualismo e separação.

A filosofia do cinema dá um salto qualitativo com Jean Epstein. Com André Bazin, ela afirma definitivamente sua autonomia. E, se com Epstein temos que o cinema cria uma realidade própria, por outros meios incognoscível, com Bazin voltamos ao questionamento das relações entre o cinema e nossa realidade por meio do questionamento da realidade do cinema. Ao tentar responder sem rodeios o que é o cinema, Bazin inicia a mais filosófica das investigações cinematográficas: a ontologia do cinema.

O ponto de partida de Bazin é a fotografia. Em “Ontologia da imagem fotográfica”, de 1945, ele escreve:

“A originalidade da fotografia em relação à pintura reside, pois, na sua objetividade essencial. Tanto é que o conjunto de lentes que constitui o olho fotográfico em substituição ao olho humano denomina-se precisamente ‘objetiva’. Pela primeira vez, entre o objeto inicial e a sua representação nada se interpõe, a não ser um outro objeto. Pela primeira vez, uma imagem do mundo exterior se forma, automaticamente, sem a intervenção criadora do homem, segundo um rigoroso determinismo. A personalidade do fotógrafo entra em jogo somente pela escolha, pela orientação, pela pedagogia do fenômeno; por mais visível que seja na obra acabada, já não figura nela como a do pintor. Todas as artes se fundam sobre a presença do homem; unicamente na fotografia é que fruímos da sua ausência. (...). Nesta perspectiva, o cinema vem a ser a consecução no tempo da objetividade fotográfica. O filme não se contenta mais em conservar para nós o objeto lacrado no instante (...). Pela primeira vez, a imagem das coisas é também a imagem da duração delas, como que uma múmia da mutação” (pp. 13-14).

Parafraseando a tese de Bergson, Bazin confere a ela valor positivo. Para Bazin, o cinema revela o real e esse real revelado não é isento de mística, não é absolutamente objetivo. O cinema não faz somente cópia do real. O cinema não se deixa reduzir a registro documental do real, ainda que seja útil a arquivos históricos. O cinema revela o real ao participar de seu ser, de seu devir, repercutindo nele, ricocheteando nele de certa maneira, tocando “a carne e o sangue da realidade”, de maneira a nos impor uma tomada de consciência.

O modelo e o exemplo de Bazin é o cinema italiano do pós-guerra, especificamente o neo-realismo, ou, como ele prefere, alguns filmes dos diretores neo-realistas, por ele analisados magistralmente em “O realismo cinematográfico e a escola italiana da Liberação”. Em 1959, em entrevista para a revista Cahiers du Cinéma, Roberto Rossellini fez uma declaração que ficou famosa: “As coisas estão aí, por que manipulá-las?” É justamente esse ponto que interessa a Bazin. O cinema de Rossellini, De Santis, Visconti e De Sica implica uma tomada de consciência do real que produz a “imagem-fato”. Numa carta ao editor da revista Cinema Nuovo, publicada com o título “Defesa de Rossellini”, Bazin afirma que a diferença entre o artista realista tradicional (Émile Zola, por exemplo) e o neo-realista (Rossellini, especificamente) está em que o primeiro analisa a realidade e, de acordo com sua moral, reconstrói essa realidade por meio de uma síntese expressa em suas obras; o segundo, diferentemente, filtra a realidade por meio de sua consciência. O que o diretor neo-realista exprime em seus filmes, assim, é um recorte de real escolhido conscientemente. Mas essa escolha não é moral, ou estética, é ontológica, “no sentido de que a imagem da realidade que nos é restituída permanece global, da mesma maneira, se quiserem uma metáfora, que uma fotografia em preto-e-branco não é a imagem da realidade decomposta e recomposta ‘sem a cor’, mas uma verdadeira marca do real” (p. 352). Ora, o que Bazin afinal afirma é que a imagem do cinema neo-realista é um signo do real, do tipo que foca nossa atenção fatos particulares e, com isso, metonimicamente significa o real (um signo indicial, se usarmos a terminologia de Peirce).

Eis o ponto: é justamente essa visada específica, que recorta dos fatos o que interessa ao olhar do diretor, mas sem deformá-los, que acarreta uma tomada de consciência. Chegamos a construir o sentido ao vermos passar na tela um fragmento de real após o outro, junto com outros – eis porque Bazin prefere o plano-sequência à montagem, a concatenação das imagens-fatos ao corte que produz o conflito. Há, na tela, um ganho, um a-mais de realidade. O filme ganha sentido justamente porque não pretende dar sentido ao que já se basta a si mesmo. E em cada caso, esse ganho é algo diferente: “a beleza plástica das imagens, o sentimento social, a poesia, o cômico etc.” (p. 354).

Bazin desculpa-se por falar em metáforas, “não sou filósofo”, diz ele. A importância filosófica de suas reflexões não pode, porém, ser posta em dúvida. O cinema é ser em ato, sua realidade se faz durante e a cada seu aparecimento – nenhuma aparência é desqualificada em nome de uma essência superior e oculta. Mais uma vez, caem por terra os dualismos tradicionais, borram-se as distinções entre obra e modelo e mostram-se porosas e pouco resistentes as fronteiras entre real e irreal. Eis uma costura Epstein-Bazin: “O cinema é a realidade 24 quadros por segundo”, dirá Godard.

Que diriam Epstein e Bazin das telas de LCD, dos pixels, das imagens eletrônicas? Sua capacidade de auto-organização, que emula a de organismos biológicos vivos a partir de matrizes matemáticas, parece confirmar o que os dois autores diziam sobre a realidade cinematográfica. Parece que o cinema consegue mostrar algo que a filosofia muito tentou e pouco conseguiu demonstrar, ao menos desde que a filosofia é filosofia.


Referências

As duas obras de Bergson citadas podem ser baixadas, em francês, do sítio virtual http://classiques.uqac.ca/classiques/bergson_henri/bergson_henri.html, da Universidade do Québec em Chicoutimi.

Do mesmo sítio virtual, é possível baixar Le Cinéma du Diable, “Le monde fluide de l’écran” e L’intelligence d’une machine, de Jean Epstein: http://classiques.uqac.ca/classiques/epstein_jean/epstein_jean.html

André Bazin, em português, pode ser lido aqui: http://pt.scribd.com/doc/7095758/Bazin-Andre-O-Cinema-Ensaios


* Cassiano Terra Rodrigues é professor de filosofia da PUC-SP.
Contato: cassianoterra@uol.com.br


O que torna a distribuição digital tão cara


Roubalheira? O que torna a distribuição digital tão cara

Por Wikerson Landim / Quarta-Feira 29 de Agosto de 2012

Entenda quais são os custos envolvidos na produção de uma obra digital e entenda por que nem sempre elas podem ser mais baratas do que a versão física.

É possível que um livro digital custe mais caro do que um livro impresso? Sim, é possível e, se você já deu uma olhada nos preços desse tipo de produto nas lojas, certamente já percebeu que essa situação é mais comum do que você imaginava. Mas qual é o mistério por trás dos altos preços do formato digital?

O processo de criação

Para entender um pouco mais sobre esse processo, vamos levar em consideração a criação de um livro. Nessa primeira parte, ainda não há muita diferença entre um produto digital e uma obra física. O autor da obra escreve o seu texto e, caso tenha como objetivo a venda do livro, sua obra pode ir parar nas mãos de uma editora.

A editora pode remunerar o autor por um valor fixo pela obra, no caso dos livros feitos sob encomenda, ou fazer um acordo com o dono do texto no que diz respeito ao percentual do lucro que será repassado para ele pelo trabalho. Ele pode receber, por exemplo, 30% do valor de cada obra vendida, ficando o restante para a editora.


A editoração

Transformar o texto do autor em um livro de verdade requer ainda outros dois processos fundamentais que geralmente ficam sob a responsabilidade da editora. O primeiro deles é a revisão do conteúdo, que fica a cargo de um profissional específico para isso. Já a outra peça fundamental do processo é o designer gráfico, que ficará responsável pela criação da capa e pela diagramação do material.

Caso estejamos falamos de um livro digital com elementos interativos, pode haver ainda custos com relação à programação de alguns itens. Diferente do que acontece nas obras de produção independente, em que o autor se encarrega de todo esse processo ou, ainda, remunera do próprio bolso os profissionais envolvidos, na editora há também os custos trabalhistas do funcionário em questão, o que encarece o processo.

A disponibilização do produto

Se até aqui as diferenças são pequenas entre as obras físicas e digitais, é nesse ponto que começam as grandes mudanças. A obra física vai para a gráfica e, nesse caso, há todo o custo com a impressão do material e, posteriormente, com a distribuição do produto. Afinal, enviar livros via transportadora para diversos pontos do país não é algo barato.

Contudo, se você imagina que nesse ponto a distribuição digital não tem custo algum, é justamente aí que você se engana. Um dos custos, por exemplo, diz respeito aos softwares de DRM, responsáveis pela proteção dos direitos autorais do autor e que impedem, por exemplo, que um livro seja copiado aleatoriamente por qualquer pessoa.

O investimento em um software do gênero criado pela Adobe, por exemplo, pode chegar a R$ 80 mil, valor que obviamente entra nos custos de investimento de uma editora. Outro aspecto fundamental diz respeito à contratação de servidores e disponibilização de banda para tráfego de dados.

A palavra do consumidor: a demanda

Segundo as editoras, esse ainda é um dos maiores problemas que fazem com que a distribuição digital seja tão cara quando a venda do livro impresso. A biografia de Steve Jobs é hoje um dos livros digitais mais vendidos no país. Apesar disso, a obra vendeu pouco mais de 5 mil unidades, ou seja, um número pouco significativo.

Se você levar em consideração o valor hipotético de R$ 100 mil de investimento para o lançamento de um livro impresso ou digital e dividir esse valor pelo número de cópias vendidas, por exemplo, perceberá o quanto uma obra digital pode ser mais cara.

Com R$ 100 mil de investimento, o custo unitário ao final do processo de um livro que venda mil unidades seria de R$ 10. O mesmo livro em versão impressa, caso venda 100 mil unidades, teria um custo final de R$ 1 por livro. Os valores, é claro, são hipotéticos e as editoras trabalham com uma previsão de vendas antes do lançamento para estipular um valor final.

No caso dos livros digitais, a maioria deles não chega a vender nem 100 unidades no Brasil, o que aumenta o risco do investimento e, visando minimizar possíveis prejuízos, os preços acabam indo lá pra cima.

E no caso dos jogos?

No caso de um jogo, os processos de criação e editoração não sofrem alteração alguma de acordo com o tipo de distribuição. Entretanto, o tipo de distribuição impacta diretamente no custo final. É mais barato, por exemplo, enviar jogos em mídia física para as lojas, incluindo-se aí os custos de autoração de DVDs e Blu-rays, do que manter servidores de grande capacidade e que suportem altas taxas de tráfego.

Pense no seguinte comparativo: em uma caixa cabem 20 DVDs, que são enviados de uma só vez para um determinado ponto do país. Para mandar os mesmos 20 jogos via distribuição digital, para a mesma cidade, é necessário disponibilizar tráfego de banda suficiente para esses 20 downloads, muitas vezes de forma simultânea. É o investimento nessa estrutura que acaba encarecendo o preço do conteúdo digital.

Então é só esse o problema? Há solução para baixar os custos?

O que apresentamos acima são apenas características do mercado e isso não representa, necessariamente, que esse seja o modelo mais adequado ou mais inteligente de comercializar produtos do gênero. Entretanto, no que diz respeito à demanda dos produtos, a chave das mudanças está nas mãos dos consumidores.

Quanto maior for a procura por um produto (e por procura leia-se expectativa real de venda, excluindo-se as versões pirata), maiores são as chances de, em longo prazo, o custo unitário de cada obra diminuir. Não podemos nos esquecer também dos impostos, que sempre acabam encarecendo qualquer produto em pelo menos 15% ao longo do caminho.

As editoras e distribuidoras, sempre que possível, deveriam ainda fazer a sua parte, mantendo margens de lucro realistas sobre os seus produtos, o que é justo. Entretanto, sabemos que em muitos casos há abuso e compensação, fazendo com que em alguns produtos os custos aumentem de forma considerável sem necessidade alguma.

Por fim, embora não possa ser apontada como o fator determinante para os preços mais altos, ainda há a questão da pirataria, que contribui para que as editoras se sintam intimidadas e prevejam um risco maior na hora de investir na disseminação das plataformas digitais. É possível mudar o cenário? Certamente que sim. Isso vai acontecer tão cedo? Infelizmente, não.

Fonte: TecMundo

quinta-feira, 29 de março de 2012

Dois gênios da filosofia política


Dois gênios da filosofia política

JB - por  Mauro Santayana - 29/03/2012

A morte de Millôr Fernandes e de Chico Anysio é mais do que a perda de dois grandes humoristas. Chico e Millôr, cada um em seu espaço, foram importantes filósofos políticos, distanciados dos grilhões acadêmicos, e argutos observadores da realidade brasileira.
 
Millôr não dispunha dos atributos do ator de Maranguape, capaz de usar duzentas máscaras diferentes, para expor os sentimentos e o ridículo da condição humana. Nele havia a profundidade de reflexão, ancorada em uma erudição tanto mais ampla quanto menos pomposa. Ambos fustigaram a mediocridade e fizeram o povo pensar.

E me permitam defender uma categoria de pessoas a que também pertenço: aquelas que encontraram o seu caminho fora das escolas formais. Millôr e Chico foram dispensados da moldagem do ensino tradicional, mas compensaram essa aparente dificuldade na formação dialética — e ética — do trabalho. Millôr um pouco antes, no início da adolescência, ao entrar para a equipe de O Cruzeiro, e Chico, poucos anos depois, ao se tornar locutor de uma emissora de rádio. 
 
Sendo um homem do espetáculo, e vivendo tantos e tão diferentes personagens, Chico Anysio teve a vida exposta, como um eterno caçador de experiências amorosas e pai incansável. Uma psicanálise de botequim poderia explicar a sua afetuosidade insaciável, que o fez marido de tantas e tão belas mulheres, como resultado do mundo de ficção em que vivia. Os atores sempre adicionam à alma, ainda que não desejem, parcelas de seus personagens, como transplantes da emoção dos autores. Millôr não era ator, mas, sim, um excepcional pensador. Essa foi a essencial diferença entre os dois.

Foram ácidos críticos da sociedade e aplicados defensores da verdadeira razão política.

Ambos foram ácidos críticos da sociedade e aplicados defensores da verdadeira razão política. Chico exercia a sua cáustica vigilância no aparente desprezo pelas personalidades públicas. Ninguém soube caricaturar com tanta acuidade o parlamentar corrupto, do que ele, ao encarnar o deputado Justo Veríssimo. Já na fase final do regime militar, os telefonemas de Salomé, de Passo Fundo, ao presidente João Batista Figueiredo, serviram, ao mesmo tempo, de crítica ao governo e de estímulo ao movimento de redemocratização em marcha.

Millôr ia muito mais fundo. Sua crítica não se limitava à política em senso estrito, aos governos e às instituições do Estado, mas atingia, em seu âmago, a sociedade contemporânea, com seus desavisos e submissão ao efêmero. Para isso, ele sempre se abasteceu dos clássicos gregos aos autores contemporâneos, passando, naturalmente, por Shakespeare, Goethe, Schiller, Molière, Racine e tantos outros. Ele era capaz de ir adiante das reflexões desses grandes autores, ao trabalhá-las em sua fulgurante inteligência. Ele usava a erudição para resumir a sua visão do mundo em frases curtas, certeiras, surpreendentes, definitivas. 
 
Não conheci pessoalmente Chico Anysio. Meu universo era outro. Não morando no Rio, fui privado de convívio maior com Millôr. Fazíamos parte, como tantos outros de nossos contemporâneos, do Círculo de Conceição de Mato Dentro que se reunia eventualmente no apartamento de José Aparecido, em Copacabana. Ambos fomos agraciados com o título de cidadãos de Conceição o que, para os que não conheceram Aparecido, nem a cidade na Serra do Espinhaço, pode não ter qualquer importância. A cidade de Aparecido, tão forte na história e no caráter de Minas, hoje, mais do que a Itabira de Drummond, não passa de uma foto esmaecida: mineradores estrangeiros a conspurcaram, ao dilacerar as serras que a cercam e esvaziar a cidade de sua identidade e de seu caráter ancestral.

Chico e Millôr, gênios vindos do povo, foram figuras emblemáticas dessa geração singular na história do país

Entre as minhas memórias de Millôr, há a de um encontro na terra de Aparecido, em que ele, Gerardo de Mello Mourão, Newton Rodrigues e eu mesmo — não me lembro se houve outros colaboradores — redigimos longo poema sobre o aniversário de José, naquele mesmo dia, e que se iniciava com a evocação da morte de Giordano Bruno na fogueira, em 17 de fevereiro de 1600. Os versos de Millôr foram os mais fortes, mais limpos e mais significativos, naquele “abc” em louvor do aniversariante.

As sucessivas gerações de homens brilhantes, que atravessaram o século 19 e fizeram a primeira metade do século 20, de Machado e Bilac, de Lima Barreto, de Belmonte e de J. Carlos; de Graciliano, José Lins, de Getúlio Vargas e de tantos homens de gênio foi sucedida por personalidades fortes da segunda metade do século passado, algumas das quais cruzaram o milênio. Chico e Millôr, gênios vindos do povo, em sua forma de ver o mundo e nele se integrar, foram figuras emblemáticas dessa geração singular na história do país.

Uma frase de Millôr, inscrita na escultura que adorna a porta do apartamento de José Aparecido no Rio, pode resumir a sua atitude diante da vida: “Se alguém achar o vento a favor contrário, entra com o que tem”.



segunda-feira, 19 de março de 2012

Os robôs vão substituir os jornalistas?


Os robôs vão substituir os jornalistas?

19/03/2012 - 07h00
por Evgeny Morozov*

Será que a tecnologia pode ser autônoma? Será que pode ter vida própria e operar independentemente da orientação humana? Do teólogo francês Jacques Ellul ao Unabomber, essa era uma visão amplamente aceita. Mas hoje a maioria dos historiadores e sociólogos da tecnologia descarta a ideia, classificando-a como ingênua e imprecisa.

Mas considere por um momento o mundo das finanças modernas, cada vez mais dependente de operações automatizadas, com sofisticados algoritmos que encontram e exploram irregularidades nos preços invisíveis para os operadores comuns.

A revista "Forbes", uma das mais veneráveis instituições do jornalismo financeiro, agora utiliza os serviços de uma companhia chamada Narrative Science para gerar artigos on-line automaticamente sobre o que esperar dos anúncios trimestrais de resultados de empresas. Basta inserir algumas estatísticas, e o software inteligente produz artigos altamente legíveis em questão de segundos. Ou, como define a "Forbes", "a Narrative Science, por meio de sua plataforma exclusiva de inteligência artificial, transforma dados em histórias e percepções".

Fonte da imagem: link na foto
Não deixe a ironia passar despercebida: plataformas automatizadas agora "escrevem" reportagens sobre empresas que ganham dinheiro com transações automatizadas. Essas reportagens terminam influenciando o sistema financeiro e ajudam os algoritmos a identificar transações ainda mais lucrativas. Em termos práticos, o que temos é jornalismo produzido por robôs e para robôs. O único lado positivo da história é que o dinheiro todo fica para os seres humanos.

A Narrative Science é uma das diversas companhias que estão desenvolvendo software automatizado para jornalismo. Essas empresas iniciantes trabalham primordialmente em nichos de mercado --esportes, finanças, imóveis-- nos quais as reportagens tendem a seguir padrões parecidos e giram em torno de estatísticas. Agora, começam a operar também no segmento de jornalismo político. A Narrative Service passou a oferecer artigos sobre como a campanha eleitoral norte-americana aparece nas mídias sociais e que questões e candidatos são mais e menos discutidos em um determinado Estado ou região. O sistema pode até incorporar ao artigo final citações dos tuítes mais populares e mais interessantes. Nada melhor que robôs para cobrir o Twitter.

É fácil perceber por que os clientes da Narrative Science --a companhia diz contar com 30 deles-- consideram seus serviços úteis. Primeiro, ela é muito mais barata do que pagar jornalistas humanos, que de vez em quando adoecem e sempre exigem respeito. Como o "New York Times" reportou em setembro passado, um dos parceiros da Narrative Science no setor de construção paga menos de US$ 10 por um artigo de 500 palavras, e não há funcionários para reclamar de péssimas condições de trabalho. Além disso, o artigo é "redigido" em apenas um segundo. Nem mesmo ChristoperHitchens conseguiria fechar nesse prazo.

Segundo, a Narrative Science promete ser mais abrangente --e objetiva-- que qualquer repórter humano. Poucos jornalistas têm tempo para encontrar, processar e analisar milhões de tuítes, mas a Narrative Science é capaz de fazê-lo com facilidade e, o mais importante, de forma instantânea. O objetivo não é apenas reportar estatísticas sofisticadas mas também compreender o que esses números significam e informar sua importância ao leitor. A Narrative Science teria sido capaz de desvendar o caso Watergate? Provavelmente não. Mas a maioria das reportagens tem tramas bem menos complexas a desenvolver.

Os fundadores da Narrative Science afirmam que desejam simplesmente ajudar --e não exterminar-- o jornalismo. Pode bem ser que sejam sinceros. Os repórteres provavelmente odiarão a companhia, mas algumas editoras sempre preocupadas com custos certamente aceitarão sua colaboração de braços abertos. Em longo prazo, porém, o impacto cívico dessas tecnologias --que estão apenas em sua infância-- pode se provar mais problemático.

Acima de tudo, existe uma tendência clara na forma de desenvolvimento que a internet vem seguindo hoje --o esforço por personalizar as experiências on-line dos usuários. Tudo que clicamos, lemos, buscamos e assistimos on-line resulta, cada vez mais, de um esforço delicado de otimização, pelo qual nossos cliques, buscas, indicações, compras e interações anteriores determinam aquilo que surge nas telas de nossos navegadores e apps.

Até recentemente, muitos críticos da internet temiam que essa personalização da rede gerasse um mundo no qual leríamos apenas artigos que refletem nosso interesses existentes, sem que jamais tivéssemos de abandonar aquilo com que nos sentimos confortáveis. A mídia social, com sua sequência ininterrupta de links e minidebates, tornou obsoletas algumas dessaspreocupações. Mas a ascensão do "jornalismo automatizado" pode um dia apresentar um desafio novo e diferente, que os excelentes mecanismos de descoberta da mídia social ainda não são capazes de resolver: e se clicarmos no mesmo link, que em teoria conduz ao mesmo artigo, mas terminarmos lendo textos muito diferentes?

Como isso funcionaria? Imagine que meu histórico on-line sugira que eu tenho um diploma avançado e que passo muito tempo nos sites da "Economist" ou da "New York Review of Books"; como resultado, verei uma versão mais sofisticada, desafiadora e informativa da história, enquanto meu vizinho, leitor do "USA Today", recebe uma versão simplificada. Se for possível inferir que também estou interessado em notícias internacionais e em Justiça mundial, um artigo computadorizado sobre Angelina Jolie pode terminar mencionando seu novo filme sobre a guerra na Bósnia. Já o meu vizinho, obcecado por celebridades, poderia ler a mesma reportagem, mas acrescida de uma fofoca suculenta sobre Brad Pitt.

Produzir e alterar histórias instantaneamente, personalizadas de maneira a se enquadrar aos interesses e hábitos intelectuais de um dado leitor, é exatamente o que o jornalismo automatizado permite. E esse é o motivo para que nos preocupemos com a questão. Os anunciantes e as editoras adoram essa personalização, que pode convencer os usuários a passar mais tempo em seus sites. Mas as implicações sociais são bastante dúbias. No mínimo, existe o perigo de que algumas pessoas fiquem aprisionadas em um círculo vicioso de notícias, consumindo apenas junk food informativa e tendo pouca indicação de que existe um mundo diferente, e mais inteligente, ao seu alcance. E a natureza comunal da mídia social confirmaria a essas pessoas que na verdade não estão perdendo coisa alguma de importante. Naturalmente, isso também poderia ser o próximo passo na evolução das muito odiadas "fazendas deconteúdo", exemplificadas pela Demand Media.

Considerem o que pode acontecer se, como parece provável, grandes empresas de tecnologia ingressarem nesse segmento e começarem a ocupar o espaço aberto por pequenas empresas como a Narrative Science. A Amazon serve de exemplo. Seu leitor eletrônico Kindle permite que usuários procurem palavras desconhecidas em um dicionário eletrônico e que marquem suas frases favoritas em um texto. Isso poderia ser útil quando a Amazon decidir criar um serviço de notícias personalizadas completamente automático. Afinal, a Amazon já sabe que jornais leio, de que tipo de frase gosto, que palavras eu considero difíceis. E eu já tenho o aparelho deles, no qual poderia ler essas notícias --de graça!

Ou pense no Google. Não só a companhia conhece meus hábitos de consumo de informação melhor que ninguém --ainda mais depois da unificação de suas normas de privacidade--, como opera o Google News, um serviço sofisticado para agregar notícias, o que permite que a empresa acumule um conhecimento amplo sobre os assuntos correntes. E graças ao altamente popular serviço Google Translate, ela também sabe como montar sentenças legíveis.

Considerando tudo isso, a ideia de que uma maior automação poderia salvar o jornalismo parece míope. No entanto, inovadores como a Narrative Science não são culpados; se usadas de maneira estreita, suas tecnologias podem economizar custos e talvez permitir que alguns jornalistas --desde que mantenham seus empregos!-- desenvolvam projetos analíticos mais interessantes, em lugar de reescreverem a mesma matéria a cada semana.

A verdadeira ameaça vem de nossa recusa em investigar as consequências sociais e políticas de viver em um mundo no qual ler anonimamente se torna quase impossível. É um mundo que os anunciantes --e empresas como Google, Amazon e Facebook-- mal podem esperar que surja, mas também um mundo no qual o pensamento crítico, erudito e heterodoxo pode se tornar mais difícil de promover e preservar.


* Evgeny Morozov é pesquisador-visitante da Universidade Stanford e analista da New America Foundation. É autor de "The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom" (a ilusão da rede: o lado sombrio da liberdade na internet). Tem artigos publicados em jornais e revistas como "The New York Times", "The Wall Street Journal", " Financial Times" e "The Economist". Lançará em 2012 o livro "Silicon Democracy" (a democracia do silício). Escreve [na FSP] às segundas-feiras, a cada quatro semanas.

Tradução de Paulo Migliacci

Extraído de FSP

Miguel de Cervantes: filosofia política, legado e atualidade


Dom Quixote, por Pablo Picasso

O novo Estado moderno substituiu o livro do profeta pelo livro da constituição
A filosofia política de Cervantes


Por Nivaldo Cordeiro
4/10/2010

Qual a grande mensagem política do romance Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes? Em primeiro lugar, sua constatação que o homem vulgar estava se apossando do poder de Estado. Isso fica explícito no desejo realizado de Sancho Pança de assumir o governo de uma ínsula (esta palavra é uma referência ao primeiro Estado nacional moderno, a Sicília de Frederico II) e também no fato de o duque rebaixar-se a fazer troça do próprio poder, nivelando-se a Sancho Pança.

Essa visão de Miguel de Cervantes é o fundamento do clássico livro de Ortega y Gasset, A REBELIÃO DAS MASSAS, obra primorosa que deu as necessárias respostas aos acontecimentos do século XX. Ortega nada criou, apenas adaptou as observações cervantinas aos acontecimentos de seu tempo. A rebelião das massas é a outra face da moeda do desaparecimento das elites, que sempre foram as condutoras dos destinos políticos. A democracia moderna é a manifestação histórica acabada desse fenômeno político.

Em segundo lugar, Cervantes apontou o mouro como o inimigo da civilização européia. Aqui está também outro caráter visionário do romancista espanhol. Quando ele se refere ao mouro refere-se ao islã em geral. O mouro é o inimigo espiritual da civilização e o que há de mais mourisco no Estado moderno é que ele imita o modo de ser islâmico, elevando o Estado a uma condição divina. A Europa, ao abandonar o cristianismo, na verdade mourificou o Estado, transferindo para a lei positiva a autoridade da lei divina, o que não havia antes na civilização cristã. O Ocidente inovou por acrescentar a esse modo islâmico de cultivar o poder a função legislativa fundada na razão. O Islã ficou estagnado no século VII porque o legislador foi o próprio profeta, enquanto o Estado nacional moderno colocou na razão a fonte da lei, agora atualizada diariamente.

O direito natural moderno, em tudo oposto ao direito natural clássico, humanizou o poder legislativo no pior sentido da expressão. Nesse passo consiste o pacto faustico da modernidade: a elevação do homem a um condição divina. O jusnaturalismo moderno teria que desaguar necessariamente no positivismo jurídico mais cru, perdendo-se completamente o nexo entre a fonte transcendente da lei e a legislação positiva. O novo Estado moderno deificou-se e substituiu o livro do profeta pelo livro da constituição. Nem na antiguidade se permitiu tamanha blasfêmia. Os romanos, por exemplo, sabiam que os augúrios eram algo separado das decisões de Estado.

O famoso discurso de Dom Quixote pela liberdade, ao sair dos domínios do duque, equivale à fuga de Moisés para Canaã. Não é apenas a liberdade diante da ordem maligna, é a própria fuga do jugo do Faraó, em busca de uma pátria sem Estado, fora dos domínios do reino desse mundo. Cervantes anteviu o que estava por vir ao publicar seus livros. A deificação do Estado levaria mesmo à destruição da liberdade, marcha na qual o Ocidente tem empreendido desde os tempos da renascença.

A combinação da deificação da lei positiva fundada na razão com a emergência do homem-massa ao poder, a chegada dos piores ao poder, leva a periódicos delírios fausticos ditatoriais e a guerras de extermínio impiedosas. Homens moralmente inferiores tomando decisões insensatas, capazes de serem postas em prática pelos recursos permitidos pelas técnicas modernas. A motivação é que os homens modernos estão firmemente convencidos de que a humanidade é passível de aperfeiçoamento pela lei estatal, ignorando a antropologia cristã. Daí as usinas de fabricação de leis que se tornaram os legislativos modernos. Legislar é aperfeiçoar o homem, coisa que o cristianismo, desde o início, tomou como coisa blasfema e perigosa.

Uma terceira contribuição de Miguel de Cervantes foi demonstrar que essa tentativa de perfectibilismo e de deificação do Estado levava ao mergulho na Segunda Realidade, desconectada do real. O instrumento de mergulho na Segunda Realidade é a lei positiva desconectada da lei natural e da lei divina. A coisa toda se torna um delírio de poder totalitário, capaz dos maiores e mais horrendos crimes. Vimos isso no comunismo e no nazismo, mas vimos também, em graus variados, em todos os Estados modernos. Aqui mesmo no Brasil tivemos esses delírios, a começar pelo massacre criminoso perpetrado em Canudos pelos positivistas que fundaram a República. Canudos é o crime original da nossa modernidade.

O filósofo que levou às últimas conseqüências a tese da criação da Segunda Realidade foi Eric Voegelin e foi ele quem deu a explicação definitiva do nazismo como fenômeno político dessa Segunda Realidade medonha.

Cervantes é atualíssimo. Compreender seu Dom Quixote é um antídoto para os perigos dos tempos. Retirar todas as conseqüências da obra é criar um bote salva-vidas contra os grandes perigos que estão à espreita nesse início de século e de milênio. Mas é também retornar ao cristianismo ortodoxo, algo que apavora os modernos ateus e agnósticos. Não deixa de ser irônico que estes abandonaram o cristianismo e abraçaram o profeta Maomé sem nem mesmo o saber. Eles não lêem Miguel de Cervantes.

* * * * *
Qual é a filosofia política estampada por Cervantes no Dom Quixote?
O legado de Cervantes


Por Nivaldo Cordeiro
21/7/2010

Se é imensa a contribuição de Miguel de Cervantes à filosofia política, ao destrinchar o mecanismo da Segunda Realidade revolucionária, típica dos tempos modernos, penso que esta contribuição específica se restringe mais ao campo da psicologia coletiva do que propriamente ao âmbito da política. É certo que esse mecanismo psicológico terá o poder de descrever tudo o que se passou desde o século XVI e seu poder explicativo se prolonga até os nossos dias. É impossível compreender os acontecimentos, nacionais e mundiais, sem ter à mão a genial descoberta cervantina.

Bem que se diga que a questão da loucura estava na ordem do dia no Renascimento. Erasmo explorou o tema em obra genial (ELOGIO À LOUCURA). Shakespeare terá em vários personagens a manifestação de loucura. Mas apenas Cervantes transformará a observação no prognóstico dos tempos que virão. Ortega y Gasset, em ensaio genial (IDEAS Y CREENCIAS), irá associar a modernidade à razão (físico-matemática assim como às de Estado, desconhecida esta na Idade Média), em substituição à fé em Deus dos tempos medievais. Não há dúvida de que a loucura coletiva será filha dessa hipertrofia da razão, elevada à condição de deusa por ocasião da Revolução Francesa.

Qual é a filosofia política estampada por Cervantes no Dom Quixote? Penso que em três momentos temos o tema abordado de forma saliente. O primeiro é quando, no capítulo XXII do Primeiro Livro, o Cavaleiro da Triste Figura liberta os condenados às galés. Ali estava a escória da sociedade, os criminosos mais perigosos. Eram doze e esse número não ao acaso equivale ao número dos apóstolos de Cristo. A modernidade escravizou de forma mais vil a fé cristã. A moral cristã passa a ser tida como o comportamento anti-social por excelência, contra a qual se insurgem todas as revoluções, a começar pela protestante. Ao largo da questão religiosa, todavia, convém ter em conta a biografia do próprio Cervantes, várias vezes jogado nos cárceres imundos do Estado espanhol por crimes que não cometeu.

Quixote pergunta a Sancho, ao ver os condenados conduzidos por soldados: “Como gente forzada? Es posible que El Rey haga fuerza a ninguna gente?” Quixote fica inconformado com a situação de que gente pudesse ser levada contra sua própria vontade e dá seu brado de liberdade: “...aquí encaja la ejecución de mi oficio: desfazer fuerzas e socorrer y acudir a los miserables”. Ato contínuo, partiu para libertar os prisioneiros.

Sem dúvida estamos aqui diante da perspectiva radicalmente cristã do direito, contrária à ordem estatal da modernidade. Cervantes anteviu o que viria nos séculos posteriores: hoje as multidões estão sendo encarceradas em proporções nunca vistas. Não custa lembrar que o Estado da Flórida, nos EUA, já chegou ao limite de ter dentro das prisões 5% de sua população masculina adulta. Os negros, tomados individualmente, já são 15% dos homens adultos feitos prisioneiros. É a hora do cavaleiro andante passear pelas terras do Tio Sam.

Outro momento importante da obra no tocante à ciência política está no capítulo LX do Segundo Livro, quando Dom Quixote e Sancho Pança são feitos prisioneiros do bando de Roque Guinart. O cavaleiro constatou que, mesmo numa sociedade constituída por delinqüentes, a justiça distributiva, nos termos aristotélicos ou do direito romano (geométrica, “dar a cada um o que é seu”), precisa prevalecer, sob pena de se dissolver o núcleo social. Não é privilégio de uma sociedade política institucionalmente organizada praticar tal distribuição do direito, que é “natural”. O direito depende da força, mas não tem nela sua fonte. A reflexão cervantina serve para nos alertar da necessidade e dos limites da ação dos operadores do direito. Em resumo, do Estado e seu direito não depende a liberdade enquanto tal.

Por último, depois de viver as aventuras na corte do duque, Dom Quixote parte e profere as magníficas palavras, uma ode à liberdade (capítulo LVIII do Segundo Livro): “La liberdad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que los hombres dieron los céus; com ella no poeden igualarse los tesoros que encierra la terra ni el mar encubre; por la liberdad así como por la honra se puede y debe aventurar la vida; y, por lo contrario, el cautiverio es el mayor mal que pode venir a los hombres.”

A mania moderna de ligar a liberdade ao poder de Estado pode ser, e parece de fato, sua grande armadilha. Quanto mais se clama pela lei do Estado, mais se reduz a liberdade e mais o gigante, como os moinhos de vento, torna-se o seu contrário e leva toda a gente presa como remadores cativos às galés, nas nossas modernas prisões.

Retirar o encanto do ente estatal agigantado será a grande obra de Cervantes, o seu legado. É preciso novamente meditar sobre as páginas imortais do Cavaleiro do Triste Figura. Se olharmos bem veremos que o Estado moderno, ao contrário daquele idealizado por Santo Agostinho, compele os homens ao mal e torna os vícios práticas forçadas, por curso legal.

* * * * *
Romance de Cervantes está completando quatrocentos anos
Atualidade do Dom Quixote


Por Nivaldo Cordeiro
22/6/2010

Decidi oferecer, no Instituto Internacional de Ciências Sociais, aqui em São Paulo, um curso sobre o livro de Miguel de Cervantes, Dom Quixote. O romance, que inaugurou o gênero, está completando quatrocentos anos. O primeiro dos dois livros que compõem a obra foi publicado em 1605 e o segundo em 1615. Com alguma justiça podemos dizer que o ano em curso é aquele que deve celebrar a efeméride.

Mas por que estudar o velho livro? Não é apenas a beleza estilística, o humor, a criatividade do autor que atraem na obra imorredoura. Cervantes deixou no livro um feito inigualável para a filosofia política: a compreensão da Segunda Realidade, aquela que presidirá o chamado mundo moderno. O conceito de Segunda Realidade foi muito explorado por grandes romancistas do final do século XIX e primeira metade do Século XX, com destaque para Roberto Musil e Thomas Mann. Mesmo Dostoievsky utiliza-o na sua narrativa para explicitar o real que se desenrolou na alma dos homens do seu tempo. Dom Quixote está no cerne da obra de filósofos como Eric Voegelin e Leo Strauss. Ele é também o alicerce de toda a obra filosófica de Ortega y Gasset.

Na verdade, todos os grandes romancistas, aqueles fazem a crônica das entranhas da humanidade, não podem deixar de recorrer à descoberta imorredoura de Miguel de Cervantes. O mundo como idéia (entre nós Bruno Tolentino nos legou obra imortal sob o mesmo prisma, em poesia) é o objeto de quem quer entender o que se passa. Isso é a modernidade, isso é o homem moderno. E é toda a loucura da jornada que nós próprios fazemos em nossa geração.

A modernidade é essa construção social do homem que busca, a só tempo, a perfeição em vida, pelo uso da lei estatal, e a afirmação do homem como ente descolado de qualquer elemento transcendente, dono de seu próprio destino, senhor do mundo. Todas as grandes obras de arte, de uma maneira ou de outra, relatam esse fenômeno, que contrasta com a mente dos homens que antecederam as grandes revoluções européias.

Esse é o tema principal do curso, que consistirá também de uma leitura pública da obra, apoiada pelos elementos biográficos de Cervantes. Tudo que de relevante foi escrito sobre o autor e a obra, desde Unamuno e Ortega y Gasset, passando por Harold Bloom e Mario Vargas Llosa, orientará a leitura.

Dom Quixote não se esgota, todavia, nesse plano da filosofia política. Ele é também um livro de iniciação, que relata a agonia do autor em busca do elemento transcendente. Esse é um dos aspectos fundamentais da obra e aqui o uso da psicologia junguiana é um guia útil para a descrição de pontos obscuros e complexos dos relatos. Dom Quixote tem vários planos de narrativas e, sem se perder, envereda por histórias singulares aparentemente desconectadas do fluxo principal.

Na edição comemorativa do Quarto Centenário Mario Vargas Llosa escreveu um prefácio, no qual teve a brilhante intuição de dizer que o Dom Quixote é um romance para o século XXI. Tem toda razão, mas o peruano não soube bem dizer o porquê dessa atualidade. Digo-lhe, caro leitor: é que o mundo é mais moderno do que jamais foi, mais louco, mais perigoso. Só o gigantismo da pena mágica de Cervantes para nos conduzir na compreensão das maluquices atuais e nos fazer retornar ao real. Nisso consiste sua atualidade; essa é a razão de eu propor o tema para o curso.

De te fabula narratur! Dom Quixote é um enigma e um destino, uma alegoria da verdade que se esconde sob a máscara da Segunda Realidade. Ninguém que queira encontrar-se a si mesmo pode prescindir de um mergulho sério e sistemático na história do fidalgo herói da Mancha.

* Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas pela EAESP-FGV. Empresário residente em São Paulo.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Gás natural seria pior que carvão


Gás natural seria pior que carvão

Combustível contribui mais para o Aquecimento Global do que se imaginava.

Considerado a alternativa mais "limpa" entre os combustíveis fósseis, o gás natural virou alvo de polêmica com estudos que indicam que ele pode ser na verdade pior para o ambiente do que o carvão. A raiz do problema estaria nas perdas durante o processo de extração. Embora libere a metade do dióxido de carbono (CO2) do carvão e 30% menos que o óleo diesel pela mesma quantidade de energia quando queimado, o metano é um gás-estufa cerca de 25 vezes mais poderoso que o CO2 na retenção de calor pela atmosfera. Assim, o gás que vaza dos poços facilmente anularia sua eficiência na luta contra o Aquecimento Global.

A discussão teve início no ano passado, quando Robert Howarth, professor de Ecologia e Biologia Ambiental da Universidade de Cornell, e sua equipe publicaram artigo na revista "Climate change" em que afirmavam que as perdas na extração, transporte e distribuição do gás natural eram muito maiores do que as anteriormente estimadas, chegando a 7,9% do total. Agora, novo estudo liderado pela cientista atmosférica Gabrielle Pétron, da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (Noaa) dos EUA e da Universidade do Colorado, diz que os vazamentos no processo de extração podem ser ainda maiores que os calculados por Howarth.

Pétron pesquisava a Qualidade do Ar nos arredores de Denver, no Colorado, quando, junto com a poluição urbana comum, detectou forte presença de metano e outros elementos do tipo nas amostras. Novas medições indicaram que o gás vinha de um campo de exploração próximo, batizado Denver-Julesburg, que estaria liberando 4% de sua produção diretamente na atmosfera. A quantidade é o dobro das perdas admitidas pelos produtores e acima das estimadas pela equipe de Cornell. Os resultados serão publicados em breve pelo "Journal of Geophysical Research".

"Se quisermos que o gás natural seja a fonte de combustível fóssil mais limpa, as emissões de metano têm que ser reduzidas", disse Pétron à "Nature", acrescentando não ver razões para que os números de outros poços e campos sejam muito diferentes. "Precisamos analisar seriamente as operações de gás natural em uma escala nacional."

Nos últimos anos, os EUA se tornaram um dos maiores produtores de gás natural do mundo graças a uma técnica polêmica apelidada "fracking". Corruptela para hydraulic fracturing (fratura hidráulica), ela consiste na injeção de água e compostos químicos sob alta pressão no subsolo para "expulsar" o gás preso em pequenos bolsões nas rochas. Os críticos afirmam que o método pode provocar a contaminação de fontes subterrâneas de água e desestabilizar o solo, mas seu uso tem sido estimulado pelo governo americano, de olho em opções para tornar a matriz energética do país mais autossuficiente e limpa, argumento que começa a ruir com os novos estudos.

"É ótimo ter números vindos diretamente do campo", comemorou Howarth em declaração à "Nature". "Não estou à procura de vingança, mas eles estão muito próximos e talvez até um pouco maiores que os nossos."

Como o estudo de Howarth, no entanto, o levantamento de Pétron também já é objeto de ressalvas por outros pesquisadores. Para Michael Levi, diretor do Programa de Segurança Energética e Mudanças Climáticas do Conselho de Relações Exteriores, muitas das suposições de Pétron são prematuras, assim como a crença de que o nível de perdas deve ser semelhante em todos os campos de produção: "Há dados observacionais fantásticos no artigo. Suspeito que haja muito mais a ser feito para jogar luz sobre os vazamentos de metano. Por enquanto, porém, não estou pronto para confiar em seus resultados".

Original em O Globo - 16/02/2012 - Ciência - p.36

Extraído de Jornal da Ciência

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Lobby contra estudos do clima nas escolas


Lobby contra estudos do clima nas escolas
17 fev 2012

Documentos vazam e mostram mobilização de ONG americana para tirar Aquecimento Global do currículo
Justin Gillis e Leslie Kaufman
 / do New York Times

Documentos vazados na internet sugerem que uma organização conhecida por atacar a ciência do clima estaria planejando uma nova ação para tentar minar o ensino do Aquecimento Global em escolas públicas dos Estados Unidos. A ONG de Chicago chamada de Instituto Heartland pretende promover um currículo que lance dúvidas sobre a constatação científica de que as emissões de combustíveis fósseis têm consequências ruins para o planeta.

“Diretores e professores estão fortemente inclinados na direção de uma perspectiva alarmista”, diz o documento.

Especialistas que defendem o ensino de ciências já estavam se preparando para uma batalha. Eles alertam que os esforços para minar as matérias que tratam de Aquecimento Global estão se espalhando pelos Estados Unidos e temem uma luta semelhante à travada contra o ensino da evolução nas escolas públicas.

Em um memorando, o Instituto Heartland reconheceu que alguns dos seus documentos internos tinham sido roubados. Seu presidente, em nota, não confirmou se as versões que circulam na internet desde a última terça-feira [14 fev 2012] foram modificadas ou não, alegando falta de tempo para checar estas informações. O Instituto chegou a se desculpar com doadores cujos nomes foram divulgados nestes vazamentos, reforçando a ideia de que eles são autênticos.

Muitos detalhes das operações da ONG, incluindo salários e as ações recentes para angariar recursos, estão descritas. Os documentos foram enviados por e-mail para ativistas climáticos por um remetente que usou o nome “de dentro do Heartland”. Rapidamente o material foi republicado em sites que abordam as Mudanças Climáticas.

O Instituto Heartland se define como uma organização libertária, com interesses em uma ampla gama de questões de políticas públicas. Nos documentos vazados há a estimativa de movimentar 7,7 milhões de dólares neste ano.

Os documentos também mostram que o grupo recebeu dinheiro de algumas das maiores corporações do país, incluindo algumas que há muito defendem a luta contra as Mudanças Climáticas.

Os documentos normalmente dizem que essas doações foram destinadas a projetos não relacionados à mudança climática, como a publicação de boletins informativos. Mesmo assim, várias destas empresas, entre elas a GlaxoSmithKlin e a Microsoft, se apressaram na quarta-feira a se desassociar da postura da ONG.

O plano mais recente da Heartland, os documentos dizem, é criar um currículo para as escolas públicas no qual a ciência do clima é questionada. Para isso, a ONG separou 200 mil dólares em 2012. O currículo diria, por exemplo, que “se os seres humanos estão mudando o clima é uma grande controvérsia científica”.

Extraído de tvmeioambiente

Original em O Globo - 17 fev 2012 - Caderno Economia - p. 36 - Ciência